A nova força contra o populismo de direita

A nova força contra o populismo de direita

Liberais e verdes crescem nas eleições europeias, tiram peso político de partidos tradicionais e surgem como alternativa ao nacionalismo de caráter não liberal

João Paulo Carvalho, ESPECIAL PARA O ESTADO / LONDRES, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2019 | 05h00

 O Partido Liberal-Democrata (Lib-Dem) tem tido uma movimentação atípica nos últimos dias. Dezenas de pessoas entram e saem do comitê, na região oeste de Londres, a cada dez minutos. Com um sorriso no rosto, todos cumprimentam jornalistas e curiosos com um surpreendente e caloroso “bom dia”.

Os militantes da legenda não escondem a satisfação pelo ótimo resultado obtido nas eleições europeias realizadas na semana passada. “Foi uma vitória bastante simbólica, mas nossa luta para barrar o Brexit está apenas começando. Vem muita coisa pela frente”, diz o britânico Peter Ashworth, filiado ao Lib-Dem há oito anos.

A maior parte dos eleitores liberais é formada por homens e tem entre 25 e 35 anos. São, neste caso, os chamados “jovens adultos”. De classe média alta, com nível superior e já com alguma bagagem profissional, eles não se encaixam no radicalismo de mercado da direita ou unicamente nas pautas da classe trabalhadora. O Lib-Dem conseguiu 19,76% dos votos. Dessa porcentagem, mais da metade do eleitorado tem o terceiro grau completo, 13% são homens e 12% possuem emprego formal. 

Além disso, são contra a saída da União Europeia (UE). “O Brexit foi muito mal conduzido. Theresa May demonstrou uma incapacidade gigantesca para governar. Eu optei pelo Lib-Dem justamente pela clareza das ideias do partido sobre um tema tão importante para todos. A verdade é que ninguém falou sobre como fica o Reino Unido sem o Brexit. Há muitas coisas em jogo: remédios, abastecimento de produtos e a economia, só para citar alguns poucos exemplos”, afirma o médico Rex Melvile, de 29 anos.

“Acho que, quando votamos, temos de levar em conta várias outras questões que afetam diretamente nossas vidas: segurança e saúde. O Lib-Dem ponderou muito bem esses pontos sem nenhum extremismo”, afirma o gerente administrativo Eric Hughes, de 33 anos.

No último fim de semana, o partido liderado por Vince Cable elegeu 16 representantes para o Parlamento Europeu. Comparado a 2014, na última eleição, houve um aumento de mais de 30% de eurodeputados. Mesmo com o resultado expressivo, e até certo ponto surpreendente, o Lib-Dem não foi o mais votado. O partido pró-Brexit, liderado pelo nacionalista Nigel Farage, será o de maior representação no Parlamento Europeu, com 29 deputados.

O cenário, porém, é inédito no Reino Unido. Nem o Partido Trabalhista, nem o Conservador - maiores e mais tradicionais legendas britânicas - ficaram nas primeiras colocações. Os conservadores, da premiê Theresa May, foram apenas o quinto mais votado e só levarrão 4 dos 73 assentos britânicos no Parlamento Europeu. Mais uma derrota de May, que renunciou após o fracasso nas negociações sobre o Brexit. Ela deixará o cargo no dia 7.

Segundo o professor Guilherme Athia, mestre em relações internacionais pela Fletcher School of Law and Diplomacy, nos EUA, o liberalismo está em alta na Europa. “O continente vive uma onda liberal. Muitos dos eleitores dos partidos mais conservadores migraram para o liberalismo porque há ali um discurso mais diverso e inclusivo. O liberalismo defende a livre concorrência de mercado e a competição, mas não permite o descumprimento de regras da União Europeia”, afirma Athia. Os liberais europeus se distanciam do conservadorismo em temas comportamentais.

No caso do Reino Unido, a ascensão dos liberais se deve em grande parte ao Brexit, principal tema de discussão no país. Para o eleitorado britânico conservador, o Lib-Dem foi o único partido capaz de promover um debate inteligente e defender a permanência do Reino Unido no bloco. Cable, que deve se aposentar em julho, e seus dois possíveis substitutos, Jo Swinson e Ed Davey, defendem a convocação de um novo plebiscito sobre o tema antes de 31 de outubro.

Fragmentação

As eleições europeias aumentaram a fragmentação do Parlamento Europeu. Os tradicionais partidos de centro-direita e de centro-esquerda continuam formando os maiores grupos, mas perderam espaço para liberais e ecologistas. Os 751 parlamentares são responsáveis por sugerir emendas ou rejeitar leis propostas por outras instituições, além de fiscalizar as finanças da União Europeia.

O Partido Popular Europeu (EPP), agrupamento de centro-direita, elegeu 179 políticos, 42 a menos que em 2014. A aliança reúne os mais tradicionais partidos de orientação conservadora da Europa, como a União Democrata-Cristã (CDU), da chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Apesar da queda, o EPP continuará com o maior número de assentos e deve eleger o próximo presidente da Comissão Europeia.

A Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D) também teve menos deputados eleitos. Os partidos de orientação social-democrata mantiveram a força na Espanha e em Portugal, onde governam. Mas decepcionaram em países importantes, como Reino Unido, Alemanha e França.

Já a Aliança dos Liberais e Democratas pela Europa (Alde), na qual está incluído o Lib-Dem, teve o maior crescimento: de 67 parlamentares, em 2014, para 105 agora. O grupo defende a União Europeia e conta com o apoio do partido Em Marcha, de Emmanuel Macron, presidente da França, e do Ciudadanos, nova força eleitoral da Espanha, liderado por Albert Rivera.

A aliança entre partidos e políticos ambientalistas da UE, os chamados Verdes-EFA, também obteve votação surpreendente. Eles conseguiram um ótimo resultado na Alemanha, onde ficaram em segundo lugar - enviarão 69 deputados ao Parlamento Europeu (antes tinham 50). O EFA defende que o bloco adote medidas para que todos os países se comprometam com políticas ambientais, sobretudo para combater as mudanças climáticas.

Segundo Athia, os atuais modelos partidários precisam ser revistos. “Essa chamada onda verde e liberal mostra que as pessoas estão buscando outras alternativas para serem representadas politicamente. Os partidos mais tradicionais, que estão em franca decadência, não são mais capazes de externar os desejos do eleitor. A Suíça é um exemplo a ser seguido. Lá eles fazem vários referendos e pedem a opinião da população sobre diversos assuntos. Trata-se, portanto, de um modelo mais rápido que aproxima o povo de pautas importantes para a sociedade”, explica.

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