A podridão do Iraque começa no topo

A classe política local comporta-se como se não houvesse crise porque, para ela, não há

Zaid Al-Ali/The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2014 | 02h37

A situação do Iraque é desesperadora. O que a torna pior é que sua classe política e muitas autoridades americanas continuam ministrando um remédio que é pior que a doença: a fragmentação do Iraque por divisões sectárias.

Se os últimos 11 anos provaram alguma coisa, foi que o problema não está na falta de representação e inclusão no governo e nas instituições iraquianas. O que aprendemos desde 2003 é que apenas garantir a existência de ministérios para cada uma das principais comunidades do Iraque - xiitas, sunitas, curdos e minorias como os caldeus e turcomanos - não garantirá que eles representarão os interesses dessas comunidades, quanto mais o interesse nacional. Qualquer influência americana deixada no Iraque deveria se concentrar na reconstrução da credibilidade das instituições nacionais.

Em vez disso, pretensos especialistas estão recomendando cristalizar o modelo etno-sectário e permitir que cada uma das principais comunidades do país se autogoverne e cuide da própria segurança. Isso ignora a realidade atual. Não há a menor possibilidade de Bagdá permitir que províncias de maioria sunita desenvolvam forças de segurança próprias. A ideia de que um Estado dominado por xiitas deixe rivais políticos e religiosos se armar pesadamente e estabelecer exércitos nos moldes dos peshmergas curdos é ridícula.

Mesmo que o governo central fosse pressionado a aceitar semelhante acordo, os sunitas não poderiam gerir adequadamente uma força de combate exclusivamente sunita - pois os políticos sunitas do Iraque são tão corruptos quanto os partidos xiitas que controlam Bagdá. A pouca experiência que o Iraque tem de auditoria, supervisão e gestão de projeto está concentrada em Bagdá, razão por que novas instituições regionais e provinciais muito provavelmente seriam ainda mais corruptas que as instituições nacionais.

Nuri al-Maliki foi merecidamente objeto de críticas pelo exercício autoritário que fez de seus poderes constitucionais, sua paranoia e sua cegueira para os perigos reais. Mas o restante da elite iraquiana não se saiu nada melhor. As eleições parlamentares ocorreram no fim de abril e o Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês) começou sua investida sobre Mossul no começo de junho.

O pouco progresso feito - eleger um novo chefe do Parlamento e um novo presidente - foi resultado de pressões de instituições religiosas do país. A única grande iniciativa de segurança desde que o Isil entrou em cena foi encorajar iraquianos a se oferecer como voluntários para substituir as unidades do Exército desmanteladas em junho. Dezenas de milhares de jovens, na maioria desempregados, alistaram-se - para descobrir que os mesmos elementos incompetentes e corruptos que haviam infestado as Forças Armadas regulares os estavam conduzindo à luta quase sem treinamento, equipamento ou suporte.

A classe política comporta-se como se não houvesse crise porque para ela, não há. Se topar com ela, pode fazer as malas e partir com suas famílias. Aliás, alguns parlamentares eleitos em 2005, 2006 e 2010, que não voltaram ao cargo após a eleição deste ano, partiram.

A solução reside não em uma nova divisão ou no estabelecimento de exércitos regionais, mas na reversão dessas tendências pelo restabelecimento de instituições nacionais que tratem por igual todos os cidadãos. O Exército iraquiano fez exatamente isso em 2010, até a influência corrosiva de Maliki se impor. A corporação não foi particularmente competente, mas ao menos, diferentemente de agora, merecia o respeito da população.

De 2003 para cá, quantidades desconhecidas de iraquianos foram detidas sem acusação por semanas e meses (às vezes mais) e submetidas a abusos dos direitos humanos. Não basta que essa prática termine. Torturadores contumazes, guardas prisionais e juízes precisam prestar contas pública e imediatamente para convencer os iraquianos de que uma página foi virada. Esse empenho é necessário para os iraquianos confiarem e lutarem ao lado de seu governo no esforço para derrotar o Isil.

Da mesma forma, o poder de Maliki sobre as forças militares e policiais deve ser transferido para um conselho nacional civil com autoridade para rever todas as principais políticas de segurança.

Os problemas do Iraque não são principalmente religiosos (como muitos ocidentais quase sempre acreditam) ou econômicos (as receitas do petróleo estão sendo divididas e há dinheiro suficiente para financiar as operações governamentais). São, como sempre, políticos.

Se a ameaça existencial que vem do Isil não conseguir abalar a classe política e levá-la à ação, nada conseguirá fazer isso. Tendo ignorado os abusos de Maliki até completar a retirada das tropas em 2011, o melhor que os EUA podem fazer agora - além de suas ações de prover ajuda humanitária e conter o Isil - é apoiar o processo político com recomendações acertadas. Está em jogo a existência do Iraque como nação. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Zaid Al-Ali foi consultor jurídico das Nações Unidas no Iraque de 2005 a 2010 e é autor de 'The Struggle for Iraque's Future: How Corruption, Incompetence and Sectarianism Have Undermined Democracy'.

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