A política é o outro desastre que o Nepal enfrenta

Após anos de conflito, a guerrilha tornou-se um partido e os interesses nacionais viraram reféns da disputa entre rivais

ISHAAN, THAROOR, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2015 | 02h03

Mesmo após o devastador terremoto no Nepal, é difícil enxergar a extensão da calamidade. Dias depois do tremor atingir a capital, Katmandu, destruindo monumentos tombados pela Unesco, equipes de socorro ainda lutam para chegar aos locais mais remotos, temendo que vilarejos inteiros tenham sido riscados do mapa.

O desastre natural, como muitos observaram, não ocorreu do nada.Há décadas, estudos têm sido feitos mostrando como o Nepal está propenso a tremores, mas pouco foi feito para preparar o país para um terremoto dessa magnitude. Especialistas apontam a pobreza endêmica como razão da vulnerabilidade. A vasta missão de socorro internacional reforçou a imagem de um Estado desamparado, dependente de ajuda externa.

Na cabeça de muitos estrangeiros o Nepal ainda é o romântico destino himalaio. Katmandu, famosa por seus palácios antigos, é a porta de entrada para as escaladas no Monte Everest ou outras montanhas épicas. Mas esse cartão postal oculta as mudanças avassaladoras e traumáticas que convulsionaram o país nas duas últimas décadas. Paralelamente às falhas geológicas do Nepal, há divisões políticas irascíveis.

Nos anos 90, uma insurgência maoista emergiu com o objetivo de depor a monarquia secular e pôr fim à arraigada desigualdade étnica e de castas. A rebelião maoista chegou ao fim em 2006, com pelo menos 12 mil nepaleses mortos. Foi adotado um processo de paz supervisionado pela ONU cuja finalidade era transformar o Nepal, monarquia constitucional, numa república federal e secular. O que quase ocorreu.

As guerrilhas maoistas trocaram seus redutos na selva por escritórios e se tornaram parte integrante da democracia multipartidária. As eleições levaram à formação de um governo de transição e uma assembleia encarregada de elaborar a nova Constituição. Em 2008, a monarquia secular do Nepal foi oficialmente abolida. Em 2012, unidades combatentes maoistas foram integradas ao Exército nepalês, antes seu maior inimigo.

Mas na década passada, o Nepal descambou para uma crise atrás da outra e os interesses nacionais se tornaram reféns das disputas entre partidos políticos inimigos. Sucessivas assembleias constituintes eleitas para redigir a nova Carta fracassaram no cumprimento da principal tarefa.

Tensões entre partidos maoistas, partidos leais à monarquia e os de centro resultaram em governos formados e desfeitos rapidamente, ao mesmo tempo em que protestos e greves paralisaram o país. Anos de turbulência política deixaram a economia do Nepal estagnada e o Estado incapaz de fazer frente a uma tragédia desta envergadura onde a infraestrutura é notoriamente pobre.

"Depois de uma década de conflito, os políticos do Nepal estão muito ocupados brigando entre si, mais recentemente por causa da reforma constitucional, para resolver o seu despreparo para enfrentar um desastre, uma tarefa prioritária", afirmou Kunda Dixit, conhecido jornalista nepalês, em artigo para The New York Times.

Como também ocorreu à época do terremoto que devastou o Haiti em 2010, no Nepal as organizações internacionais e não governamentais terão de conduzir seu trabalho, apesar das falhas do governo.

Claro que a disfunção política do Nepal não é só produto de elites incompetentes. Reorganizar uma nação com tanta complexidade como este país - são quase 30 milhões de pessoas que pertencem a mais de 100 castas e grupos étnicos - não é tarefa fácil.

Existem disputas ideológicas autênticas entre maoistas e outros partidos políticos sobre como retraçar as fronteiras políticas e criar um novo sistema federal que represente melhor suas comunidades mais marginalizadas. Mas a trágica ironia é que os líderes do Nepal guerreiam por um futuro ideal ao passo que o presente se torna cada vez mais sombrio. Um segmento enorme da população é obrigado a ganhar a vida no exterior. E, embora se fale muito em descentralização, Katmandu tornou-se ainda mais importante, com a instabilidade dos anos de guerra levando a um forte aumento da migração rural para o vale onde está a capital já superpovoada. "Somos quase um Estado de uma única cidade. Todas as oportunidades do país, suas boas instalações médicas, seus principais centros educacionais, seus centros administrativos, tudo está em Katmandu", disse Dixit.

E isso torna o desafio de enfrentar um terremoto muito mais difícil para o governo. Muitos esperam que, à medida que o Nepal junte os pedaços, as classes políticas comecem a tirar algumas lições da ruína. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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