A perigosa deriva do Egito

O atoleiro da economia, problemas naturais e a perda de legitimidade do governo da Irmandade Muçulmana construíram um cenário assustador

É COLUNISTA , THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA , THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2013 | 02h04

No dia 11, estive numa padaria de Imbaba, bairro pobre e imundo do Cairo, onde vi homens, mulheres e crianças se empurrando para conseguirem um pãozinho. É preciso chegar cedo, pois a padaria produz uma quantidade limitada de pães sírios subsidiados - o restante da farinha subsidiada pelo governo é vendida no mercado negro para padarias privadas, cujos preços são cinco vezes superiores aos oficiais.

O dono da padaria diz não ter escolha, pois seus custos com combustível dispararam. Pela porta lateral, saíam carregadores com sacos de farinha nas costas. "É a profissão mais ingrata no Egito", revelou-me o proprietário. As pessoas têm raiva dele, principalmente os que ficam esperando na fila desde cedo e, mesmo assim, saem com as mãos abanando.

Os tempos são difíceis no Egito. As reservas do país vêm encolhendo e não há recursos para comprar quantidade suficiente de gasolina e diesel para as usinas. Longas filas se formam nos postos de gasolina, agravando ainda mais os quilométricos congestionamentos do Cairo, e os apagões são corriqueiros.

Saindo da padaria e dobrando a esquina, chego a uma rua não pavimentada, onde dois bueiros foram destampados por um pequeno grupo de homens, expondo um lodo nauseabundo que subiu quase até o nível da rua. Com uma vara comprida, eles tentam desentupir o esgoto. Há uma discussão acalorada sobre a melhor maneira de resolver o problema. Ao fundo, por uma janela aberta, ouvem-se crianças de uma escola corânica repetirem versos alegremente sob a orientação de um professor.

Aquela rua era uma espécie de microcosmo do Egito - os problemas foram se acumulando ao longo dos anos e agora estão prestes a transbordar e inundar a rua. Ninguém consegue chegar a um acordo sobre como enfrentá-los. A única ferramenta disponível lembra uma vara de 9 metros, improvisada com arame de cabide endireitado.

Guerra. Como se as coisas já não estivessem ruins o bastante, não é que a própria natureza resolveu aumentar as aflições do país? Problemas relacionados a clima, água, comida e população agora se entrelaçam com as dificuldades de ordem política e econômica, criando desafios que até o mais hábil dos líderes políticos penaria para enfrentar - e, no Egito de hoje, não é pela habilidade que os políticos se destacam. No mês passado, a temperatura no Cairo chegou a 45ºC, 6,7ºC acima da média diária da cidade.

Na semana passada, a principal notícia no Cairo dizia respeito à barragem que a Etiópia pretende construir no Nilo Azul, dando origem à maior usina hidrelétrica da África. A represa deve reduzir o suprimento de água do Egito e, como esse país de 85 milhões de pessoas capta 97% de sua água doce no Nilo, a questão ganhou contornos dramáticos. Algumas autoridades egípcias falam numa possível ação militar para impedir que a barragem seja concluída.

Na segunda-feira, o presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, manifestou-se publicamente a respeito das intenções da Etiópia. "Não se trata de declaração guerra, mas jamais permitiremos que a segurança do nosso fornecimento de água seja ameaçada." A resposta dos etíopes foi dura. O primeiro-ministro etíope, Hailemariam Desalegn, prometeu que "nada nem ninguém interromperá a construção".

Invadir a Etiópia talvez seja a única opção de Morsi. Seu governo é uma grande decepção para grande parte da população. Muitas pessoas que não são muçulmanas votaram nele, pois sentiam que não podiam apoiar um candidato próximo ao ex-ditador Hosni Mubarak. Acreditaram ainda na promessa de que Morsi seria "inclusivo". Esses não muçulmanos pró-Morsi são conhecidos como "espremedores de limão", em razão de uma expressão que os egípcios usam quando se veem forçados a fazer ou comer algo desagradável. "Espremi um limão por cima antes".

Quem conversa hoje com esses espremedores de limão - os progressistas, conservadores e nacionalistas que formam a oposição - nota uma hostilidade palpável em relação à Irmandade Muçulmana, além de perceber uma sensação de logro: o sentimento generalizado de que a Irmandade enganou os espremedores de limão e os pobres, levando-os a votar em seus integrantes, que, agora, apesar de se mostrarem incapazes de colocar o país nos eixos ou de compartilhar o poder, estão muito ocupados tentando impor normas religiosas.

Como resolver esse salseiro? Para tentar responder à questão, fiz algo diferente. Não conversei com nenhum político, optando por me concentrar num pequeno, mas impressionante grupo de ativistas ambientais, muitos dos quais também participaram da revolta que derrubou Mubarak, no início de 2011. Concentrei-me neles porque, embora talvez não saibam o que seria capaz de pôr o Egito nos eixos, eles sabem o que é necessário. O Egito precisa de uma revolução.

Alto lá. Não foi isso o que ocorreu há dois anos? Na verdade, não. Agora está claro que o que houve foi mais dança das cadeiras que revolução. Primeiro, o Exército, usando a energia dos jovens que lideraram os protestos na Praça Tahrir, destituíram Mubarak. Depois, a Irmandade Muçulmana destituiu o Exército. Agora, a oposição tenta destituir a Irmandade. Todos esses atores, porém, seguem o diapasão da velha política majoritária: os vencedores levam tudo e os perdedores ficam sem nada. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER E CELSO PACIORNIK

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