A ordem espontânea

O Negro Cucaracha foi um dos líderes indiscutíveis de uma das prisões de Lima durante muitos anos e, contam, seu corpo parece uma verdadeira grade de cicatrizes das facadas recebidas naqueles tempos turbulentos. É um moreno alto, robusto, de idade indefinível e, à sua passagem, a gente de Gamarra se separa como diante de um rio impossível de conter.

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2012 | 03h03

Ele me foi mandado como guarda-costas e não sei por que, nesta parte de La Victoria, eu me sinto mais seguro do que no bairro onde moro em Lima, Barranco, onde não raro ocorrem assaltos à mão armada. O Negro Cucaracha agora é um homem religioso. Virou evangélico, anda com a Bíblia na mão. Durante o longo passeio recita para mim versículos sagrados e me fala em redenção, arrependimento e salvação com a segurança do crente radical que sempre me deixa nervoso.

Gamarra começa onde termina Mendocita, hoje um setor de La Victoria de classe média modesta, onde, no primeiro ano de faculdade, em 1953, participei de uma pesquisa para fazer um levantamento da composição social do que era então o bairro mais pobre e violento de Lima, formado por migrantes que baixavam da serra em busca de trabalho.

Mendocita progrediu muito desde então, mas o que constitui um prodígio de desenvolvimento é Gamarra, paraíso da informalidade e do capitalismo popular, fantástico exemplo do que Friedrich A. Hayek chamou de ordem espontânea. Neste punhado de quadras em que a densidade demográfica a esta hora da manhã é a de um formigueiro, produz-se mais riqueza e realizam-se indubitavelmente mais transações comerciais do que em qualquer outro lugar do Peru. Por aqui não passou o Estado nem nenhum governo, nem as instituições financeiras formais, os créditos bancários ou as regulamentações oficiais. Tudo isso que fermenta ao meu redor com um dinamismo enlouquecido é uma criação de pobres provincianos miseráveis que, fugindo da fome e da violência, deixaram suas aldeias andinas e, como não encontraram na capital o trabalho que buscavam, tiveram de inventá-lo.

Progresso. Decidi vir até aqui porque um amigo empresário que conhece bem Gamarra contou-me histórias que me deixaram estupefato. Ele me falou de um sujeito de Puno, que chamaremos Tibúrcio, que viu chegar a Lima muito jovem, de poncho e chinelas, que sobreviveu vendendo chupetas pelas ruas e agora aluga lojas e oficinas de produção aqui por um total de US$ 2 milhões ao mês. Não exagerava. Tibúrcio é um dos ícones do bairro. Tem 11 prédios, incontáveis lojas e oficinas e há pouco tempo comprou uma fábrica de etiquetas no México.

Ele me recebe no seu edifício mais moderno e me mostra todo orgulhoso uma foto do minúsculo povoado, às margens do Lago Titicaca, onde nasceu. Fala um espanhol correto, com a musicalidade da língua aimara e transpira energia e otimismo por todos os poros. Como conseguiu isso? Trabalhando dia e noite, economizando o que podia e, no começo, dormindo pelas ruas. Recebeu a ajuda de cidadãos de Puno que migraram antes dele e foram bem-sucedidos; por isso, ajuda os outros que vêm para Lima desprovidos de todo capital, a não ser a vontade de vencer. Garante que em 99% dos casos recebe de volta o que emprestou. Tibúrcio cresceu a tal ponto que agora procura formalizar pelo menos uma parte de seus negócios.

São poucas as transações realizadas em Gamarra registradas em contratos regulares. O que vale é a palavra dada, que é sagrada, e quem não a cumpre tem de pagar: todas as portas se fecham para esta pessoa. Em todo lugar afirmam que aqui a delinquência é menor do que em outros bairros. O preço dos imóveis chega a cifras vertiginosas. Meu amigo jura que, embora pareça impossível, há pouco tempo foi vendido um imóvel no centro de Gamarra por US$ 28 mil o metro quadrado. Ou seja, mais caro do que os bairros mais caros de Nova York, Frankfurt ou Tóquio.

As lojas vendem de tudo, principalmente tecidos e roupas confeccionadas nas oficinas do próprio bairro. Há centenas delas. Algumas ficam no alto, com uma vista panorâmica do centro da cidade e das colinas vizinhas, e outras em sótãos abarrotados que ocupam quatro ou cinco andares no subsolo limenho. De manhã e de tarde, uma verdadeira maré de caminhões, caminhonetes, carros e até carrinhos de mão e motos transporta a mercadoria para todos os cantos do Peru e também para o exterior.

Uma das lojas mais sortidas é a de Don Moisés, um dos mais antigos e respeitados comerciantes do bairro. Todos falam dele com reverência e gratidão. Ele não veio do interior, nasceu ali mesmo, é um dos poucos habitantes que representam Lima neste Peru em miniatura que é Gamarra. Segundo ele, este empório abriu as portas nos anos 60, quando alguns migrantes deram-se conta de que os caminhões que traziam animais e produtos variados para o mercado atacadista regressavam vazios para o interior do país. Ocorreu-lhes, então, utilizar este meio de transporte para despachar mercadorias para seus povoados. Começou assim a bola de neve que transformaria este pedaço da antiga Lima no redemoinho de trabalho e riqueza que é agora.

Perfil. Os empresários e comerciantes de Gamarra são pessoas liberais que desconfiam do Estado e do governo. Agora eles se queixam da lei que proibiu temporariamente e ainda mantém certas restrições à importação de fios da Índia, medida que, afirmam, foi uma vitória do lobby dos produtores de fios nacionais, mais caros e menos variados do que os que vinham de Mumbai. Isso encarece seus custos e favorece os fabricantes colombianos, seus grandes concorrentes no mercado manufatureiro nacional e americano. O que eles querem é a abertura das fronteiras, que a globalização, da qual tanto se fala, se torne uma realidade também no Peru.

Minha visita a Gamarra acaba me mostrando, melhor do que muitos estudos, o que acontece no Peru de hoje. Nas eleições de 2011, ao alertar que os pobres do Peru votariam em Ollanta Humala, as classes dirigentes entraram em pânico e, acreditando que ele se revelaria outro Hugo Chávez, concentraram todo seu poder em Keiko Fujimori. No entanto, ela perdeu as eleições. Humala vem respeitando escrupulosamente o programa que prometeu seguir, ou seja, manter a democracia e a política de mercado, que nos últimos 11 anos proporcionaram ao Peru um desenvolvimento sem precedentes ao longo de sua história.

Por que Humala distanciou-se de Chávez e adotou a política do Brasil, Uruguai ou Colômbia? Mais por uma percepção clara da realidade do que por uma conversão ideológica: pois, para que seja possível a inclusão social, que é seu objetivo fundamental, é indispensável que haja riqueza e emprego, e para tanto não existe outro caminho senão o seguido pelos homens e pelas mulheres de Gamarra. Eles descobriram algo que muitos líderes de esquerda, que não conseguem enxergar por causa da ideologia, negam-se a aceitar: que o verdadeiro progresso social não passa pelo estatismo nem pelo coletivismo - inseparáveis, de uma maneira ou de outra, da ditadura -, mas pela democracia política, a propriedade privada, a iniciativa individual, o livre comércio e os mercados abertos.

O Peru está no caminho certo. Nem a direita fujimorista nem a esquerda obtusa e anacrônica conseguirão, por enquanto, impedir que dele se afaste. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA   

É NOBEL DE LITERATURA, COLUNISTA DO ESTADO, MARIO VARGAS LLOSA, É NOBEL DE LITERATURA, COLUNISTA DO 'ESTADO'

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