'A polícia descarregou as armas em nós'

Ernesto Guerrero, de 23 anos, é um dos sobreviventes do ataque contra estudantes, em Iguala, que resultou na morte de seis pessoas, entre eles três estudantes, e no desaparecimento de outros 43. No câmpus da Escola Normal de Ayotzinapa, onde ele cursa o primeiro ano de formação para professores em educação primária, Guerrero contou em detalhes o que se passou naquela noite de 26 de setembro. Seguidor da doutrina marxista transmitida na escola, ele pediu para ser filmado e fotografado com um mural ao fundo de Ernesto "Che" Guevara, líder da Revolução Cubana, seu xará e herói. A seguir, seu relato.

LOURIVAL SANTANNA , ENVIADO ESPECIAL, AYOTZINAPA, MÉXICO, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2014 | 02h02

"No dia 26 de setembro, saímos daqui, da Escola Normal de Ayotzinapa, ao redor das 18 horas, para pegar dois ônibus com destino a Iguala.

Costumamos usar ônibus para transportar os estudantes para estágios em escolas distantes. Fomos em dois ônibus que já estavam conosco da empresa Estrella de Oro, num total aproximado de 100 companheiros. Um ônibus ficou, para fazer uma coleta de cooperação voluntária, que se pede aos motoristas, para a marcha de 2 de outubro (para lembrar o Massacre de Tlatelolco, em 1968). O outro, no qual eu viajava, chegou à cidade de Iguala às 19h30. Depois, os dois veículos se encontraram para irmos ao Terminal de Ônibus de Iguala.

Tudo isso transcorreu de maneira pacífica, tranquila. Saímos do terminal sem nenhum conflito, não houve protestos, discussão, nada. Foi dito que fomos a Iguala boicotar o discurso da sra. María de los Ángeles - a primeira-dama, que apresentou naquela noite os resultados de seu trabalho de assistência social. Essa mulher não nos interessava. Eu nem sequer tinha conhecimento dela. O que ganharíamos gritando palavras de ordem no seu discurso? Nada. Em nenhum momento descemos no Zócalo (praça principal). Não fizemos escândalo.

Saindo do terminal, em direção à Perimetral (avenida na periferia de Iguala), em três ônibus, para voltar para a escola, passando pelo Zócalo, começaram as sirenes das patrulhas. Sinceramente, não pensei que fossem contra nós, que fossem nos agredir. Do Zócalo, saíram duas patrulhas atrás do terceiro ônibus. Imediatamente, começaram a disparar. Em nenhum momento os policiais nos mandaram parar. Não quiseram falar conosco.

Tínhamos de nos defender de alguma forma. Eu e outros cinco companheiros descemos do terceiro ônibus em movimento e começamos a jogar contra os policiais, que estavam poucos metros atrás de nós, as poucas pedras que havia, garrafas e o que encontrássemos na rua. Gritávamos para os policiais: 'Somos estudantes. Por que disparam contra nós? Não temos armas'. Eles nos apontavam as armas e respondiam: 'Queriam nos enfrentar, homenzinhos? Agora aguentem, veados!'.

No início, era um tiro de cada vez. Depois começaram a descarregar as armas - uma chuva de balas. No começo, foram uns 15 policiais, mas foram chegando mais patrulhas e depois eram muitos policiais. Alguém disse ao motorista do terceiro ônibus: 'Feche a porta e não deixe passar mais ninguém'. Nós, que tínhamos descido, corremos para o primeiro ônibus. Havia muito trânsito e os ônibus iam devagar. Íamos ao lado dos ônibus, para nos proteger, jogando pedras.

Quando eu já estava no primeiro ônibus e íamos pegar a Perimetral, uma patrulha da Polícia Municipal atravessou a via e bloqueou nossa passagem. Decidimos descer outra vez e empurrar a patrulha para abrir espaço. O primeiro a chegar à patrulha foi meu companheiro Aldo. Depois, chegamos eu e outros companheiros. Começamos a empurrá-la e começaram a descarregar as armas contra nós. Logo, atingiram Aldo na cabeça. Ele caiu e se formou uma poça de sangue no chão. Gritei: 'Acertaram o Aldo'. Outros colegas se aproximaram e tentamos carregá-lo, mas disparavam contra nós, tanto de frente quanto de trás, e tivemos de deixá-lo. Eu me joguei onde estava o primeiro ônibus, para me proteger. Éramos uns 25 colegas atrás do primeiro ônibus. Quando ouvíamos os tiros, nos jogávamos no chão.

Chegaram mais policiais pelos dois lados de onde estávamos. Eram umas 21 horas. Os disparos duraram aproximadamente 15 minutos. Meus colegas do terceiro ônibus não desceram. A polícia os cercou, apontou as armas para eles e os empurrou para a calçada com as mãos na cabeça. Um policial se encarregou de dizer: 'Você, você e você, subam (nas carrocerias das caminhonetes)'. As patrulhas fizeram duas ou três viagens com meus companheiros. Todos foram levados vivos, deitados nas carrocerias, uns em cima dos outros. Eram umas dez caminhonetes. Todas da Polícia Municipal.

Depois, chegou a ambulância e levou Aldo, que teve morte cerebral. Chegaram mais policiais e começaram a nos agredir verbalmente: 'Já vão embora, veados? Subam em seu ônibus e caiam fora. Já vamos embora. Vão também, se não, vão se lembrar de nós. Não queremos vê-los em nossa cidade'. Todos os policiais, sem mais nem menos, foram embora e nos deixaram lá. Subi no terceiro ônibus e vi que havia feridos lá. Na poltrona do motorista, escorria sangue. Havia uma poça de sangue nas primeiras filas. O câmbio estava coberto de sangue.

A polícia levou esses feridos para o hospital. Também levou os que aparentemente não sofreram nenhum ferimento. São os 43 que estão desaparecidos. Umas duas horas mais tarde, começaram a chegar os companheiros de Ayotzinapa, professores, gente de outras escolas normais, meios de comunicação, porque durante os disparos ligamos para organizações, para os professores. Enquanto falávamos com os meios de comunicação, fizeram novos disparos, de uma parte escura da Perimetral. Todos saíram correndo de novo.

Havia dois estudantes mortos - na manhã seguinte, encontraram um terceiro, com a pele do rosto e os olhos arrancados - e muitos feridos no local. Recebi uma mensagem de um companheiro: 'Conterrâneo, me ajude, estou morrendo'. Então, mesmo com medo, meus companheiros tiveram de voltar ao local. Eu fui para a Promotoria de Iguala. Lá foi o ponto de encontro. O subprocurador da República em Iguala foi a Varandilla, para onde são levados os presos, e o diretor de Segurança Pública, Felipe Flores - que está foragido, acusado de envolvimento -, disse que não sabia de nada, nem dos tiros, nem de estudantes detidos."

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