EFE
EFE

A opção de não viver

Fallujah registra ao menos 11 casos de suicídio no último mês, segundo a Irin News, desde que as tropas iraquianas fecharam o cerco à cidade

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

09 Abril 2016 | 05h00

Jameela al-Jassim nasceu com a Guerra do Golfo, em 1990, em Fallujah, às margens do Eufrates. Viveu na infância o luto de uma cidade que teve mais mortes do que qualquer outra no conflito e entrou na adolescência acompanhada de uma nova guerra: a invasão americana, em 2003. A queda de Saddam Hussein transformou Fallujah, de maioria sunita, assim como o regime deposto, num epicentro da insurgência, palco de algumas das cenas mais terríveis produzidas no Iraque. 

Quando quatro americanos da empresa de segurança Blackwater foram mortos e seus corpos queimados, arrastados pelas ruas e pendurados para exibição pública na ponte sobre o Eufrates, os EUA responderam com a maior ofensiva militar até então desde a Guerra no Vietnã. Metade das casas foi destruída e milhares foram mortos no embate com militantes da Al-Qaeda no Iraque. 

A cidade foi umas das últimas de onde as tropas americanas se retiraram, em dezembro de 2011. Jameela se casou e teve dois filhos. Pouco depois, o controle de Fallujah foi retomado por militantes radicais, agora sob a bandeira do Estado Islâmico. O marido de Jameela foi executado por ser policial e sua casa, bombardeada. Há um mês, aos 26 anos, Jameela amarrou os filhos pequenos ao seu corpo com trapos, prendeu junto deles uma pedra e saltou para a morte no Rio Eufrates. 

Além do terror do EI, a população de Fallujah passou a viver sob o cerco das tropas do governo de Bagdá, que formaram um cinturão ao redor da cidade na tentativa de conter a expansão dos militantes, o que impede também a saída da população – e, por sua vez, a chegada de comida e remédios. Há relatos de famílias inteiras alimentando-se de uma sopa feita de grama.

“Ela sentiu que todas as suas opções tinham se esgotado”, disse Abu Mohammed, parente de Jameela, à Irin News, agência de notícias dedicada à cobertura de crises humanas, que revelou essa história dramática. 

Jameela e os filhos tinham sobrevivido à guerra, ao terror, ao luto, à fome – até ela decidir que já não valia a pena viver, porque na verdade eles morriam aos poucos. A morte iminente a teria levado a encurtar o processo – e a dor. Pelo menos dez outros casos de suicídio foram registrados em Fallujah no último mês, segundo a Irin News, desde que as tropas iraquianas fecharam o cerco à cidade, arma de guerra perversa usada para estrangular o inimigo, com efeitos devastadores sobre civis. 

Para os que conseguem fugir a situação também é cada vez mais desesperadora e casos de tentativa de suicídio entre refugiados têm sido reportados com frequência. 

A decisão da União Europeia de devolver refugiados à Turquia, em prática desde segunda-feira, aumentou a incerteza sobre o futuro deles. O acordo foi duramente criticado por organizações humanitárias como Médicos Sem Fronteiras e pela ONU, segundo a qual a simples intenção de pedirem asilo deveria ser suficiente para mantê-los na Europa, de acordo com as leis internacionais. 

Em carta publicada no Guardian, refugiados de um campo na ilha grega de Lesbos declararam esta semana que “aceitariam a morte” conjuntamente antes de serem devolvidos à Turquia. Ameaça semelhante de suicídio em massa foi feita por afegãos impedidos de deixar a Grécia e seguir para outros países da Europa. No fim de fevereiro, dois paquistaneses foram presos após tentarem se enforcar em uma praça de Atenas, segundo a Al-Jazeera. 

Além da incerteza sobre o futuro, das violações de direitos, das condições precárias em campos lotados e insalubres, de estar longe de casa, da fome, os refugiados têm de lidar com os fantasmas que trazem da guerra. Muitos sofrem de stress pós-traumático, distúrbio comum também entre veteranos, atormentados por flashbacks, pesadelos e ataques de pânico, e perseguidos pela memória dos mortos e desaparecidos e da violência que presenciaram e sofreram. Estudo publicado na revista Science há duas semanas, que analisou 1,3 milhão de registros médicos na Suécia, apontou que o risco de esquizofrenia e outras psicoses era três vezes maior entre refugiados do que entre nativos. 

Nos últimos anos, nos perguntamos o que leva milhares a se arriscarem em travessias perigosas à Europa. A história de Jameela nos dá pistas de seu desespero. Eles fogem na tentativa de viver – mas, sem encontrar saída, podem achar que esta já não é uma opção.

Mais conteúdo sobre:
Iraque Fallujah Jameela al-Jassim

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.