A nova Guerra dos 30 anos

Situação do Oriente Médio de hoje é semelhante à da Europa entre 1618 e 1648

RICHARD N., HASS, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2014 | 02h01

É uma região arruinada por uma luta sectária entre tradições religiosas concorrentes. Mas o conflito também envolve militantes e moderados e é alimentado por governantes vizinhos que procuram defender seus interesses e aumentar sua influência. Conflitos ocorrem dentro dos Estados e entre eles; guerras civis e guerras por procuração se tornam impossíveis de distinguir.

Governos com frequência perdem o controle para grupos menores - milícias, etc. - que operam dentro e além de suas fronteiras.

A perda de vidas é devastadora e milhões de pessoas ficam desabrigadas.

Esta poderia ser uma descrição do Oriente Médio atual. Na verdade, descreve a Europa na primeira metade do século 17.

No Oriente Médio, em 2011, surgiram mudanças após um vendedor de frutas tunisiano humilhado atear fogo às próprias roupas em protesto; em semanas, a região se incendiou. Na Europa do século 17, uma insurgência religiosa local por protestantes boêmios contra o imperador Habsburgo católico Ferdinando II desencadeou a conflagração daquela época.

Tanto protestantes como católicos buscaram apoio de seus correligionários dentro dos territórios que um dia seriam a Alemanha.

Muitas das principais potências da época, incluindo Espanha, França, Suécia e Áustria, foram arrastadas para o conflito. O resultado foi a Guerra dos 30 Anos, o episódio mais violento e destrutivo da história europeia até as duas guerras mundiais do século 20.

Há diferenças óbvias entre os eventos de 1618-1648 e os de 2011-2014 no Oriente Médio. Mas as semelhanças são muitas - e graves. Três anos e meio após o despertar da Primavera Árabe há uma possibilidade real de estarmos testemunhando a primeira fase de uma prolongada, dispendiosa e mortal disputa; por ruim que estejam as coisas, elas podem ficar ainda piores.

A região está madura para o tumulto. A maioria de seus habitantes é politicamente impotente e carente de riqueza e perspectivas. O Islã nunca experimentou algo semelhante à Reforma na Europa; as linhas que separam o sagrado do secular são obscuras e contestadas.

Mais ainda, as identidades nacionais com frequência competem com - e são cada vez mais sobrepujadas por - as que derivam de religião, seita e tribo.

A sociedade civil é fraca. Em alguns países, a presença de petróleo e gás desencoraja o surgimento de uma economia diversificada e, com ela, uma classe média. A educação privilegia o aprendizado decoreba ao pensamento crítico. Em muitos casos, os governantes autoritários não têm legitimidade.

Os atores externos, pelo que fizeram e deixaram de fazer, jogaram lenha na fogueira. A guerra do Iraque de 2003 teve fortes consequências porque exacerbou as tensões entre sunitas e xiitas em um dos países mais importantes da região e, por conseguinte, em muitas outras sociedades divididas da região.

A mudança de regime na Líbia criou um Estado capenga; o apoio morno a uma mudança de regime na Síria preparou o terreno para uma guerra civil prolongada.

A trajetória da região é preocupante: Estados fracos incapazes de policiar seu território; poucos Estados relativamente fortes competindo por primazia; milícias e grupos terroristas ganhando influência; e o apagamento de fronteiras. A cultura política local confunde democracia com ditadura da maioria e eleições são usadas como veículos para consolidar o poder, e não para compartilhá-lo.

Além do enorme sofrimento humano e a perda de vidas, o subproduto mais imediato da conturbação da região é o potencial para o terrorismo mais grave e frequente - tanto no Oriente Médio como emanando dele. Há também o potencial para a interrupção da produção e transferência da energia.

Há limites para o que pessoas de fora possam fazer. Às vezes, os dirigentes precisam se concentrar em impedir que as coisas se agravem, e não em agendas ambiciosas para o aprimoramento; este é um desses momentos.

O que ele pede, mais do que tudo, é a prevenção de uma proliferação nuclear (a começar com o Irã), seja pela diplomacia ou por sanções e, se necessário, mediante sabotagem e ataques militares.

A alternativa - um Oriente Médio em que vários governos e, por meio deles, milícias e grupos terroristas, têm acesso a armas e materiais nucleares - é demasiadamente horrível de se contemplar.

Medidas para reduzir a dependência global dos suprimentos de energia da região (incluindo melhoras na eficiência de combustíveis e o desenvolvimento de fontes alternativas) também fazem muito sentido. Uma assistência econômica deve ir simultaneamente à Jordânia e ao Líbano para ajudá-los a lidar com a onda de refugiados.

A promoção da democracia na Turquia e no Egito deve focar no fortalecimento da sociedade civil e na criação de constituições sólidas que dispersem o poder.

O contraterrorismo contra grupos como o Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês), que hoje se autodenomina simplesmente "Estado Islâmico" - seja por drones, pequenas incursões ou o treinamento e armamento de parceiros locais - deve se tornar um elemento básico da política.

É hora de reconhecer a inevitabilidade da fragmentação do Iraque (hoje, o país é mais um veículo para a influência do Irã do que um baluarte contra ele) e fortalecer um Curdistão independente dentro das antigas fronteiras do Iraque.

Não há espaço para ilusões. Uma mudança de regime não é uma panaceia; pode ser difícil de alcançar e quase impossível de consolidar.

Negociações não podem resolver todos, nem mesmo a maioria dos conflitos.

Isso é certamente verdade, por enquanto, na disputa israelense-palestina. Mesmo que esta mude, um acordo abrangente ajudaria as populações locais, mas não afetaria a dinâmica de países e conflitos vizinhos.

Isso posto, um cessar-fogo limitado entre Israel e o Hamas deve ser buscado.

Uma diplomacia assim só pode funcionar na Síria se for aceita a realidade local (incluindo a sobrevivência do regime Assad no futuro previsível) em vez de tentar transformá-la.

A resposta não vai ser encontrada no traçado de novos mapas, embora depois que as populações houverem se deslocado e a estabilidade política for restaurada, o reconhecimento de novas fronteiras poderá se mostrar desejável e viável.

Os dirigentes precisam reconhecer seus limites. Por enquanto e no futuro previsível - até uma nova ordem local surgir ou a exaustão se estabelecer - o Oriente Médio será menos um problema a ser resolvido do que uma condição a ser administrada. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PRESIDENTE DO COUNCIL ON

FOREIGN RELATIONS

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