A presença russa na Síria

Sistema antimísseis provoca ressalvas no governo americano, que teme apoio a Assad

Eric Schmitt, Michael R. Gordon*, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2015 | 02h02

O aumento da presença militar da Rússia na Síria inclui, além de mísseis terra-ar, aviões de combate com capacidade de lançar foguetes ar-ar, o que levanta graves questões sobre o papel de Moscou na região, disse no sábado o secretário de Estado americano, John Kerry.

As autoridades russas alegaram que a finalidade de sua capacidade militar numa base próxima de Latakia, na Síria, é combater o Estado Islâmico (EI). Mas a instalação dos sistemas de defesa aérea e a presença de aviões de combate - armamentos que podem ser usados contra um inimigo dotado de armas convencionais, mas que têm pouca utilidade contra combatentes extremistas - intensificaram os temores de que o propósito de Moscou seja também estabelecer um posto militar avançado no Oriente Médio.

Com isso, aumentaram também as preocupações do Pentágono a respeito do risco de um confronto inadvertido entre forças militares russas e da coalizão liderada pelos Estados Unidos, que realiza ataques aéreos na Síria contra o Estado Islâmico.

"Evidentemente, a presença de aeronaves com capacidade de combate ar-ar, além de mísseis terra-ar, levanta graves questões. É por esse motivo que o secretário Carter (chefe do Pentágono) conversou com o ministro de Defesa Serguei Shoigu", afirmou Kerry.

Por indicação da Casa Branca, Carter deu início na sexta-feira a um diálogo como seu colega russo com a finalidade de assegurar que aviões americanos e russos evitem incidentes indesejados em suas operações na Síria.

Alerta. Kerry não deu outros detalhes, mas uma fonte do governo americano informou que já foi instalado em Latakia um sistema de defesa aérea russo SA-22. Na semana passada, os EUA observaram elementos do sistema na base, mas agora o lançador e os mísseis estão posicionados também, segundo o funcionário. E ele acrescentou que os quatro Su-27 que a Rússia enviou para a base estão armados com mísseis ar-ar. "Qual a ameaça ar-ar para eles nesse lugar?" indagou o funcionário, que definiu "preocupante" o fato.

Outras fontes dentro do governo americano sugeriram que o armamento pode simplesmente indicar uma precaução defensiva normal da Rússia, levando-a a implantar uma base aérea num país estrangeiro.

O edifício pré- fabricado construído pelos russos no local agora tem a capacidade de abrigar 2 mil pessoas, entre assessores e efetivo militar. O envio de armas e equipamentos para a base exigiu mais de 20 voos dos aviões de transporte russos Condor.

A Síria e a crise dos refugiados que ela desencadeou foram tratadas com destaque por Kerry em sua viagem à Europa. Depois de uma reunião na manhã de sábado com o secretário do Exterior da Grã-Bretanha, Phillip Hammond, Kerry disse que é vital buscar uma solução diplomática, mas que Moscou não está pressionando suficientemente o presidente Bashar Assad da Síria a negociar com seriedade.

Apelo. "Precisamos ir à mesa de negociações", disse Kerry numa coletiva conjunta com Hammond. "É isso que nós queremos. Esperamos que Rússia, Irã e países que podem influenciar contribuam para que isso aconteça, porque é o que impede o fim da crise."

O secretário de Estado americano ainda afirmou que Assad se recusa a participar de uma discussão séria e a Rússia não ajuda a convencê-lo a negociar para tornar isso possível. Hammond e Kerry enfatizaram que Assad não poderá continuar no poder se houver uma solução duradoura do conflito, mas que o momento mais favorável para a sua saída durante uma transição política na Síria é uma questão a ser negociada.

"Não precisará ser no primeiro dia do primeiro mês", afirmou Kerry. "Há todo um processo pelo qual as partes precisam se reunir e buscar um entendimento para chegar à melhor solução."

O chanceler britânico também defendeu a saída de Assad do poder, mesmo que ela não ocorra de maneira imediata. "Ele não pode fazer parte do futuro da Síria a longo prazo. Mas, de que maneira e em que momento são questões que precisam fazer parte de uma discussão sobre uma solução", disse.

Apesar da preocupação com a presença militar russa na Síria, Kerry disse que o governo Obama é favorável a que as forças russas desempenhem um papel, desde que seu objetivo seja combater o EI, e não apoiar Assad.

"O EI hoje planeja ataques contra o Ocidente", prosseguiu Kerry. "Por isso, se a Rússia pretende dirigir seus esforços contra o EI, ela é bem-vinda."

Kerry e Hammond discutiram também a situação do Iêmen, Líbia e Ucrânia. Na sexta-feira, em Londres, Kerry conversou sobre a crise síria com Abdullah bin Zayed, ministro do Exterior dos Emirados Árabes Unidos. Em seguida, Kerry seguiu a Berlim para discutir a situação da Síria e a crise dos refugiados com o chefe da diplomacia alemã, Frank-Walter Steinmeier.

* Eric Schmitt e Michael R. Gordon são repórteres do The New York Times

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