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Adriana Carranca
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A nova guerra

Objetivo da Rússia é tentar minar as democracias

O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2016 | 07h55

Em entrevista ao canal de televisão russo RT, em 2013, o presidente Vladimir Putin prometeu “quebrar o monopólio anglo-saxão sobre os fluxos de informação global”. Mas o ex-agente da KGB fez mais do que isso. O rastreamento de notícias e mensagens mais compartilhadas nas redes sociais durante as eleições nos EUA mostrou como a sofisticada máquina de propaganda russa foi usada para disseminar informações falsas e teorias conspiratórias contra a democrata Hillary Clinton, beneficiando o candidato eleito, o republicano Donald Trump, na corrida à Casa Branca. 

Parte do conteúdo era produzida nos EUA, por sites de extrema-direita, e amplificada através de recursos que usavam algoritmos para que os posts fossem identificados como “trending topics” e de uma extensa rede de sites e contas em mídias sociais usadas exclusivamente com esse fim. 

A operação russa também contou com hackers que invadiram o site de vários funcionários do governo. Outra parte do material, incluindo notícias falsas, segundo os pesquisadores Foreign Policy Research Institute, que rastreia a propaganda russa desde 2014, foi produzida por veículos estatais de mídia russos, como RT e Sputnik. 

Embora não seja possível calcular em que extensão a propaganda russa beneficiou Trump, como colocou o Washington Post, os pesquisadores acreditam que a operação ajudou a minar a credibilidade da democracia americana e de políticos tradicionais. 

O uso da propaganda como arma é conhecido. Adolf Hitler defendeu em 1926 a estratégia que usaria para espalhar o antissemitismo. Na 1.ª Guerra, a propaganda já havia sido usada para demonizar e alimentar o ódio contra inimigos, convencer a população sobre a moralidade dos conflitos e atrair cooperação dos países neutros. Quando estourou a 2.ª Guerra, o processo de industrialização havia transformado a informação em um engenhoso aparato de manipulação das massas. 

Os dois blocos montaram grandes estruturas de mídia para propagar sua ideologia – de um lado, o bloco comunista liderado pela União Soviética e China; de outro, o bloco capitalista com EUA e Europa Ocidental. No Afeganistão, a agência americana CIA investiu milhões para propagar a jihad como obrigação dos muçulmanos e assim unir tribos afegãs contra os infiéis soviéticos, que invadiram o país em 1978. 

O que é espantoso agora, além do alcance maior da internet, é a capacidade de influenciar com informações falsas leitores que têm amplo acesso à informação. Parte dos que compartilharam notícias propagadas pela Rússia sabia fazer parte de uma campanha, segundo os pesquisadores. Outros são os “useful idiots” (idiotas úteis), termo da Guerra Fria para descrever pessoas e instituições que contribuíram sem perceber com os esforços de propaganda. 

Há uma nova classe de “useful idiots”: os que lucram com isso. São os “oportunistas digitais da era moderna”, como descreveu o WP, em outra reportagem também desta semana sobre Paris Wade, ex-garçom até poucos meses atrás desempregado, que hoje ganha dinheiro explorando o rancor de internautas com falsidades, especulações e linguagem agressiva. Ele criou o site pró-Trump LibertyWritersNews.com, com que lucrou entre US$ 10 mil e US$ 40 mil por mês de junho a agosto, mas viu seu alcance e renda quintuplicar perto da eleição. 

A Rússia também é acusada de financiar partidos de extrema direita na Hungria, Grécia e França, e de influenciar a campanha do “Brexit” que levou à saída do Reino Unido da União Europeia. Por trás da campanha russa está a tentativa de minar a credibilidade das democracias, em um novo conflito global de narrativas, cujo impacto nós estamos começando a conhecer agora.

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