A piloto que não pode dirigir

Hanadi rompe tabu e conduz avião de príncipe

Angela Perez, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2011 | 00h00

Em meio à campanha de um grupo de mulheres pelo direito de dirigir na Arábia Saudita, Hanadi Zakariya al-Hindi tem muito do que se orgulhar: ela é a primeira mulher piloto do país. O sonho de poder dirigir pelas ruas do reino ainda não foi alcançado, mas ela se diz muito feliz por ser apontada como um exemplo de determinação para as mulheres de seu país.

Nascida e criada na cidade sagrada de Meca, onde se dá muita importância à religião e às tradições islâmicas, Hanadi, de 33 anos, afirma que as pessoas não conseguiam compreender por que ela decidiu estudar para ser piloto. "Muitos foram contra a carreira que escolhi", lembra. Mas Hanadi sabia que podia contar com o apoio dos pais, das duas irmãs e dois irmãos.

"Ser piloto era um sonho que meu pai tinha, mas não pôde realizar. Então, disse a ele que eu queria ser piloto comercial e cumprir o desejo dele", conta a capitão. "Tive de esperar que meu pai se aposentasse do Ministério da Justiça para iniciar o curso de aviação, pois isso poderia atrapalhar a carreira dele."

Hanadi, que na ocasião estudava Literatura Inglesa, deixou a universidade em 2001 para estudar na Academia de Aviação da Jordânia. Precisou de uma autorização do pai para deixar a Arábia Saudita, pois as mulheres não podem viajar sozinhas. Concluiu o curso e estudou por mais três anos em Londres para obter a licença de piloto internacional.

Hanadi trabalha para a Kingdom Holding Company, empresa do príncipe Al-Waleed Bin Talal al-Saud, como piloto particular da família dele.

"O príncipe Al-Waleed é o mais liberal da família real e sem o apoio dele eu nunca poderia trabalhar como piloto na Arábia Saudita", diz, agradecida. Ela acrescenta que os principais cargos na companhia do príncipe são ocupados por mulheres, pois ele tem muita confiança nelas.

Orgulhosa, Hanadi conta que seu nome foi incluído no livro As 100 Maiores Mulheres da Aviação, que traz as biografias das principais pilotos desde o início da história da aviação.

Ela acredita que em breve as coisas vão mudar na Arábia Saudita, principalmente por causa da pressão dos Estados Unidos em meio à onda de levantes que vem ocorrendo desde o início do ano no Norte da África e no Oriente Médio. "Tudo tem seu tempo, mas as coisas devem mudar", diz a piloto. "Amo meu país, mas quero que as mulheres tenham o direito de dirigir, estudar e se manifestar livremente", afirma Hanadi. Na Arábia Saudita, além de serem proibidas de dirigir, as mulheres não podem votar, viajar sem autorização do pai ou marido, ou sair à rua desacompanhadas.

Em uma audaciosa iniciativa, um grupo de mulheres decidiu desafiar no mês passado a proibição de dirigir. Após acertar a manifestação pela internet, elas saíram às ruas de várias cidades sauditas. Em 21 de maio, a ativista Manal al-Sharif foi presa após divulgar um vídeo no YouTube e no Facebook no qual ela aparecia dirigindo, mas foi solta dias depois.

Desafiar a proibição de dirigir? Hanadi prefere deixar para a nova geração a missão de se rebelar contra o establishment da monarquia wahabita. Em Riad, onde trabalha, ela usa o motorista da companhia e em sua cidade, Meca, o da família. "Quem sabe no futuro poderei me tornar uma instrutora e ajudar outras mulheres a se tornar piloto em meu país?"

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