A passividade chinesa

Na terça-feira, os norte-coreanos atacaram a ilha sul-coreana de Yeonpyeong, no Mar Amarelo, região contestada desde o fim da Guerra da Coreia, em 1953. Esse conflito foi um dos mais atrozes após a 2.ª Guerra: deixou 2 milhões de mortos e deu origem a duas Coreias: a do Norte, pobre, comunista e até stalinista, e a do Sul, rica e aliada dos EUA.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2010 | 00h00

Quatro sul-coreanos foram mortos no ataque a Yeonpyeong e o mundo inteiro ficou indignado. O presidente americano, Barack Obama, ordenou que um monumental porta-aviões nuclear, o USS George Washington, deixasse a base de Yokosuka, no Japão, e rumasse para o Mar Amarelo.

O protesto foi geral. Com uma exceção: a China, que apoiou a Coreia do Norte durante a guerra, nos anos 50, e é o único país que mostra indulgência com o regime delirante presidido pelo ditador Kim Jong-il. Desta vez, Pequim contentou-se em informar, com voz branda, que era preciso "verificar os fatos" e "dar prova de moderação". Em março, a Marinha norte-coreana havia torpedeado a corveta sul-coreana Cheonan e Pequim também protegeu a Coreia do Norte.

Sem pretender explicar a curiosa passividade dos chineses, pode-se observar, antes de tudo, que o ataque injustificável a Yeonpyeong ocorreu após outras provocações de Pyongyang contra os EUA.

Há alguns dias, a Coreia do Norte mostrou ao cientista americano Siegfried Hecker uma soberba e enorme instalação de centrífugas, atestando que os norte-coreanos estão muito perto da bomba nuclear.

Quando se considera a China hoje, percebe-se que a diplomacia de Pequim está cada vez mais agressiva com relação aos EUA. Os chineses multiplicam desafios, denunciando americanos e japoneses e opondo-se às grandes manobras militares conjuntas de Washington e Seul.

A recente viagem de Obama à região, que pretendia reforçar a presença americana nas principais capitais asiáticas, cada vez mais irritadas com o ativismo de Pequim, foi malvista pelos dirigentes chineses.

Será possível dizer que Pyongyang cometeu seu abuso com o aval de Pequim? É pouco provável. É fato que o regime norte-coreano desapareceria se a China não o sustentasse, assegurando 80% de seu abastecimento.

No entanto, curiosamente, a diplomacia da Coreia do Norte não se preocupa nem um pouco com as reações de seu protetor chinês. Por ocasião do primeiro teste nuclear do país, em 2006, os chineses só foram prevenidos 20 minutos antes da detonação.

"Americanos e europeus superestimam bastante a capacidade de influência da China sobre a Coreia do Norte", afirma Shi Yinhong, professor da Universidade do Povo. Na verdade, os norte-coreanos estão convencidos de que a China não os deixará cair.

Pyongyang se preocupa muito pouco, portanto, com eventuais reações de Pequim. Aliás, a história lhes dá razão: por estúpidas e perversas que sejam as iniciativas da Coreia do Norte, a China, até agora, jamais deixou seus aliados na mão.

Acrescenta-se a isso o fato de que, nesta temporada, a China se distanciou claramente dos EUA e não perde uma ocasião para irritá-los. Nessa perspectiva, as agressões da pequena Coreia do Norte contra os aliados asiáticos de Washington, do Japão à Coreia do Sul, só podem receber a bênção silenciosa e hipócrita dos dirigentes de Pequim. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.