A ofensiva final contra os camisas vermelhas

Exército tailandês avançou disparando a esmo contra acampamento de manifestantes que pediam a renúncia do primeiro-ministro, depois de meses de violentos protestos

BEN DOHERTY, THE GUARDIAN, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2010 | 00h00

Não houve nenhum sinal antecipando a ofensiva, apenas os soldados marchando firmemente na direção do Parque Lumpini, logo de manhã. Enquanto os caminhões transportando tropas rugiam pelas ruas desertas de Bangcoc, milhares de soldados faziam um cordão, cercando o campo fortificado dos manifestantes antigoverno, chamados de "camisas vermelhas".

A cidade ainda dormia. Rumores de uma ofensiva militar final no início da manhã correram pela cidade. Na quarta-feira, logo que amanheceu, a "operação", no jargão usado pelo porta-voz do governo tailandês, teve início.

As tropas não fizeram nenhuma tentativa para manter segredo da operação, abrindo fogo tão logo entraram no campo. Os caminhões de transporte de soldados, parecendo mais tanques, passavam por cima das barricadas de pneus e cercas de bambus, fortificações que protegiam os "camisas vermelhas" e demarcavam seu território havia mais de um mês.

Os moradores do campo em ruínas estavam preparados e os mais radicais tinham prometido lutar até a morte. Mas, sentindo que sua posição já estava condenada e dispostos a incendiar sua fortaleza se não conseguissem mantê-la, eles atearam fogo.

"Os "camisas vermelhas" não têm armas", disse um dos manifestantes, mas, quando os soldados aproximaram-se ainda mais e os disparos intensificaram-se, vários "camisas vermelhas" puderam ser vistos com pistolas e fuzis. Alguns tentavam ocultar as armas, correndo com seus fuzis enrolados em cobertores. Mas as armas se revelaram quando o combate ficou mais intenso e eles começaram a disparar. Mas, na maior parte, os manifestantes não só estavam pouco armados como seu número era muito menor. Os soldados aproximavam-se cada vez mais e o tiroteio ficou ainda mais intenso. Granadas de efeito moral eram lançadas, fazendo os manifestantes recuarem. Na ferrovia, atiradores de elite disparavam com precisão contra manifestantes.

Sob ataque, os "camisas vermelhas" recuaram para dentro do campo, procurando abrigo onde fosse possível, atrás de latas de lixo, carros e postes. Alguns continuaram a atirar qualquer coisa que tivessem à mão contra os soldados que avançavam.

Vi um homem ferido quando tentava se esconder dentro de uma cabine telefônica. Ele rolou numa canaleta, incapaz de se levantar e gritava por ajuda. Outros manifestantes correram para ajudá-lo, sob uma saraivada de balas. Era impossível ajudar outras vítimas. Outro homem, baleado no meio da estrada, ficou ali, sozinho e sem poder se mover. Uma ambulância tentou chegar até ele, mas ficou na mira dos tiros e acabou partindo sem o homem ferido.

No meio da manhã, a ofensiva militar já tinha avançado algumas centenas de metros dentro do campo. Os soldados trabalhavam metodicamente, vasculhando carros abandonados, motocicletas e as barracas, em busca de bombas ou algum tipo de armadilha.

Retirando-se para o canto noroeste do Parque Lumpini, os manifestantes ergueram rapidamente uma outra barreira, usando lenha, lixo e cadeiras abandonadas. Mas o detrito acumulado durante meses de protestos e uma semana de combates violentos não conseguiu conter as forças do governo.

À medida que as tropas avançavam lentamente para o centro do protesto, os líderes dos "camisas vermelhas" se reuniam atrás para discutir as poucas opções que tinham. No começo da tarde, Jatuporn Prompan, subiu no palco, vagalhões de fumaça saindo das ruínas da resistência, o som dos tiros interrompendo suas palavras. Depois de 68 dias de protestos e mais de uma pessoa morta em cada um desses dias, ele pediu aos manifestantes - entre eles mais de mil mulheres e dezenas de crianças - que deixassem o local pacificamente.

Raiva. "Embora a luta não tenha atingido nosso objetivo, fizemos o melhor possível. Vão para casa. Pedimos desculpas por não tê-los mandado para casa antes. Vão para casa em segurança." Alguns desistiram, mas outros foram para as ruas procurando descarregar sua ira em qualquer coisa ou pessoa que pudessem encontrar. Lojas foram saqueadas, prédios incendiados e jornalistas atacados. O canal de notícias Channel 3 foi incendiado. A Bolsa de Valores e o Central World, segundo maior shopping center da Ásia e símbolo de riqueza e privilégio que os "camisas vermelhas" detestam, também foi consumido pelas chamas.

Enquanto os soldados espalhavam-se pelas ruas e a troca de tiros continuava feroz, eu me abriguei no último andar de um edifício. O porta-voz dos "camisas vermelhas", Sean Boonpracong, tinha se refugiado ali também. Ele olhou pela janela e viu o caos em que Bangcoc havia se transformado. "Os "camisas vermelhas" não se renderam, eles estão enraivecidos." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE NA TAILÂNDIA

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