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A nova fronteira da jihad

O Estado Islâmico tem o Oriente como alvo, mas não encontra terreno muito fértil para sua pregação jihadista

The Economist, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2016 | 03h00

À primeira vista, o lema do Estado Islâmico (EI), “resistir e expandir”, ajuda a explicar as notícias chocantes que recentemente dominaram a primeira página dos jornais asiáticos. A chacina ocorrida no dia 1.º num restaurante de Bangladesh; o lançamento de uma granada contra uma casa noturna na Malásia uma semana antes; o homem-bomba morto na terça-feira na cidade de Solo, na Indonésia; e as decapitações, uma em abril, outra em junho, de dois ocidentais nas Filipinas. Todos os episódios trazem a marca abominável dos jihadistas.

Um vídeo divulgado há não muito tempo pelo EI – com versões em filipino, malaio e indonésio, além de árabe e inglês – convoca os jihadistas que não têm como se deslocar até a região do Iraque e da Síria, onde o grupo instalou seu “califado”, a juntar-se ao combate nas Filipinas mesmo. Outro vídeo, este em bengali, elogia os terroristas do restaurante de Bangladesh e promete mais atentados. Sob pressão em seu próprio território, o EI se volta para o leste – ao mesmo tempo em que tenta instaurar o caos no Oriente Médio e espalhar o medo na África e no Ocidente.

Contudo, ainda que o mapa do terror na Ásia tenha passado a atingir o observador com os recém-espetados alfinetes do EI, um olhar mais detido revela que o cenário não é tão alarmante assim. Os últimos incidentes foram reivindicados pelo Estado Islâmico ou atribuídos ao grupo pelas forças de segurança locais. Mas nenhum dos atentados cometidos recentemente na Ásia foi obra de terroristas treinados, agindo no interior de perceptíveis estruturas de comando. E, ainda que todos os atentados tenham acontecido em países de maioria muçulmana, exceto nas Filipinas, nenhum grupo local ligado ao EI parece ter muitas chances de conquistar o apoio de segmentos expressivos da população da região.

O massacre ocorrido num restaurante sofisticado de Daca, capital de Bangladesh, foi atroz. Os terroristas pouparam a vida da maioria dos reféns muçulmanos, mas liquidaram outras 20 pessoas, entre as quais 9 italianos e 7 consultores japoneses envolvidos em projetos de cooperação internacional. 

O EI postou triunfalmente algumas fotos dos jovens e sorridentes terroristas que executaram a ação – todos na mesma pose, com fuzis na mão. No entanto, uma análise mais minuciosa revela que eles seguravam a mesma arma: uma versão barata, e de calibre menor, do popular Kalashnikov.

Índia. Em novembro, a publicação online Dabiq, do EI, anunciou que “soldados do califado” iriam “se levantar e expandir na região de Bengala”. Em abril, a revista publicou entrevista com o “emir dos soldados do califa em Bengala”, que afirmou que seus comandados estavam “afiando as facas para trucidar os ateus, os que zombam do Profeta e todos os outros apóstatas da região”. O objetivo final, segundo ele, seria atacar a Índia e disseminar o caos no país.

Não parece que massacrar comensais num país muçulmano vizinho contribua muito para que essa meta seja atingida. Mais apropriado seria organizar células terroristas na própria Índia. Em maio, o EI divulgou um vídeo em que um miliciano do grupo na Síria, aparentemente de origem indiana, declarava que os jihadistas libertariam da dominação hindu os 180 milhões de muçulmanos do país, e concluía suas palavras incitando os muçulmanos indianos a se rebelar. 

A polícia da Índia diz ter desbaratado pelo menos três grupos ligados ao Estado Islâmico desde o início do ano. Ao que parece, o mais perigoso deles era uma célula instalada na cidade de Hyderabad. A polícia diz que cinco homens, atualmente detidos, escreveram e-mails em que juravam fidelidade a Abu Bakr al-Baghdadi, o “califa” do EI. Com o grupo foi encontrado um estoque de substâncias químicas que poderiam ser utilizadas na fabricação de explosivos, mas a quantidade não era expressiva.

Amadorismo. Em outros países da região, o EI revela o mesmo amadorismo. A polícia da Malásia inicialmente atribuiu a explosão de uma pequena granada, lançada no dia 28 contra um bar dos arredores da capital, Kuala Lumpur, a uma disputa entre bandos criminosos rivais. A detonação deixou oito feridos entre os clientes do estabelecimento. Só quando o EI assumiu no Facebook a responsabilidade pela ação foi que as autoridades admitiram que esse era, possivelmente, o primeiro atentado do grupo no país. A polícia deteve 15 suspeitos, 2 dos quais teriam recebido ordens de um recruta malaio que se encontrava em território dominado pelo Estado Islâmico. A polícia informa também que frustrou os planos de outras nove ações terroristas nos últimos dois anos e, de janeiro de 2015 até agora, prendeu cerca de 160 suspeitos de envolvimento em atividades terroristas.

Incidentes recentes na Indonésia tampouco cobrem o EI de glória. A única coisa que o homem-bomba de Solo conseguiu foi matar a si mesmo e ferir um policial. Também aqui a polícia afirma que o terrorista seguia ordens de longe, desta vez transmitidas por um miliciano indonésio – conhecido das autoridades do país –, que estaria em território do EI. A segurança foi reforçada na Indonésia depois que, em janeiro, jihadistas ligados ao EI mataram quatro pessoas num movimentado bairro comercial da capital, Jacarta. Dois dos quatro terroristas envolvidos na ação detonaram prematuramente os explosivos que traziam presos ao corpo. Atiradores da polícia rapidamente liquidaram os outros dois.

Na tumultuada Ilha de Mindanao, nas Filipinas, o Estado Islâmico parece ter feito mais progressos. Neste caso, a ação dos jihadistas se dá no contexto de um arrastado conflito entre as forças de segurança e alguns grupos muçulmanos separatistas, entre cujas motivações a religião compete com o instinto criminoso: o mesmo grupo que decapitou dois reféns canadenses este ano, e ainda mantém em cativeiro um norueguês, também sequestrou pescadores locais a fim de faturar com seu resgate.

Não deixa de ser revelador que o maior “sucesso” dos terroristas tenha ocorrido em Bangladesh. Apesar de uma série de assassinatos com motivações religiosas nos últimos anos, a Liga Awami, partido que atualmente governa o país, insiste em pôr a culpa em agremiações políticas adversárias, ou até mesmo nas próprias vítimas, em vez buscar responsáveis mais óbvios. O governo de Bangladesh também ignora as queixas de pais cujos filhos adolescentes desaparecem ou são submetidos a “lavagem cerebral” por grupos jihadistas.

Desafio. Nos países onde a polícia faz seu trabalho com mais seriedade, o EI não tem conseguido prosperar. O maior desafio, considerando que a maior parte do 1,6 bilhão de muçulmanos que há no mundo vive na Ásia é diluir o impacto dos apelos que o Estado Islâmico agora faz em idioma local. No mês passado, o ministro da Defesa da Indonésia chamou a atenção para o fato de que, em levantamento realizado no país em dezembro de 2015, 96% dos entrevistados disseram se opor categoricamente à ideologia do EI. 

Os últimos atentados não devem ter reduzido a repulsa que essas pessoas sentem pelo grupo. Cabe ao governo, disse o ministro, se concentrar nos 4% que não quiseram opinar.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.[/ASSINAPE]<EM>

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