Eugene Atget via The New York Times
Eugene Atget via The New York Times

A Paris de Atget, 100 anos depois

Recriações de Maurício Lima abrem uma nova perspectiva sobre o trabalho de Atget – e sobre o significado de uma cidade única em sua beleza, mas também em sua frieza

Adam Nossiter / The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2020 | 04h00

PARIS - Durante boa parte dos últimos dois meses, Paris esteve vazia – lojas e cafés fechados, ruas desertas, milhões de turistas repentinamente desaparecidos.

Livre das pessoas, a paisagem urbana evocou uma Paris mais antiga. Lembrou, em especial, a singular Paris de Eugène Atget, um dos pais da fotografia moderna do início do século 20, e seu foco nada sentimental nos detalhes.

Acordando cedo todas as manhãs e carregando seu equipamento rudimentar pelas ruas, Atget registrou uma cidade vazia em milhares de fotos. Imagens reduziram Paris à sua essência arquitetônica.

Maurício Lima seguiu os passos de Atget e retratou os mesmos cenários que seu famoso predecessor capturara. Mas, desta vez, as ruas estão desertas por causa da pandemia de coronavírus. As recriações de Lima abrem uma nova perspectiva sobre o trabalho de Atget – e sobre o significado de uma cidade única em sua beleza, mas também em sua frieza.

O crítico e filósofo Walter Benjamin invocou as cenas de crime ao discutir as fotografias de Atget. Ele estava apontando para o vazio, a atenção clínica aos detalhes da paisagem urbana, a rejeição absoluta à pompa e ao sentimentalismo.

Como Benjamin observou, Atget estabeleceu uma benéfica “distância entre o homem e seu ambiente”. As assombrosas recriações de Lima confirmam a intrigante inquietação do fotógrafo: Paris não se importa com a sua presença. É indiferente e, decerto, seguirá sem você.

Talvez você sinta alegria de se ver numa rua de Paris, mas o sentimento não é correspondido.

Nascido em 1857, Atget de início tentou, sem sucesso, carreira nos palcos e na pintura. Em 1890, estabeleceu-se como fotógrafo, a fim de fornecer “Documentos para Artistas” – como dizia a placa na porta. Ele sabia que os pintores precisavam de imagens como modelos para seu trabalho e começou a oferecê-las.

Por quase três décadas, ele caminhou pela cidade, levando seu pesado tripé e documentando uma Paris de ruas estreitas e prédios cobertos de fuligem que já estavam desaparecendo.

Em 1920, Atget escreveu: “Posso dizer que possuo toda a Paris antiga”.

O mundo ficou indiferente ao trabalho de Atget até que, vários anos antes de sua morte, em 1927, ele conheceu uma jovem fotógrafa americana Berenice Abbott, que trabalhava como assistente do artista Man Ray. Ela o fotografou, escreveu sobre ele, adquiriu muitas de suas cópias e o promoveu incansavelmente ao longo de 50 anos.

Hoje, Atget é reconhecido como uma figura importante na história da fotografia.

A Paris vazia de suas fotos paira sobre a meia-luz do que parece uma névoa perpétua. Seus edifícios têm vida independente das pessoas. Não precisam delas. A mensagem parece dizer: Paris continua. Não se importa com a presença individual. A cidade não é sentimental para com os humanos.

É verdade que traços de humanidade estão sempre presentes em suas fotografias – cartazes publicitários rasgados, letreiros de oficinas artesanais, caixotes de legumes, prateleiras de botas. Mas tudo isto é apenas um indício de que a cidade talvez tenha sido habitada. E nas imagens há poucas pessoas para confirmá-lo.

Na Paris de Atget, “a cidade é esvaziada, feito um apartamento que ainda não encontrou novo inquilino”, escreveu Benjamin.

Compare com as imagens de hoje. As raras figuras mascaradas são incidentais à paisagem. Que usem máscaras, escondendo parte dos rostos, é uma negação a mais à sua humanidade.

A paisagem urbana afirma sua presença, independente das pessoas. Na versão atual do estranho ângulo da esquina da Rue de Seine, no agora luxuoso sexto arrondissement – uma das imagens mais famosas de Atget – o edifício parece avançar, insolente, sobre o céu, como uma espécie de escultura.

A ciclista solitária na Rue de l'Hotel de Ville ressalta o vazio da rua, assim como o cachorrinho diante do 14 Rue Servandoni. A luz mais brilhante das fotos de hoje dá ênfase aos ângulos frios e duros das pedras na Rue de la Bûcherie. Paris parece mais indiferente que nunca.

As fotografias atuais também evidenciam que Paris foi poderosamente higienizada. Lavaram-se a sujeira e a fuligem dos séculos – ainda presentes na década de 60.

As fachadas escurecidas, tão proeminentes nas fotografias de Paris durante a ocupação alemã na 2ª Guerra, agora são brancas. Os cartazes publicitários que antes se colavam aos muros já se foram há muito tempo. As paredes foram alisadas, reformadas, repintadas.

Paris não é mais uma cidade de trabalhadores. Já não estão aqui os carpinteiros, sapateiros, verdureiros, carregadores e limpadores de chaminés, cuja presença se evoca, ainda que nem sempre se veja, nas fotos de Atget.

A Rue de Seine, com seus terraços ajardinados e vitrines chiques, agora é uma das áreas mais caras da cidade. Certamente não se parece nada com o registro de Atget. Nas fotos de hoje, Paris foi embelezada e gentrificada.

Parece mais difícil evitar o “pitoresco” – de que Atget se esquivou, como observa Benjamin. Difícil, mas, em tempos de coronavírus, talvez não impossível. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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