Nikolay Doychinov/AFP
Nikolay Doychinov/AFP

A nova geração revolucionária da Bulgária 

Jovens que estudaram fora do país reclamam da corrupção e querem participar da política

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2020 | 03h00

SOFIA - Há 15 dias, eles estão na linha de frente das manifestações contra o governo do primeiro-ministro Boiko Borisov, da Bulgária. São jovens formados no exterior que pedem mudança em um país que consideram corroído pela corrupção.

Os manifestantes estudaram ou trabalharam na Alemanha, na Holanda ou nos Estados Unidos e vão às ruas para protestar com suas bicicletas e carrinhos de bebê. “A corrupção faz parte do sistema de tal maneira que mudar as coisas exige mais do que alternância política”, diz Krassimir, de 29 anos, que trabalha no setor financeiro. 

“Casas compradas por um punhado de moedas, subornos. Os políticos não têm moral”, afirma Mirela Yotova, engenheira, de 30 anos.

“O governo de coalizão feito entre o conservador Borissov e dois partidos nacionalistas é “incapaz de seguir as prioridades de Bruxelas”, lamenta o eurodeputado Radan Kanev, que se opõe ao premiê. “Novas tecnologias, economia verde, o governo está atrasado em tudo isso.”

Ao contrário do eleitorado de Borissov, de idade avançada e pouco antenado nas novidades vindas do exterior, os búlgaros mais jovens e com maior escolaridade são fluentes em várias línguas e enxergam melhor as diferenças entre o país e as oportunidades no exterior. 

“Existe um abismo entre a Bulgária e a Holanda, por exemplo”, afirma Evgueni Martchev, com certa amargura. Ele estudou direito em Haia e foi ferido pela polícia em uma manifestação em Sofia. 

Segundo a socióloga Evelina Slavkova, essa nova geração de búlgaros não pede aumento de salários, como é comum em protestos no país. “A maioria persegue um ideal”, afirma.

A pandemia de coronavírus e a desaceleração da economia provocaram um descontentamento que há muito estava adormecido na Bulgária, principalmente entre os jovens que sentem que o Estado não lhes dá nada. “Eles querem participar da vida pública”, diz o antropólogo Haralan Alexandrov. “Os jovens não estão representados na política e estão procurando seu lugar”, concorda a socióloga Boriana Dimitrova.

Em razão da “fuga de cérebros”, a Bulgária perdeu mais de 2 milhões de habitantes desde a queda do regime comunista, em 1989. 

Para Galina Hristova, de 60 anos, “será necessária uma grande mudança para que os jovens retornem” ao país. Ela segura sua neta pela mão e conta que só vê os seus filhos “por Skype”, pois eles tiveram de ir para o exterior para ganhar a vida. / AFP

Tudo o que sabemos sobre:
Bulgária [Europa]corrupção

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.