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A outra equação de Einstein

Albert Einstein estava certo. Cientistas detectaram as ondas gravitacionais previstas, cem anos antes, em sua Teoria Geral da Relatividade. Uma descoberta histórica que alvoroçou a comunidade científica e abriu "nova janela para o universo", deixando-nos mais próximos de desvendar o mistério da criação. Mas outra questão, com a qual Einstein se envolveu profundamente, permanece insolúvel até hoje. Ao mesmo tempo em que lutava contra o relógio para escrever a equação da teoria da gravitação, o Nobel de Física se dedicou a outra descoberta, sobre as raízes psicológicas dos conflitos.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2016 | 04h32

Einstein publicou ensaio sobre o tema em novembro de 1915 - pouco antes de entregar à Academia Prussiana a versão final da teoria da relatividade. Profundamente impactado pelo início da 1.ª Guerra no mesmo ano em que se instalou em Berlim, Einstein, até então recluso, incomodava-se com a própria "passividade", dividido entre os estudos científicos e a responsabilidade moral de fazer algo contra o que testemunhava. Em carta a um colega em 1915, escreveu: "Apesar dessa guerra preocupante e nojenta, eu continuo trabalhando tranquilamente no meu quarto."

No ensaio, Einstein defende que "as raízes psicológicas da guerra são biologicamente fundamentadas na natureza agressiva do homem" e qualquer causa ou objetivo seria "insignificante". "Onde há dois estados vizinhos que não pertençam a uma organização supranacional, essas características ao longo do tempo geram tensões que levam às catástrofes da guerra", escreveu.

Einstein não se referia aos conflitos entre palestinos e Israel, criado mais de três décadas depois, mas o pensamento permearia sua visão do sionismo. No ensaio, ele coloca o "patriotismo" como um espaço "mal iluminado" onde o cidadão encontra "os requisitos morais para o ódio bestial e assassinatos em massa que, quando declarada a guerra, ele pega e usa obedientemente."

"Não tenho a intenção de fazer um segredo dos meus sentimentos internacionalistas", escreve. "O Estado ao qual eu como cidadão pertenço não tem lugar em minha vida emocional; considero a afiliação com um Estado um assunto de negócios, um pouco parecido com um seguro de vida". Quando convidado para contribuir com um ensaio patriótico intitulado "A Terra de Goethe 1914/1916", Einstein declarou que reiterava a visão de Tolstoi, que comparava o patriotismo a uma doença mental.

No fim da 1.ª Guerra, já mundialmente reconhecido, Einstein se dedicou a causas que considerava importantes, como a criação de uma união pacifista internacional, a cooperação científica transnacional e um Estado para os judeus. Ele se declarava judeu sionista opositor do nacionalismo. A equação não solucionada, que nutre debates acalorados sobre Einstein até hoje, está aí.

Einstein enxergava um mundo sem fronteiras. Em Nova York, em 1938, ele disse ser mais favorável a "um acordo razoável" para que árabes e judeus vivessem "juntos em paz do que a criação de um Estado judaico". Na medida em que os horrores do Holocausto foram sendo revelados, sua posição mudou. Em carta ao primeiro-ministro da Índia, Jawaharlal Nehru, em 1947, Einstein pede apoio à criação do Estado de Israel como "meio de corrigir um erro flagrante".

Mas o Estado que Einstein defendia era habitado por judeus e árabes que já viviam lá. Como um pacifista, ele temia que o trauma do antissemitismo na Europa pudesse levar a excessos por parte dos nacionalistas e os enxergava como ameaça tão relevante ao movimento sionista quanto os "árabes fanáticos fora da lei". Einstein criticava os nacionalistas militantes e a especulação de terras, tema central do conflito até hoje.

Em 1929, ele escreveu ao também cientista e futuro primeiro presidente de Israel, Chaim Weizmann: "Se não conseguirmos encontrar o caminho da cooperação honesta e chegar a um acordo com os árabes, não teremos aprendido nada com nosso calvário de 2000 anos." Com a morte de Weizmann, Einstein chegou a ser convidado para assumir seu lugar, em 1952, mas recusou.

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