A política da Casa Branca que separa famílias

Ao acordar do sonho americano, imigrantes ilegais deportados para o México deixam filhos, cônjuges e uma vida para trás

CLÁUDIA TREVISAN, ENVIADA ESPECIAL , O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2013 | 02h08

TIJUANA, MÉXICO - Desde que cruzou a fronteira do México com os EUA com seus pais, há 31 anos, Jaqueline Estrella nunca havia voltado a seu país de origem. Como muitos dos milhões de imigrantes que vivem o sonho americano de maneira clandestina, ela preferiu não correr os riscos de uma travessia e abraçou a nova vida: estudou, teve quatro filhos e conseguiu empregos que permitiram que os sustentasse sem ajuda de ninguém.

No dia 10 de setembro, Jaqueline foi deportada para o país que já não reconhece como seu, levando apenas a bolsa e a roupa que vestia. Do outro lado da fronteira ficaram não apenas seu trabalho, os amigos e todos bens materiais que possuía, mas também seus filhos, cidadãos americanos que agora vivem com sua mãe, Ema, residente legal no país.

Aos 38 anos, ela terá de recomeçar do zero, no mesmo México que sua família abandonou há três décadas em busca de uma vida melhor. Sua esperança é conseguir emprego na cidade fronteiriça de Tijuana, alugar uma casa e morar com a filha mais nova, Itzelle, de 10 anos. Os outros três filhos ficarão nos EUA. Jaqueline, de 22 anos, está no terceiro ano de Medicina. Os meninos Arturo, de 18 anos, e Daniel, de 16 anos, cursam o colegial.

Os quatro pisaram pela primeira vez em solo mexicano, há duas semanas, no primeiro encontro que tiveram com a mãe desde o dia 18 de janeiro, quando ela foi detida depois de ignorar o sinal de uma blitz policial, com medo de ser deportada. Jaqueline passou os nove meses seguintes presa, enquanto recorria ao Judiciário para tentar permanecer nos EUA.

"Disse que não podia ser deportada, que já havia vivido 31 anos no país e tinha quatro filhos americanos", lembrou em entrevista ao Estado no Instituto Madre Assunta, um albergue para mulheres migrantes de Tijuana mantido pela congregação das irmãs scalabrinianas.

Como ela, milhares de pais e mães estão sendo separados de suas famílias por uma política migratória que deixa no limbo os cerca de 11 milhões de pessoas que vivem nos EUA de maneira ilegal - os "indocumentados" -, uma população que supera a soma dos habitantes de Paraguai e Uruguai.

Muitos chegaram há décadas e passaram mais tempo de suas vidas em solo americano do que em suas cidades de origem. Estima-se que existam 5,5 milhões de crianças e adolescentes com pelo menos um dos pais sem documentos nos EUA. Desse total, 3 milhões são cidadãos americanos, por terem nascido no país. Milhares estão ficando "órfãos" em razão do drástico aumento nas deportações registrado no governo Barack Obama, que só no ano passado levou à saída de 400 mil imigrantes ilegais dos EUA, um número recorde. Em seus quatro primeiros anos de governo, houve 1,6 milhão de deportações.

Estatísticas oficiais indicam que 205 mil pessoas expulsas do país no período de janeiro de 2010 a setembro de 2012 declararam estar deixando filhos americanos para trás. Além do abalo emocional da separação, a deportação de um dos pais afeta a segurança financeira da família, que enfrentará a eliminação de uma de suas fontes de renda. Claudia Dávila cruzou a fronteira com um visto de turista, em 1991 ,voltou ao México para o batismo de seu filho, em 1993, e não havia mais colocado os pés no país até o dia 7 de novembro, quando foi deportada.

Detida às 6h30, a caminho do trabalho, ela chegou algemada e acorrentada a Tijuana, 12 horas mais tarde. Só então conseguiu telefonar para o marido, Oscar Dávila, e contar o que havia acontecido. "Ele chorou, não podia acreditar. No começo, ele achou que eu estivesse brincando", relatou Claudia, enxugando as lágrimas.

Com Oscar, ficaram os três filhos do casal, de 20, 18 e 9 anos. Claudia trabalhava havia seis anos em uma fábrica da New Balance, onde ganhava US$ 1.700 ao mês. O emprego permitia que pagasse o plano de saúde da família, ao custo de US$ 118 por semana, e ajudasse o marido a bancar a prestação mensal de US$ 1.300 da casa que ambos compraram em maio na Califórnia.

"Ele não vai conseguir pagar tudo sozinho e, se houver atrasos, corremos o risco de perder a casa", lamentou. "Trabalhei 16 anos, paguei impostos, fiz uma vida lá e, de repente, tudo se acabou. Eu me sinto derrotada." Oscar conseguiu residência permanente nos EUA em 2010 e, no domingo, foi visitá-la em Tijuana com os filhos. Além das imagens que traz em seu celular, a foto dos cinco de sombreiros em um parque da cidade é a única lembrança que tem da família.

Claudia disse que havia iniciado o processo para regularizar sua situação nos EUA em 2010 e foi presa porque seu advogado não informou à Justiça a mudança de endereço realizada em maio. Sem receber intimações, ela teria deixado de comparecer a audiências, o que levou o Judiciário a determinar a deportação. Do México, ela tenta agora reverter a decisão. Ao mesmo tempo, espera o filho mais velho fazer 21 anos, em abril, para poder pedir sua imigração legal. Claudia, porém, não sabe quando - nem se - isso ocorrerá.

As separações familiares estão mudando o perfil das pessoas que entram clandestinamente no país, com aumento do número dos que retornam depois de deportados para reencontrar seus filhos ou cônjuges. "Um número crescente de pessoas tentando entrar nos EUA não são migrantes tradicionais, mas antigos residentes de longo prazo tentando retornar às suas famílias", diz o estudo Transformando Migrantes em Criminosos, divulgado pela Human Rights Watch, em maio.

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