A nova linha divisória da política

Disputa agora ocorre entre os que defendem fronteiras abertas e os que pretendem fechá-las

The Economist, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2016 | 05h00

Adeus esquerda e direita. A briga que importa agora é entre os que defendem fronteiras abertas e os que querem fechá-las. Em se tratando de teatro político, as convenções dos partidos americanos são insuperáveis. Este ano, porém, foi diferente. As convenções realçaram uma nova linha de clivagem política: não mais entre direita e esquerda, mas entre “abertos” e “fechados”.

Com seu estilo rispidamente telegráfico, o candidato republicano Donald Trump sintetizou um dos lados dessa divisão: “Americanismo, e não globalismo, será o nosso credo”, declarou. Seus vitupérios contra o livre-comércio encontravam eco entre os democratas que defendiam a candidatura de Bernie Sanders.

Os EUA não estão sozinhos nessa. Por toda a Europa, os políticos cuja popularidade está em alta pintam o mundo como um lugar hostil e dizem que as nações que sabem onde têm o nariz devem erguer muros para se proteger. Argumentos desse tipo ajudaram a levar os ultranacionalistas ao poder na Hungria e na Polônia, onde o governo age com um misto de xenofobia e desdém por preceitos constitucionais digno de um Trump.

Os partidos europeus de viés populista e autoritário têm hoje o dobro da preferência que tinham entre os eleitores em 2000 e estão no governo, ou fazem parte de coalizões governamentais, em nove países do continente.

O adeus que os britânicos resolveram dar à União Europeia (UE) é o maior troféu conquistado até agora pelos antiglobalistas: para convencer os eleitores a pedir a desfiliação do mais bem-sucedido clube de livre-comércio do mundo, apelou-se cinicamente a seus instintos insulares, rachando os principais partidos do país ao meio.

Padrões. Comecemos relembrando o que está em jogo. O sistema multilateral de instituições, regras e alianças, liderado pelos EUA, há sete décadas, oferece sustentação à prosperidade mundial. Foi esse sistema que viabilizou a reconstrução da Europa no pós-guerra, derrotou o mundo fechado do comunismo soviético e, integrando a China à economia global, produziu a maior redução de pobreza da história da humanidade.

Um mundo de países murados será mais pobre e perigoso. Se a Europa se desintegrar, dando lugar a uma colcha de retalhos pirracentos, e os EUA se voltarem para seu próprio umbigo isolacionista, potências menos benignas ocuparão o vácuo. Ao declarar que talvez não se disponha a defender os aliados bálticos dos EUA, caso eles se vejam ameaçados pela Rússia, Trump foi de uma irresponsabilidade estarrecedora. 

Os americanos assumiram o compromisso de tratar eventuais ataques a qualquer membro da Otan como uma agressão a todos os integrantes da aliança. Se Trump se der ao desplante de, sem mais nem menos, descumprir um tratado internacional, por que algum aliado voltaria a confiar nos EUA?

Sem nem sequer ter sido eleito, o candidato republicano conseguiu deixar os arruaceiros do mundo assanhados. Não admira que Vladimir Putin o apoie. De qualquer forma, é revoltante que Trump tenha incitado os russos a continuar hackeando os e-mails dos democratas.

Abertura. Os agorafóbicos já estão causando grandes problemas. O Reino Unido parece caminhar para uma recessão, graças à perspectiva do Brexit. A União Europeia está balançando: se, no ano que vem, os eleitores franceses colocarem a nacionalista Marine Le Pen na presidência do país, e em seguida imitarem os britânicos e buscarem a porta de saída, a UE corre o risco de entrar em colapso. Trump minou a confiança das instituições globais como faz com o dinheiro dos que arriscam a sorte em seus cassinos.

Para enfrentar os adoradores de muros será preciso reforçar a retórica, adotar políticas mais ousadas e empregar estratégias mais inteligentes. Primeiro, a retórica. Os defensores de uma ordem mundial aberta precisam perder o medo de lutar por aquilo em que acreditam. Têm de lembrar aos eleitores por que a Otan é importante para os EUA e por que a UE é importante para a Europa.

Soluções. São excessivamente numerosos os que, mesmo acreditando na globalização, começam a recuar, balbuciando tolices sobre um tal de “nacionalismo responsável”. Atualmente, só alguns políticos - Justin Trudeau, no Canadá; Emmanuel Macron, na França - têm coragem de defender francamente a abertura. É preciso que outros se mirem em seus exemplos.

Por outro lado, é importante reconhecer que, em alguns pontos, a globalização precisa de reparos. O comércio internacional cria muitos perdedores e os fluxos muito intensos de imigração podem destruir o tecido social de certas comunidades. Mas erguer barreiras não é a melhor maneira de lidar com esses problemas.

Trata-se, isso sim, de elaborar políticas arrojadas, que preservem os benefícios da abertura, ao mesmo tempo em que aliviam seus efeitos colaterais. Deixemos que os bens e os investimentos fluam livremente, mas fortaleçamos as redes de segurança social que oferecem apoio e novas oportunidades para aqueles cujos empregos são destruídos.

Para lidar melhor com os fluxos de imigração, é fundamental investir em infraestrutura, garantir que os imigrantes tenham trabalho e aceitar regras que limitem a entrada de pessoas quando o movimento imigratório se torna excessivo (do mesmo modo que as regras do comércio internacional permitem aos países limitar altas extraordinárias nas importações). O que não se pode fazer é igualar a tarefa de administrar a globalização com seu abandono.

Quanto à estratégia, para os que querem manter as pontes levadiças abaixadas, dos quais há representantes em ambos os lados da tradicional divisão entre esquerda e direita, a questão é como vencer. As abordagens mais eficazes variam de país para país. Na Holanda e na Suécia, os partidos moderados se uniram para manter os nacionalistas fora do governo. Aliança semelhante derrotou Jean-Marie Le Pen, da Frente Nacional, no segundo turno da eleição presidencial francesa de 2002, e talvez tenha de ser reeditada no ano que vem para impedir que sua filha chegue ao Eliseu. No Reino Unido, talvez venha a ser necessária a formação de um novo partido de centro.

Nos EUA, onde as consequências de uma vitória dos fanáticos por muros seriam ainda mais graves, a resposta tem de vir do interior das estruturas partidárias existentes. Para os republicanos que falam a sério quando dizem que é preciso resistir aos antiglobalistas, o jeito é tapar o nariz e apoiar Hillary.

E a própria candidata, agora que obteve a indicação democrata, precisa defender a abertura de fronteiras com todas as letras, em vez de fazer declarações evasivas e ambíguas. A escolha de Tim Kaine, um globalista que fala espanhol fluentemente, como companheiro de chapa, é um bom sinal. Mas as pesquisas indicam uma disputa apertada e isso é inquietante. O futuro da ordem mundial liberal depende da vitória de Hillary.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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