A nova preocupação da UE

A Europa sofre de várias doenças. Elas se chamam Grécia, Itália, Portugal, Irlanda e Espanha. Há poucos dias, começou a padecer de uma nova enfermidade, que é a Romênia. Entretanto, essa febre não tem nenhuma relação com as que atingem gregos, espanhóis e outros países do Mediterrâneo.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2012 | 03h05

A enfermidade que afeta a Romênia é política.

Em resumo, há dois meses, o governo romeno, de centro-direita, foi derrubado por uma coligação de esquerda (USL). Imediatamente, o novo governo de esquerda, dirigido por Victor Ponta, determinou a suspensão, aprovada pelo Parlamento, do presidente romeno, Traian Basescu, homem de direita e extremamente impopular.

Na realidade, sua destituição é legal. No entanto, em seguida, ela deveria ser ratificada por um referendo.

Então, a equipe de esquerdistas de Victor Ponta, que agora governa a Romênia, começou a recorrer a manipulações sórdidas. Eles simplesmente modificaram as regras do referendo para fazer com que a votação se conformasse com o objetivo do novo governo: o impeachment do presidente de direita, Traian Basescu.

Ponta é uma figura obscura. É um homem que tem pressa. Ele galgou todos os degraus do currículo universitário - e depois político - com a velocidade de um relâmpago.

Aos 37 anos, foi escolhido para o cargo de primeiro-ministro. Anteriormente, foi professor universitário, título obtido graças à tese de direito que defendera em Bucareste em 2003.

Ocorre que a tese não passava de um plágio. O anúncio oficial foi feito no dia 29 de junho pelo Conselho Nacional de Concessão de Diplomas Universitários. E o que ocorrerá agora? Os dirigentes da União Europeia, em Bruxelas, ficaram revoltados. Não com o plágio, mas com a desenvoltura com a qual Ponta governa a Romênia.

Ele paralisou todos os contrapesos previstos pela Constituição romena e impôs um rígido controle aos serviços do Estado, começando pela Justiça. É evidente que tais métodos se opõem totalmente aos princípios democráticos da União Europeia.

Colapso da integração. Há dois anos, Bruxelas já havia sido abalada por um país vizinho da Romênia, a Hungria.

Naquela ocasião, não se tratava de um governante de esquerda, como hoje na Romênia, mas de um político de direita, Viktor Orban, que também menosprezara os princípios da democracia. Vale a pena ressaltar que em ambos os casos, tanto no húngaro quanto no romeno, trata-se de países que foram comunistas até a queda do Muro de Berlim, no início dos anos 90.

Angela Merkel, chanceler alemã, repreendeu energicamente o primeiro-ministro romeno por considerar essas práticas inaceitáveis. No entanto, a União Europeia terá ainda prestígio, lisura ou autoridade suficientes para impor uma democracia transparente a todos os países-membros do bloco?

Temos de reconhecer que a influência das autoridades de Bruxelas diminuiu consideravelmente em dois anos.

Em 2007, a União Europeia se beneficiava ainda de 52% das opiniões favoráveis em seus 27 países-membros. Hoje, os europeus que defendem o bloco não passam de 30%.

Enquanto isso, do outro lado do Canal da Mancha, já começaram, com a concordância de David Cameron, as grandes manobras que poderão levar à saída da Grã-Bretanha da União Europeia. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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