A opção da diplomacia

Para que um ataque militar ao Irã seja legítimo, é preciso antes esgotar todas as alternativas para evitar que Teerã obtenha capacidade de produzir armas nucleares

É EX-SECRETÁRIO ADJUNTO DE , ESTADO AMERICANO PARA , O LESTE DA ÁSIA, CHRISTOPHER R., HILL, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2012 | 03h05

Um diplomata russo, comparando a Coreia do Norte com o Irã, me disse certa vez que os norte-coreanos são como as crianças do vizinho com fósforos, "mas é com os iranianos que devemos realmente nos preocupar".

Se existe alguma chance de sucesso nas negociações entre o grupo P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas mais a Alemanha) e o Irã, realizadas em 14 de abril em Istambul, que serão retomadas em Bagdá, no dia 23, não sabemos com certeza.

Indivíduos experientes e bem informados apostam no fracasso. No entanto, essas pessoas de pouca fé precisam compreender um aspecto básico, às vezes impalpável, dessas negociações: elas são conduzidas tendo em vista dois objetivos.

O primeiro, naturalmente, é convencer o país em questão a concordar com o ponto de vista dos outros. No entanto, a negociação precisa também demonstrar que tudo o que poderia ser feito, na verdade, foi feito. Só então é possível considerar novas medidas, especialmente a decisão arriscada de uma ação militar. Nessa hipótese, será exigida uma ampla aquiescência internacional e essa condição só pode ser atendida em um contexto de iniciativas diplomáticas bem intencionadas.

Diplomacia. Uma diplomacia eficaz não envolve somente a substância, mas tem a ver também com oportunidade e continuidade. Aqueles que apoiam uma solução militar para sufocar as aspirações nucleares do Irã, sem a adoção, primeiramente, de medidas econômicas e diplomáticas como as que já foram implementadas no âmbito da ONU, não entenderam o problema.

Poucos líderes políticos sérios defendem uma guerra. E aqueles que a defendem conseguiram apenas elevar o preço do petróleo, uma vez que os mercados, temendo o provável efeito de uma ação militar na região, responderam à reação belicosa do Irã.

Existe uma outra possibilidade de a via diplomática, no caso do Irã, ser interrompida bruscamente. Trata-se de Israel, que está dentro do alcance de um míssil iraniano armado com bombas nucleares e, portanto, é o mais ameaçado por essa perspectiva. Mostrar-se disposto a lutar até o último israelense é um padrão familiar para aqueles que não estão dispostos a assumir, eles próprios, os riscos.

No entanto, incentivar Israel a fazer o que os outros com recursos muito maiores não estão dispostos a realizar é esperar muito de um pequeno país no Oriente Médio com problemas enormes, especialmente com seus vizinhos.

Israel, afinal, tem observado os desdobramentos políticos no Egito não com esperança, mas, cada vez mais, alarmado. Os israelenses também veem com maior clareza a índole do provável regime sucessor de Bashar Assad na Síria, que, provavelmente, não será formado exclusivamente por usuários do Facebook e do Twitter.

Guerra. Embora seja verdade que muitos Estados árabes se preocupem com um Irã que tenha armas nucleares em seu poder, eles não apoiarão uma intervenção militar por parte de Israel. Afinal, esse é o Oriente Médio, onde, como diz uma velha história, o escorpião pica o camelo que o carrega pelo Canal de Suez, mesmo sabendo que ambos se afogarão.

A guerra é um recurso sério com vistas a um fim sério, como observou Carl von Clausewitz, há quase 200 anos. Países que sofreram na pele uma guerra sabem melhor do que muita gente as consequências dolorosas para as gerações posteriores.

A guerra é o esforço humano que mais envolve consequências imprevisíveis. Defender uma ação militar sem a adoção de outras medidas, mesmo que o sucesso provável dessas tentativas leve tempo, é pedir muito não só dos países que sofrerão com a ação, mas também dos homens e mulheres que terão de travá-la.

A sequência adequada de medidas para estabilizar pontos atribulados do mundo é essencial para se conseguir apoio internacional para operações futuras. A campanha de ataques aéreos que acabou com os desmandos de Slobodan Milosevic em Kosovo - e depois na própria Sérvia - só foi possível em razão do longo trabalho diplomático feito pelos EUA, pela União Europeia e pela Rússia.

Ameaça nuclear. Ninguém na época alegou não ter sido dada uma chance à paz. E é por isso que defender um fim rápido da ação diplomática, julgando que ela não dará resultado, é um erro. Muitos países, provavelmente, só apoiarão uma solução militar quando outros meios de persuasão e coerção fracassarem.

Mesmo que não seja contemplada uma opção militar no futuro, as negociações podem oferecer outros dividendos. Às vésperas do início das negociações das seis partes para desarmar a Coreia do Norte, muitas pesquisas de opinião na Coreia do Sul indicaram que uma grande porcentagem da população responsabilizava os EUA pela ameaça nuclear norte-coreana.

Embora aquelas negociações não tenham conseguido eliminar a ameaça, elas virtualmente acabaram com as tentativas para culpar os EUA. As aspirações nucleares do Irã são um problema que, se não for resolvido, pode levar a uma escalada perigosa, à medida que países como Arábia Saudita, Turquia, EUA e Israel examinam suas opções. No entanto, tais opções ficarão muito mais claras e mais sustentáveis se, em primeiro lugar, o caminho diplomático for detidamente explorado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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