A nova miopia latino-americana

Quando os chefes das nações americanas se reunirem na próxima semana cidade colombiana de Cartagena das Índias, na Cúpula das Américas, assunto não lhes faltará.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2012 | 03h03

As economias latino-americanas vão bem, mas o comércio entre os vizinhos está menos livre e politizado demais. Nos principais países bolivarianos - Bolívia, Equador, Nicarágua e Venezuela -, a liberdade de imprensa está em retrocesso. Em vários lugares, cartéis criminosos usurpam a paz e a ordem democrática, enquanto a América Central enxuga o gelo em uma guerra contra o tráfico de drogas.

No entanto, para quem imagina que surgirão acordos de peso na costa colombiana, a sexta Cúpula das Américas tem tudo para decepcionar. No lugar de pactos, haverá palavras bonitas e foguetório ideológico. Das 33 nações com presença confirmada, duas devem monopolizar os debate.

A primeira, pela sua ausência, é Cuba, cujo regime, embora habilitado a voltar à Organização dos Estados Americanos (OEA), foi "convidado" a não comparecer para garantir a participação da segunda, os EUA. Sem o presidente Barack Obama, a cúpula não passaria de um happy hour com cumbia.

Mesmo assim, a presença gringa pode não trazer muitas luzes. Com a Síria em polvorosa, a guerra inglória no Afeganistão e as ambições atômicas do Irã, a América Latina mal aparece no radar de Washington.

E, quando aparece, não encaixa, já que nenhum governo latino-americano apoia o cinquentenário embargo americano a Cuba e quase todos rejeitam as sanções unilaterais contra Teerã. Inclusive o governo da brasileira Dilma Rousseff, que deve antecipar o recado em sua visita à Casa Branca a partir de amanhã.

Eleição. Tampouco ajuda o fato de que Obama trava em casa a maior batalha de sua carreira. O presidente tenta a reeleição enquanto a Suprema Corte ameaça defenestrar sua ousada reforma da saúde publica. Tamanho é seu desprestígio que a principal diplomata para as Américas, Roberta Jacobson, sequer foi confirmada no cargo pelo Congresso de maioria republicana.

Por essas e outras é que o ex-presidente peruano Alan García chamou a cúpula de "diálogo de surdos em que cada presidente chega com seu discurso feito para culpar alguém por seus problemas". Quase sempre o culpado é o Tio Sam ou o "horroroso" sistema financeiro internacional.

Mais do que a estridência, o perigo desse evento trienal da OEA é a irrelevância. O condomínio das Américas já teve momentos de coragem e de lucidez. O maior deles foi na "Carta Democrática Interamericana", de 2001, que afirmou que "os povos da América têm direito à democracia e seus governos têm a obrigação de promovê-la e defendê-la".

O problema é que o continente ficou prisioneiro de uma definição ultrapassada de democracia. Finda a Guerra Fria, o golpe de estado clássico está em vias de extinção na América Latina, senão no mundo - o de Mali está aí para me desmentir, mas foi mais uma exceção à regra no continente africano.

No entanto, esbanja saúde seu sucessor, o golpe velado, por meio do qual governantes populistas insuflam sua maioria para centralizar o poder, esvaziar parlamentos, lotear a justiça e retalhar regras eleitorais.

Quem precisa de tropas e de tanques quando pode controlar juízes, transmitir notícias por canais oficiais e governar por Twitter?

Assim, a OEA não titubeou ao condenar o golpe contra Hugo Chávez, em 2002, mas ignorou a manipulação escancarada do pleito venezuelano no ano passado que atropelou as urnas e presenteou o chavismo com o controle do Parlamento.

Honduras. Governantes soltaram o grito retumbante contra a derrubada do presidente hondurenho Manuel Zelaya, em 2009, mas não disseram nada quando Zelaya tentou drible a Constituição para permanecer no poder, no melhor estilo bolivariano.

O absurdo da base americana de Guantánamo e o bloqueio à economia cubana são sempre denunciados, mas a liberdade sufocada na ilha some no Triângulo das Bermudas dos países latino-americanos. Golpe amigo é outra coisa.

Eis a nova miopia latina, onde a democracia virou a prática torta escrita por linhas certas. Sem uma revisão de sua cartilha, a Cúpula das Américas pode não passar de uma câmara de ventos. 

É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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