A nova locomotiva da Europa

Polônia representa uma das poucas histórias de sucesso desde a queda do bloco soviético e tem desenvolvimento notável na região

, ERICH FOLLATH & , JAN PUHL , DER SPIEGEL, SÃO JORNALISTAS, , ERICH FOLLATH & , JAN PUHL , DER SPIEGEL, SÃO JORNALISTAS, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2012 | 03h07

Há cidades tão desinteressantes quanto as pedras de que são feitas, rígidas e pesadas, construídas com tamanho refinamento que não parecem ter sido tocadas pelos caprichos da história. E há os outros tipos, as cidades cruas, toscas, inacabadas e excitantes do mundo.

Varsóvia é uma destas últimas, um lugar que parece estalar e gemer em toda sua glória inacabada. Ninguém sonharia em chamar a capital polonesa de uma cidade bela. Mas a história que ela respira, as coisas críticas, confortadoras e trágicas que ela diz sobre o curso do tempo, ficam evidentes em muitas de suas construções. Fica especialmente claro no novo estádio de futebol em Saska Kepa na margem leste do Rio Vístula, o lugar que hipnotizou bilhões de pessoas ontem, na abertura da Eurocopa.

A moderna sede do campeonato de futebol europeu foi erguida sobre as cinzas do velho estádio. A nova arena, com capacidade para 50 mil espectadores, orientada decididamente para o futuro, não é uma mera construção, é um símbolo. Com esse estádio maravilhoso, a Polônia quer mostrar ao mundo sua nova face e provar que superou as sombras do passado: os crimes nazistas, a opressão comunista e o capitalismo caótico do período após a queda do comunismo.

O país se vê como um pioneiro e modelo para os "outros" do Leste Europeu. Ele quer se tornar uma potência na Europa e para a Europa, assumindo com isso que sempre acreditou que fosse esse seu lugar de direito no mundo. A Polônia é uma das poucas histórias de sucesso do mundo desde a queda do bloco soviético, um desenvolvimento que é notável em comparação com outros países do Leste Europeu.

As coisas têm melhorado continuamente na Polônia por mais de duas décadas. E, enquanto outras economias europeias estagnam, o boom polonês continua intacto. Em 2009, quando as economias alemã, italiana e britânica encolheram cerca de 5% cada, a Polônia foi o único país do continente a apresentar crescimento (1,7%).

Em 2011, a economia polonesa já estava crescendo a impressionantes 4,4%. Ganhe quem ganhar a Eurocopa, se as tendências das últimas décadas indicam alguma coisa, os poloneses já são campeões da Europa.

Em Bruxelas, políticos de Varsóvia foram objeto de zombaria não faz muito tempo como criadores de caso nacionalistas cacarejando suas demandas absurdas. Mas desde que o primeiro-ministro conservador liberal Donald Tusk e o chanceler Radoslaw Sikorski chegaram ao poder, em 2007, e depois, em 2011, Varsóvia tem sido vista como um modelo.

Em meio às especulações sobre o futuro da Grécia na zona do euro, o governo polonês luta para entrar na moeda comum. Tusk e Sikorski querem se afirmar e assumir um papel de liderança na aliança setentrional de países economicamente sólidos da Europa e têm o apoio de seus concidadãos poloneses. Quase nenhuma outra população é tão pró-europeia como os poloneses. Em sondagens de opinião, mais de 80% dizem que seu país se beneficiou com a entrada na União Europeia.

Aproximação. Outro desdobramento é ainda mais espantoso: o começo do fim de uma antiga animosidade. Assim como Alemanha e França melhoraram suas relações após a 2ª Guerra e se tornaram amigos, o mesmo progresso também parece hoje possível entre Alemanha e Polônia.

Pesquisas mostram que 74% dos poloneses acreditam que se beneficiaram com a reunificação alemã. Mais de dois terços dos poloneses têm uma visão positiva do papel de Berlim na Europa, 54% dos poloneses estão convencidos de que a Alemanha leva em conta os interesses de outros países quando implementa seus interesses nacionais.

Um lugar onde os velhos clichês ainda têm alguma influência é na vasta zona rural polonesa, que se arrasta atrás do desenvolvimento urbano e continua envolta em fanatismo e preconceito. Uma viagem até a fronteira ucraniana é um mergulho num período que muitos acreditavam que a Polônia já havia deixado para trás. A regra prática é que, quanto mais longe se viaja para o leste, piores ficam as estradas, mais decrépitos os povoados, maior o desemprego e mais contundente a pobreza.

Carros fazem filas quilométricas na fronteira com a Ucrânia, que está sediando a Eurocopa em conjunto com a Polônia. Cada veículo é inspecionado e a espera pode durar até 24 horas. Os que quiserem ser despachados mais rapidamente terão de pagar propinas. É como se a fronteira germano-polonesa tivesse se deslocado 600 quilômetros para leste desde que a Polônia ingressou na UE e no Espaço Schengen para viagens sem necessidade de visto. A Ucrânia é hoje para a Polônia o que a Polônia foi um dia para a Alemanha - ela é vista como o vizinho levemente atrasado do leste.

Infelizmente, desde o fim da Revolução Laranja, a Ucrânia oficial não está mais necessariamente interessada em se aproximar do Ocidente. Mas as pessoas estão votando com os pés. Centenas de milhares de ucranianos vivem mais ou menos continuamente na Polônia, aproveitando as oportunidades no setor de salários baixos. Eles cuidam de crianças e idosos, são auxiliares em hospitais e batalham nos canteiros de obras das cidades polonesas em expansão. Os trabalhadores migrantes não têm uma imagem ruim da Polônia. E muitos deles, quando retornam da Polônia para a Ucrânia, acreditam que viram a Terra Prometida - tão limpa, tão eficiente e tão voltada para o futuro. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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