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A paz possível

O mais desconcertante da consulta na Colômbia não foi a vitória do 'não', mas a abstenção de 63% dos eleitores

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2016 | 04h00

Um pouco aturdidos com a pompa da espetacular mobilização com que foi celebrada a assinatura do acordo de paz entre o governo colombiano e as Farc, nós, partidários do “sim”, ficamos muito surpresos quando, desmentindo todas as pesquisas, o “não” se impôs no plebiscito. O mais desconcertante da consulta não foram os poucos milhares de votos que derrotaram o grupo a favor, mas o fato de que 63% dos eleitores se abstiveram de votar.

Convém fazer um esforço e analisar o resultado com a cabeça fria. É evidente que não há, nem pode haver, três quartas partes da Colômbia a favor dessa guerra que, há mais de meio século, causa estragos no país, com milhares de mortos e feridos, sequestrados e chantageados, o terrorismo, o obstáculo que significa para a vida econômica as vastas regiões paralisadas pelas ações armadas, a insegurança reinante e a letal aliança entre a guerrilha e o narcotráfico, fonte de uma enorme corrupção institucional e social. O voto negativo e a abstenção não significam rechaço da paz; expressam um profundo ceticismo com relação à natureza do acordo, no qual, com ou sem razão, uma grande maioria de colombianos considera as Farc a grande vitoriosa na negociação, beneficiando-se de concessões que parecem desmedidas e injustas.

Não tem sentido discutir se essa opinião sobre o tratado de paz é justa ou injusta, pois os defensores de uma ou outra alternativa jamais chegarão a um acordo a respeito. Numa democracia, uma maioria pode acertar ou se equivocar, e o veredicto de uma consulta eleitoral, se legítimo, tem de ser aceito. Nisso reside a própria essência da cultura democrática.

Isso significa que a guerra deva retornar à Colômbia? De modo algum. As reações, tanto do governo com das Farc, indicam que nenhuma das partes acredita nisso. Por seu lado, os próprios líderes dos partidos que promoveram o “não” – os ex-presidentes Uribe e Pastrana – insistem que sua oposição ao acordo não é à paz, mas a uma paz injusta, estimando que foram feitas concessões excessivas à guerrilha, sobretudo no que diz respeito à impunidade dos autores de “crimes contra a humanidade”, como também os privilégios a serem obtidos pelas Farc em sua transformação de movimento subversivo em força política. Isso significa que sempre resta uma oportunidade para a paz; basta que prevaleça dos dois lados um certo espírito pragmático e um pouco de boa vontade.

Para mim, em meio à inquietação provocada pelo resultado do plebiscito, o que me animou – mais ainda do que as palavras encorajadoras de Timochenko ao comentar o resultado da votação – foi ver os chefes guerrilheiros, em Havana, com suas impecáveis guayaberas, seus charutos e às vezes os copos de rum ao alcance da mão, acompanhando com expectativa a contagem dos votos.

Não era esse o espetáculo de combatentes nostálgicos da vida dura e sacrificada da floresta, mas de um grupo de homens envelhecidos e cansados, conscientes no fundo (embora nunca venham a reconhecer) que aquilo que representam já está fora do tempo e da história, condenado irremediavelmente a desaparecer. Não fosse assim, não haveria acordo de paz. E poderá haver novamente, desde que as partes tirem as conclusões adequadas da consulta democrática que ocorreu.

A primeira delas é que a popularidade das Farc, que em alguns momentos chegou a ser alta, despencou, e uma nítida maioria da população colombiana não acredita mais no que fazem e no que dizem. E a aspiração maior dessa maioria é que as Farc saiam não só das montanhas e da selva, mas também da vida política. Isso significa que para os antigos guerrilheiros será necessário muito esforço e uma entrega real ao trabalho político pacífico para recuperarem um papel importante na Colômbia do futuro.

Os partidários do “não”, que venceram o plebiscito, não devem se deixar deslumbrar pela vitória, demonstrando com fatos que, efetivamente, desejam a paz. Uma paz melhor do que a proposta pelo acordo, mas a paz, e não a guerra de novo. O que implica negociar, fazer e obter concessões do adversário, algo perfeitamente realista, desde que não confundam o triunfo do “não” com umas Farc derrotadas que se pode humilhar e impor todo tipo de exigências.

Será difícil chegar a esse novo acordo, mas não impossível. Não ainda. Foi conseguido na América Central e na Irlanda do Norte, onde aqueles que se matavam com uma ferocidade extrema poucos anos atrás hoje coexistem e vão se aclimatando à democracia. O importante é estar consciente de que a velha ideia propulsora que nos anos 60 e 70 mobilizou tantos jovens, de que a justiça social está nos fuzis e pistolas, hoje está definitivamente morta.

Os que morreram fascinados por essa ilusão messiânica não contribuíram em nada para diminuir a pobreza e as desigualdades e só serviram de pretexto para a instauração de ditaduras militares atrozes, para que morressem milhares de inocentes e para que fosse ainda mais retardada a luta contra o subdesenvolvimento. Na América Latina vem renascendo, em meio a essa orgia de revoluções e contrarrevoluções, a ideia de que, no final, a democracia é o único sistema que produz progresso de verdade, impede a violência e cria condições de coexistência pacífica que permitam a solução dos problemas.

Foi menos notório e espetacular do que desejavam os impacientes justiceiros, mas, julgando com os pés bem assentados na terra, quais são os modelos revolucionários bem-sucedidos? A trágica e letárgica Cuba, de onde milhões de cubanos ainda continuam tentando escapar, custe o que custar? A destroçada Venezuela, onde se morre literalmente de fome, sem remédios, sem trabalho, sem luz, sem esperanças, sequestrada por um pequeno bando de demagogos e narcotraficantes?

Os partidários do “não” que agitavam o espectro de uma Colômbia que poderia se tornar “castrochavista” se o “sim” ganhasse, sabiam muito bem que não era certo. Se em algum momento “o socialismo do século 21” exerceu alguma influência na América Latina, isso ficou para trás e, diante do estado de calamidade para o qual foi levada a Venezuela, o chavismo se transformou mais num exemplo evidente do que não deve ser feito se o desejo é viver em paz e liberdade e progredir.

A Colômbia continuou sendo uma democracia nestes 25 anos e pouco que sobreviveu à guerrilha, e isso já é um mérito extraordinário. Um esforço mais, de todos, para que a paz seja possível. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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