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Mario Vargas Llosa
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A orgia do terror

O terrorismo na Itália, nos anos 70, parece brincadeira se comparado ao de hoje

Mario Vargas Llosa *, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2017 | 05h00

As cidades italianas, mesmo as menores, explodem em atividades culturais no verão: feiras de livros, festivais de música e cinema, concertos, recitais, mesas-redondas, conferências, exposições, que atraem multidões de espectadores de todas as classes e condições. É um espetáculo que, como dizia uma publicidade do pisco Vargas no Peru de minha infância, “alegra o espírito e eleva o coração”.

Passei uns dias em Bolonha, para atividades organizadas pelo jornal La Repubblica, e mantive um diálogo de uma hora com seu diretor, Mario Calabresi, em frente a uma igreja românica do século 13, na Praça de Santo Estêvão transformada em auditório e cheia de bares, cafés e restaurantes onde, enquanto falávamos de literatura e política, um público jovem tomava cerveja e nos ouvia, aparentemente com muita atenção. É estimulante e gratificante estar num belo lugar onde parecem reinar a cultura, a convivência e a paz.

Mas, após o jantar com vinho, massa e tiramisú obrigatórios, uma outra face da Itália me manteve acordado por muitas horas em meu quarto de hotel enquanto lia Spingendo la Notte Più in Là, o livro de Mario Calabresi que conta a história de sua família e de outras vítimas do terrorismo.

O pai de Mario, o comissário Luigi Calabresi, foi assassinado com um tiro nas costas e outro na nuca, quando saía de casa, por três militantes da Lotta Continua, em 17 de março de 1972. O crime foi precedido de uma campanha difamatória acusando-o de ter assassinado Giuseppe Pinelli, militante dessa organização que caiu de uma janela quando era interrogado pela polícia sobre uma bomba explodida num banco milanês. A campanha consistiu em faixas, manifestos de intelectuais progressistas, panfletos, denúncias em atos públicos, artigos na imprensa, cartazes nas paredes de Milão. Uma patranha foi assim imposta à opinião pública. 

Mas, nos anos seguintes, ela seria desmentida sistematicamente por várias investigações oficiais que provaram, de maneira inequívoca, que o comissário Calabresi não se encontrava no prédio – as cinco pessoas que ali se encontravam atestaram isso – quando ocorreu a morte do militante esquerdista. Mas há verdade na história de que, “se mentir bastante, sempre sobra alguma coisa”. Até hoje a suspeita injusta, fabricada pelo fanatismo e a demagogia, persegue a infeliz figura do comissário Calabresi.

O que mais impressiona no livro de seu filho são a sobriedade e o pudor com que a história é contada, as consequências catastróficas que o assassinato do pai e sua difamação tiveram para a viúva e os três filhos pequenos, a estoica sobrevivência da família nos anos seguintes. O livro é um testemunho e um exame muito objetivo da onda terrorista que assolou a Itália nas últimas décadas do século passado: os anos de chumbo. Grupos e grupelhos extremistas haviam decidido acertar contas com a desprezível ordem burguesa assassinando seus expoentes mais visíveis – lembremos da morte de Aldo Moro. Não se tratava de uma ação marginal. Os assassinos contavam com uma vasta rede de cúmplices na imprensa, no governo, nos partidos políticos, no meio intelectual e até entre os juízes, onde, por convicção ou por medo, os terroristas encontravam justificativas, atenuantes, corpo mole e indultos. Bombas explodiam matando inocentes. Assassinava-se à direita e à esquerda. A Itália parecia aproximar-se do abismo. Tudo isso é ressuscitado com perícia jornalística no livro de Mario Calabresi, levando-nos a perguntar que tipo de epidemia sanguinária se apoderou das supostas vanguardas políticas do país.

Não se vê nas páginas nenhum traço de amargura, muito menos espírito de vingança. Trata-se de uma busca difícil pela reconstrução da verdade entre as montanhas de evasivas e falsidades que a pretendiam sepultar. Trata-se também da sóbria e pontual descrição das monstruosas injustiças cometidas por esses jovens fascinados pela orgia de violência da Revolução Cultural chinesa, que queriam lavar com sangue tudo que ia mal na sociedade italiana. 

As imagens das viúvas, pais, filhos, irmãos, enfim, das dezenas de vítimas da matança que aparecem ao longo do livro, as quais, além de perderem seus entes queridos tiveram de lutar para recuperar sua dignidade e credenciais, adulteradas até o absurdo para justificar os crimes, mantêm em suspense o leitor e lhe dão a sensação de viver um ritual macabro. 

Talvez o pior sejam os trâmites judiciais kafkianos nos quais a vida se transforma em papelada, jargão, burocracia, e as tragédias vividas e padecidas se evaporam em desgastes tão infinitos quanto estúpidos. Alguns dos criminosos pagaram por seus delitos, mas outros, muitos outros, foram absolvidos, indultados ou fugiram para a França. Como é possível que coisas assim tenham ocorrido na Itália, um dos países mais cultos e civilizados do planeta?

Matança.

É verdade que, comparando-se o terrorismo que roubou a vida do pai de Mario Calabresi com o praticado hoje pelos jihadistas, aquele pareça brincadeira de criança. Os assassinos da época escolhiam alvos individuais e justificavam seus crimes, ainda que para isso tivessem de reinventar suas vítimas. Os terroristas de hoje partem do pressuposto de que não existem inocentes: todos os que não compartilham da verdade religiosa ou política que transforma pessoas em bombas humanas são culpados. Por isso eles matam no atacado e no varejo, fazendo o maior número de vítimas possível, em trens, estações, concertos, pois, graças a esses rios de sangue, chegarão mais depressa ao paraíso. Entretanto, há um fio secreto que une estreitamente as duas barbáries, irmanando os dois tipos de assassinos. Colocar essa ligação em evidência é outro dos méritos do livro publicado por Mario Calabresi.

Como ocorreu no fim do século 19 e começo do 20, quando metade da Europa sofreu uma onda de atentados anarquistas, experiência descrita por Joseph Conrad no extraordinário romance O Agente Secreto, ao longo da história surgem periodicamente bandos de fanáticos religiosos e políticos que acreditam no banho de sangue purificador, nas matanças que livram a humanidade de seus estigmas e trazem o céu para a terra. 

O livro de Mario Calabresi retrata de forma exemplar, num caso particular, todo o absurdo e demência que sustenta essas crenças, e a dor e as injustiças atrozes que elas acarretam. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

* É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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