A política da raiva na França

Juntos, os extremos de direita e esquerda da eleição francesa derrotariam tanto Sarkozy quanto Hollande

É CORRESPONDENTE EM PARIS , JOHN, VINCOUR, THE NEW YORK TIMES, É CORRESPONDENTE EM PARIS , JOHN, VINCOUR, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2012 | 03h04

As eleições de domingo na França não decidirão quem será o próximo presidente, mas muito provavelmente apresentarão um infeliz precedente: o sucesso da "Frente da Rejeição" que conjuga a tenebrosa compatibilidade das extremas esquerda e direita.

Pelo menos teoricamente, somando-se os votos da Frente de Esquerda e da Frente Nacional, no primeiro turno, o total dos candidatos que estão mais à margem poderia superar tanto os do presidente Nicolas Sarkozy quanto de seu rival socialista, François Hollande. Isso não muda a quase certeza de que Marine Le Pen, na extrema direita, e Jean-Luc Mélenchon, na extrema esquerda, serão eliminados no domingo. Hollande e Sarkozy avançarão para o último turno, marcado para duas semanas depois.

Mas, se a Frente da Rejeição, como decidi chamá-la, tiver um resultado tão bom quanto sugerem as sondagens, a França terá legitimado duas correntes políticas que menosprezam as soluções sérias para o drama econômico nacional, rejeitam a civilidade e o bom senso. Ambos propõem o retrocesso com um sistema econômico tresloucado e autoritário - entre a luta de classes e preconceitos de classe, raciais ou antiocidentais. É a política da raiva.

Sarkozy e Hollande preveem obter no primeiro turno de 26% a 29% dos votos. Se as estimativas para Le Pen (16% a 18%) e Mélenchon (15%) estiverem certas, o total de votos dos extremistas derrotará cada um dos dois candidatos das correntes tradicionais.

Mélenchon infantiliza os franceses com promessas de uma "insurreição". Diz que criaria 500 mil empregos em creches do governo, 200 mil apartamentos com aluguel barato, o reembolso total dos gastos pessoais com assistência médica e a estabilidade plena para 800 mil funcionários públicos. Não está claro de que maneira a Frente de Esquerda cobriria os custos, mas Mélenchon deu uma pista: o confisco da renda pessoal anual acima de 360 mil. Para ele, ainda, os EUA são "o problema fundamental do mundo", Hugo Chávez da Venezuela é um herói, a invasão chinesa do Tibete é plenamente justificada e Cuba não é uma ditadura.

Como disse Daniel Cohn-Bendit, o político ecologista de esquerda: "Ele conseguiu reavivar a nostalgia nacional pelo antigo conflito de classes e a tradição estatista".

Enquanto o papel de Mélenchon na Frente da Rejeição recusa a realidade, a Frente Nacional de Marine Le Pen incita os instintos franceses ao sectarismo e ao rancor. E parece que está funcionando.

Sem rosnar como seu pai, Jean-Marie Le Pen, ela explora os sentimentos contra a imigração dosando cuidadosamente o excesso. O objetivo é arrancar votos da maioria da população, que, segundo as pesquisas, considera a integração um fracasso porque os imigrantes não se esforçam. Sondagens mostram que ela tem algum plano em mente. O Le Monde do dia 10 mostrou que, no domingo, ela receberá mais votos dos jovens entre os 18 e os 24 anos (26%) do que qualquer outro candidato à presidência.

Portanto, de quem ou do que é a culpa se uma parte significativa da França aceita sem uma atitude crítica a economia bizarra e o preconceito disfarçado? Uma fácil explicação lógica seria que, afinal, essa é uma antiga sociedade resistente às adversidades. Em vez disso, veja-se a banalidade de Sarkozy e de Hollande.

Eles nunca apresentaram aos eleitores a perspectiva o futuro mais difícil da redução do déficit, ou consideraram a possibilidade de adotar programas de impacto para os imigrantes muçulmanos. Com suas manobras simpáticas, Sarkozy e Hollande reduziram a estatura da política da França e deram aos líderes da Frente de Rejeição impulso suficiente para entrar, lado a lado, na Assembleia Nacional com as eleições legislativas de junho. / ANNA CAPOVILLA

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