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A origem da raiva

A radicalização nas redes sociais atinge agora os polos da direita e da esquerda

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2018 | 04h00

Muitos de nós têm uma ideia mais ou menos vaga de como algumas pessoas enriquecem espalhando o ódio pelas redes sociais, de como isso está intoxicando o ambiente político e as relações humanas e incentivando desequilibrados mentais a passar dos sentimentos de frustração, impotência e raiva para o ato de violência.

Reportagem publicada em áudio na quarta-feira pelo New York Times, no seu podcast The Daily, faz um mergulho nesse submundo. O repórter Kevin Roose foi visitar na Pensilvânia o casal Corey e Christie Pebble, donos do site Mad World News, que publica matérias que provocam a raiva de conservadores contra democratas, negros, imigrantes e muçulmanos, entre outros alvos associados a posições liberais. Corey trabalhava em uma gráfica e nunca se interessou por política: a primeira vez que votou numa eleição presidencial foi em 2016. Christie é enfermeira de formação. Ambos não tinham experiência em escrever artigos. “Meu primeiro artigo foi horrível”, confessa Corey, rindo.

Com o tempo, ele percebeu que, se pegasse na internet notícias contrárias aos liberais e aumentasse sua agressividade, conseguia muitas visualizações. Se colocasse anúncios em seu site, recebia um bom dinheiro por esse tráfego.

Em 2014, o casal pediu demissão de seus empregos e passou a trabalhar 12 horas por dia no site. Experimentando, eles descobriram que o segredo do sucesso no Facebook era causar ódio. “As pessoas querem mesmo é ouvir a fofoca, a notícia ruim”, constatou Corey. “A gente gosta de divisão, especialmente nas redes sociais”, completou Christie. “Se você conseguir transformar uma história boa em má, você a viraliza.”

Exemplos de títulos de matérias deles: “Obama cospe na cara de Israel”; “Veja como o Islã domina o mundo”; “Família é alvo de tiros por causa de bandeira confederada”; “Família muçulmana presa por manter casal de brancos como escravos”; “Hillary cospe na cara de eleitores”; “Hillary conta mentira nojenta sobre menina deficiente”.

Com essa fórmula, eles passaram a ter 20 milhões de visualizações por mês. Recebendo uma média de US$ 6 para cada mil cliques nos anúncios, alcançaram receita média de US$ 120 mil mensais. Até que, em setembro de 2017, o Facebook reviu suas políticas, passou a priorizar conteúdos trocados entre amigos e desfez o esquema comercial do Mad World News. Agora, quem está com raiva é o casal. Seus posts têm, quando muito, 200 visualizações. Eles dizem ter investido meio milhão de dólares no “impulsionamento” de suas matérias e querem ser ressarcidos.

Do alto de sua experiência, Christie aposta que o Facebook não conseguirá desintoxicar o próprio ambiente: “Quando as pessoas se juntam, tende a haver conflito. Não entendo isso de não querer que as pessoas fiquem com raiva.” Até 2016, o perfil no Facebook de Cesar Sayoc, de 56 anos, que remeteu 14 artefatos explosivos para Barack Obama, Hillary Clinton e outros líderes democratas e críticos do presidente Donald Trump, era composto por fotos dele comendo fast food ou fazendo musculação, de mulheres seminuas e de esportes. Sua politização ocorreu durante a campanha presidencial, quando começou a compartilhar matérias sensacionalistas, várias delas do Mad World News.

Com as iniciativas do Facebook e do Twitter de “limpar” suas plataformas de mensagens extremistas, têm surgido outras, como o Gab, que se vangloria de não fazer “censura” e se tornou reduto de neonazistas, por exemplo. Robert Bower, de 46 anos, que abriu fogo na sinagoga de Pittsburgh, matando 11 pessoas, anunciou o ataque no seu perfil do Gab. Há dois anos, durante a onda de atentados do Estado Islâmico, falava-se na radicalização de muçulmanos nas redes sociais. Agora, ela atinge os polos da direita e da esquerda.

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