A nova roupagem da esquerda autoritária

Inspirados em Cuba, líderes latinos ignoram conquistas democráticas e avançam contra a imprensa livre, sob o discurso da 'democratização dos meios de comunicação'

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Ao vencedor, uma viagem paga para Havana. Quem explica por que, no momento mais democrático da história da América Latina, ainda resistem nos palácios tantos impulsos autoritários em nome do povo? Com exceção à ilhota de Cuba, sempre ela, a democracia constitucional é o regime declarado do Rio Grande à Patagônia. Ou melhor, 33 das 34 nações das Américas Central, do Sul e do Caribe subscrevem, por princípio e lei, eleições abertas, justiça e parlamentos independentes, e liberdades individuais e de imprensa. Já, na prática, a intimidação e a mordaça correm soltas e a vítima é, quase sempre, a mesma sociedade pela qual o poder oficial julga zelar.

Abusos existem, até nas democracias mais vibrantes, mas os últimos tempos têm sido exemplares. Tribunais tutelam a intimidade familiar, como na lei da palmada brasileira (nascerá a delação premiada doméstica?). Governantes "cozinham" dados para ocultar mazelas, como na maquiagem da inflação argentina ou na proibição aos jornais venezuelanos de publicar fotografias do surto de criminalidade.

E, onde quer que seja, a mídia se vê obrigada a defender-se dos arroubos de controle social, que é a censura com a plumagem do politicamente correto ("democratização da informação") com endosso de praticamente todos os partidos de esquerda. Para alguns, é o ranço autoritário herdado da época militar. Para outros, um cacoete cultural que data do paternalismo colonial. Os piores casos brotam do flanco mais instável da região - do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e de sua aliança bolivariana, para quem apenas o direito de aplauso é livre. Mas o reflexo autoritário não é privilégio do socialismo do século 21. Prospera onde quer que o inquilino do poder se imagine seu proprietário e o xerife confunda sua pistola com a lei. A prática parece talhada para a chacota da campanha política brasileira, se a chacota política não fosse proibida, até a semana passada, também.

Que exista excessos de poder já é preocupante. Surpreendente mesmo é a condescendência oficial e partidária que as agressões despertam pela vizinhança. No fundo, o controle social da mídia franqueia a liberdade de expressão, cláusula pétrea do convívio republicano, a grupelhos políticos, corporações e organizações não governamentais que ninguém elegeu. Desde que ousaram criticar a pesada taxação às exportações agrícolas imposta pelo governo argentino em 2008, os jornais Clarín e La Nación sofrem restrições, censura branca e bombardeio jurídico com o objetivo de dizimar seu lucro e poder. Na Venezuela, Chávez apaga um por um os sinais dos canais de rádio e televisão que não seguem o roteiro bolivariano.

No entanto, com exceção da Colômbia e Chile, tachados de neoliberais e fantoches dos gringos, poucas vozes latino-americanas levantam-se contra o cerco à imprensa. Foi unânime o endosso à patrulha social da mídia no último Foro de São Paulo, instância maior de partidos e movimentos da esquerda da América Latina que se reuniu em Buenos Aires no início do mês.

Explicito ou não, um pacto de não-agressão parece reger a diplomacia dos países da América Latina. Assim, não é de bom tom chamar atenção às violações de direitos humanos, à censura ou à perseguição da oposição política em nações irmãs. Melhor lançar mão da "natureza conciliadora do povo brasileiro" do que brandir o "dedo em riste", como escreveu recentemente o chanceler brasileiro, Celso Amorim. "Isolar quem se quer convencer ou dissuadir é má estratégia."

Resta saber quais são os resultados positivos desse DNA conciliador. O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, dispensou a proposta do governo brasileiro para mediar o contencioso entre Colômbia e Venezuela, que o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, minimizara como uma rixa pessoal. A recente libertação de mais de 30 presos políticos cubanos teve a mão do Vaticano e do governo espanhol, e a coragem das Damas de Branco - as filhas, mães e avós dos encarcerados cubanos que desafiaram a repressão da ilha -, mas ao que se saiba nenhum dedo brasileiro foi posto na história.

Culpa de Fidel? A Revolução Cubana pode ter entrado numa crise fatal, mas seu apelo é perene. Se para boa parte do mundo "Che" Guevara virou uma camiseta e Fidel Castro, um fantasma grisalho, a dupla continua beata em muitos países da América. A esquerda nunca deixou de enxergar essa ilha como uma espécie de "Disneylândia ideológica", onde fantasias de outrora sobrevivem numa bolha. Cuba pode não ser mais o modelo para os políticos das Américas, mas ainda goza da indulgência oficial e da peregrinação de devotos, que continuam baforando o charuto da revolução alheia.

Para quem se sinta perplexo com esse consentimento calado frente ao cerceamento da liberdade, o novo livro da cientista política argentina Claudia Hilb é um achado. Silêncio, Cuba (Paz e Terra) é uma pequena joia que em cem páginas destrói a ideia de que a tirania, o sufoco, a críticas e obediência cega que tomaram conta da Revolução Cubana foram desvios de conduta ou sacrifícios infelizes na longa e gloriosa luta pela igualdade social. Ao contrário, foram condição fundamental para construir essa igualdade radical, obra de uma revolução que não reconhecia diferenças nem direitos fora dos concedidos por ela. O silêncio também fala.

É COLUNISTA DO "ESTADO" E CORRESPONDENTE DA REVISTA "NEWSWEEK"

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