A política do apenas eu existo

Com o passar do tempo, os valores democráticos sufocaram os valores republicanos e agora nos mostramos intolerantes

David Brooks, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2011 | 00h00

Os Estados Unidos, como vocês sabem, foram fundados como uma república, não apenas como uma democracia. A distinção perdeu-se nas últimas décadas, no entanto, é muito importante.

Os que acreditam na democracia têm uma fé ilimitada no caráter e no julgamento das pessoas e estão convencidas de que as instituições políticas devem atender aos seus desejos. Os que acreditam na república têm uma fé enorme, mas limitada no caráter e no julgamento das pessoas e erigem instituições e barreiras a fim de aprimorar cada vez mais este caráter e guiar seu julgamento.

Os fundadores dos Estados Unidos eram republicanos. Não era mero elitismo, como se alguns homens abastados não confiassem nas massas. Era uma convicção que superava toda a sociedade e derivava de uma determinada visão da história. Como Irving Kristol disse em um brilhante ensaio de 1974, intitulado Virtude republicana versus instituições servis: "O homem comum não é um tolo, e a prova disso é que ele tem uma modesta fé em si mesmo".

Os primeiros cidadãos dos EUA criaram instituições para se proteger de seus próprios defeitos. Conhecemos algumas delas: o sistema de freios e contrapesos, o Senado, etc. Eles acreditavam que o mais importante era o altruísmo - um conjunto de hábitos e atitudes que conteria o egoísmo e a indulgência para consigo mesmo.

Como Kristol ressalta no ensaio, o significado de "altruísmo" inverteu-se totalmente desde o século 18. Hoje, achamos que um indivíduo zeloso pelo bem-estar da sociedade é uma pessoa que tem opiniões entusiásticas sobre questões que dizem respeito à sociedade, que assina petições e se torna o defensor de uma causa.

Entretanto, em seu sentido original, significava o oposto. Como escreveu Kristol, significava, segundo sua definição, "frear as próprias paixões e moderar as próprias opiniões a fim de conseguir um amplo consenso que garanta a tranquilidade do país". Em vez de autoexpressão, ou expressão da própria individualidade, significava autodomínio. E foi personificado por George Washington.

Intolerância. Com o passar do tempo, os valores democráticos sufocaram os valores republicanos. Agora, nos mostramos intolerantes com as instituições que estorvam a vontade popular, por considerá-las antidemocráticas e ilegítimas. Os políticos acham que é seu dever servir aos eleitores do mesmo modo que um empresário procura servir seus clientes. O cliente tem sempre razão.

Algumas coisas acabaram se perdendo ao longo dessa transição. Como consideramos uma questão de fé acreditar que as pessoas são boas, não ficamos mais alertas aos acordos que possam corroer o caráter da nação. Por exemplo, várias gerações tinham uma aversão moral à dívida. Acreditavam que se endividar equivalia a ceder às nossas compulsões mais baixas e abrir mão de nossa futura independência. Esta aversão foi claramente superada.

Já não temos uma classe de líderes - como a que existiu no máximo até os governos Truman e Eisenhower - que está convencida de que governar significa encontrar o equilíbrio entre diferentes interesses econômicos e entre facções políticas. Ao contrário, hoje temos a política do solipsismo. A cultura política encoraja políticos e ativistas a imaginar que os problemas do país poderiam ser resolvidos se os interesses e os valores de outras pessoas desaparecessem por um passe de mágica.

O triunfo democrático criou uma nação que acumula imensas dívidas e é cada vez mais incapaz de encontrar um equilíbrio entre interesses contrastantes. Hoje, o país enfrenta três desafios econômicos indissoluvelmente relacionados entre si. Precisamos fazer com que o Estado previdenciário se torne sustentável do ponto de vista fiscal. E precisamos fazer isso preservando o dinamismo econômico do país - que fornece incentivos à destruição criativa. E também precisamos fazê-lo preservando a coesão social - que reduz as crescentes discrepâncias econômicas e do estilo de vida entre as pessoas instruídas e as menos instruídas.

Estes três objetivos estão em tensão entre si, mas, para continuar prosperando, os EUA precisam enfrentar os três desafios ao mesmo tempo.

Os eleitores terão de aceitar os compromissos institucionais que limitam o desejo de gastar consigo mesmos, neste momento. Os líderes políticos terão de descobrir maneiras de moderar o tribalismo solipsístico e elaborar reformas na área fiscal e previdenciária que permitam equilibrar o dinamismo econômico e a coesão social.

Nos últimos meses, houve algum progresso no sentido de que os americanos aceitem a necessidade de comedimento. Com seus vários enfoques orçamentários, a Comissão Simpson-Bowles, Paul Ryan e o presidente Barack Obama sugeriram que política não pode mais significar apenas a satisfação das necessidades imediatas dos eleitores. O público ainda não entendeu a mensagem, mas está havendo algum progresso.

Houve um progresso menor no que se refere a fazer com que os líderes políticos cheguem a compromissos que permitam equilibrar dinamismo e coesão. Os republicanos ainda insistem principalmente em incentivos ao crescimento, e os democratas em segurança econômica. O avanço, se é que houve algum, virá dos setores menos diretamente democráticos do governo, do Senado ou de alguma comissão de figurões do establishment. E será incorporado quando os eleitores se derem conta de que precisamos de compromissos que nos protejam de nossas próprias fraquezas. Tudo dependerá de fazer reviver as virtudes republicanas que constituem os alicerces dos EUA. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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