A política de não ampliar as tensões num ano eleitoral

Obama convenceu-se de que ser discreto sobre Teerã é prudente; as eleições tornam isso mais fácil de justificar

AARON DAVID, MILLER, THE NEW YORK TIMES, É ACADÊMICO DO CENTRO , WOODROW WILSON , AARON DAVID, MILLER, THE NEW YORK TIMES, É ACADÊMICO DO CENTRO , WOODROW WILSON , O Estado de S.Paulo

09 de março de 2012 | 03h01

Artigo

Um dos mais perigosos mitos dos tempos atuais diz que a política do presidente Barack Obama em relação ao Irã foi sequestrada pela condescendência a Israel no ano de eleições nos EUA.

Na verdade, é muito mais provável que as incertezas do ano eleitoral façam de Obama um guerreiro cauteloso no sentido de dar luz verde a um ataque israelense contra o Irã ou de lançar a própria ofensiva contra o país persa.

A ideia segundo a qual 5,5 milhões de judeus americanos em uma sólida aliança com os cristãos evangélicos do país teriam sequestrado a política dos EUA para o Oriente Médio é um dos mitos mais perigosos e duradouros da política americana. Esse mito é especialmente forte na Europa e no mundo árabe, onde a incapacidade de compreender o funcionamento da política americana e a profundidade do relacionamento entre EUA e Israel leva a uma oca teoria da conspiração, na qual um premiê israelense transforma a Casa Branca e o Congresso em território ocupado por Israel.

Os defensores e adversários de Israel tornam o debate ainda mais confuso. Para muitos dos defensores, o apoio americano ao país é um reflexo da grande afinidade de valores e interesses que une ambos. Para os críticos e detratores, tudo não passa de uma questão política - de acordo com esse raciocínio, se não fosse a influência dos judeus americanos, o presidente teria muito mais liberdade para proteger interesses nacionais. Ambos lados estão enganados. O eleitorado pró-Israel tem voz poderosa, sem dúvida - especialmente no Congresso, onde a política impera. Mas essa comunidade não tem poder de veto nem nada semelhante.

Presidentes não compram brigas com eleitorados domésticos importantes, especialmente em ano de eleição. Mas quando um presidente inteligente e determinado opta por seguir o interesse nacional em vez do interesse político limitado, a Casa Branca prevalece. Às vezes, a briga é feia, mas presidentes determinados que têm nas costas os interesses nacionais triunfam.

A narrativa diz que um presidente em ano eleitoral está à mercê dos israelenses (que o pressionam a autorizar o ataque contra o Irã ou a fazer o serviço em nome deles), de seus defensores nos EUA (ainda mais preocupados com um Irã nuclear), do Congresso (que pressiona o governo a adotar uma posição mais rígida) e dos republicanos (à espera do momento de dar o bote).

Será que alguém que tenha ouvido Obama esta semana na conferência da Aipac (o grupo de lobby pró-Israel nos EUA) poderia chegar a outra conclusão? O presidente endureceu na retórica, mas seu discurso foi um exemplo de astúcia. Ele indica ao Irã que a questão está no topo de sua pauta e diz que os iranianos não devem se considerar livres de uma ação militar; garante aos israelenses que leva suas preocupações a sério sem ceder a uma deterioração no sentido da guerra; e comunica a russos e chineses que pretende aumentar a pressão contra o Irã sem fechar de vez a porta da diplomacia.

Se não estivéssemos num ano eleitoral, a política do presidente seria praticamente a mesma: ganhar tempo para determinar se formas não militares de pressão podem funcionar contra o Irã e garantir a Israel a seriedade de suas intenções.

Não se pode chamar isso de condescendência. Obama está tentando chegar a uma decisão firme sobre o Irã, que, por enquanto, ainda não pode ser tomada de maneira conclusiva. E vai se esforçar ao máximo para convencer os israelenses a ser pacientes. Não sabemos se o presidente terá sucesso. Mas uma coisa é certa: Obama convenceu-se de que manter discrição a respeito do Irã é, no momento, a estratégia mais prudente. E a aproximação das eleições de novembro só tornou isso mais fácil de justificar. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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