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A oportunidade africana

A África retornou às manchetes dos jornais, com notícias boas e ruins. Na Nigéria foi realizada uma eleição histórica, e o presidente atual admitiu sua derrota para o candidato rival. No Quênia, um novo ataque terrorista letal perpetrado pelo grupo Al-Shabab foi respondido com a força militar. Mas a história mais importante em se tratando da África também comporta promessas e riscos.

Ian Bremmer, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2015 | 02h02

Inquestionavelmente, a África subsaariana, que abriga a classe média que mais cresce no mundo, é a boa notícia para a economia global, mas ainda não levada muito em consideração. Um número muito maior de cidadãos da região vive em cidades que estão crescendo com mais rapidez do que a percebida pelos estrangeiros. Muitos países são ricos em recursos, contudo as suas economias estão cada vez mais diversificadas.

A Nigéria, por exemplo, é a maior exportadora de petróleo da África, contudo seu setor de serviços representa a metade do PIB - Produto Interno Bruto, do país.

Por todo o continente o consumo aumenta e hoje um número crescente de governos vem se beneficiando da competição, no campo dos investimentos, entre Europa, China, Estados Unidos e outros atores globais. Na realidade, o investimento externo direto global na África excede o valor da ajuda ocidental. Isso é crucial para o desenvolvimento da infraestrutura, do varejo, dos bens de consumo e serviços, melhorando a assistência médica em todo o continente. O custo representado pela população que envelhece na Europa, China e Japão também enfatiza as vantagens demográficas observadas na África.

Ironicamente, alguns dos maiores desafios enfrentados na região têm propiciado o aumento de oportunidades comerciais importantes. Da mesma maneira que a péssima infraestrutura contribuiu para a região se livrar da telefonia terrestre e oferecer serviços de telefonia móvel para milhões de consumidores africanos, as empresas da região abriram caminho, globalmente, para a adoção de um sistema bancário móvel para clientes que nunca tiveram uma conta num banco. A África também se tornou incubadora de outras soluções para o setor privado solucionar problemas do mundo em desenvolvimento. Burocracias inchadas e a corrupção crônica aumentarão as demandas de uma classe média frustrada por uma melhor governança, mas a África desfruta de muitas vantagens que impulsionarão o crescimento e a qualidade de vida.

Ameaças. Dito isso, a longo prazo existem riscos que merecem atenção. Enquanto os preços das commodities continuarem a cair eles afetarão o crescimento mesmo em economias mais diversificadas. E mais importante, não se sabe ao certo se a longo prazo serão criadas vagas de trabalho suficientes para uma mão de obra africana com uma formação cada vez melhor. A péssima governança, os radicalismos locais e mesmo a mudança climática constituem sérios desafios.

A mão de obra qualificada e menos cara existente na África deverá se beneficiar nos próximos anos, ocupando espaço em empresas na Ásia e Oriente Médio que desejam terceirizar a mão de obra para reduzir seus custos de produção. As companhias chinesas já começaram a terceirizar sua área de manufatura menos pesada para mercados como a Etiópia e empresas de tecnologia do Ocidente vêm prestando cada vez mais atenção no Quênia e África do Sul em busca de mão de obra que antes automaticamente se concentrava na Índia.

Demanda. Mas e se, no decorrer do tempo, a necessidade de criar vagas de trabalho no seu próprio país obrigar as empresas chinesas e do Oriente Médio a investirem mais internamente para satisfazer as demandas dos seus governos? Por mais que os países africanos desenvolvam seus setores industriais e de serviços, essas economias criarão vagas de trabalho suficientes para atender às demandas crescentes por trabalho?

Isso dependerá da capacidade e da disposição dos governos de investir na infraestrutura necessária para, por exemplo, gerar muito mais eletricidade e conectar suas economias por meio de grandes investimentos nas tecnologias de comunicação. É uma questão importante, porque o alto nível de desemprego irá alimentar a militância crescente no Norte da África e os conflitos crônicos mais ao sul, e a bênção de uma demografia favorável vai se transformar em infortúnio.

Há também os desafios representados pela mudança climática. Muitos cientistas da área alertam que os impactos iniciais do problema não serão sentidos nas zonas temperadas do mundo desenvolvido, mas em regiões como a África que registram temperaturas extremas. Um aumento de inundações em algumas áreas e a seca em outras provocarão sérios danos em regiões sem infraestrutura e sem capacidade de resposta a situações de emergência.

A vulnerabilidade da África a desastres, tanto naturais como os provocados pelo homem, também evidenciam a falta relativa de coordenação entre os governos. A União Africana não é somente um espaço para debates, mas também não oferece nada parecido à coordenação da União Europeia.

A integração regional nas Américas e na Ásia ainda é muito mais avançada do que se verifica na África subsaariana.

A África do Sul e a Nigéria, líderes naturais da região, estão também muito concentrados em resolver conflitos internos e em competir entre si pela influência regional para oferecer uma liderança de qualidade que a região necessita.

Diante da sua importância para o futuro do dinamismo econômico global como a última fronteira emergente do mundo e a complexidade dos problemas que estão à frente, o desenvolvimento da África subsaariana continua a exigir a nossa atenção. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO .

*Ian Bremmer é presidente do Eurasia Group, professor de pesquisa global na Universidade de Nova York e autor do livro 'Superpower: three choices for America's role in the world' 

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