A presidência ''''2 em 1'''' da Argentina

A vitória de Cristina Fernández de Kirchner na eleição presidencial da Argentina resulta num experimento político que extrapola as fronteiras nacionais: o de "casais governantes". Não é que os Kirchners tenham muita influência global. Mas eles precedem em um ano o duo de poder que os Clintons poderão formar nos Estados Unidos, o que lhes confere uma aura de importância que se estende além da América Latina.Néstor Kirchner, marido de Cristina e atual presidente da Argentina, não queria concorrer ao cargo de novo, apesar de estar legalmente qualificado a isso e da preferência do eleitorado por ele, não por ela. Segundo o círculo próximo de Kirchner, o presidente queria evitar virar um "pato manco" e perder o poder ao fim de um segundo mandato.Aí reside uma possível inspiração para a passagem do cargo para sua mulher. Na Argentina, diferentemente dos EUA, a reeleição é ilimitada, desde que o presidente não exceda dois mandatos consecutivos. Assim, dentro de quatro anos, Cristina poderá pensar da mesma forma e devolver o bastão a Néstor, que, por sua vez se retiraria em quatro anos para evitar tornar-se um "pato manco", e assim por diante."Compre dois pelo preço de um", brincou Bill Clinton sobre casais governantes quando concorreu pela primeira vez à presidência, em 1992. Néstor Kirchner não está brincando. Na verdade, ele se ocupa em organizar um movimento político que estruture seu projeto.Ninguém acredita que um edifício assim possa ser separado do governo, ou que ele vá abster-se de tomar parte das decisões presidenciais de sua mulher. Assim, os argentinos de fato compraram dois pelo preço de um. Eles votaram pela continuidade - o cerne da campanha de Cristina - porque sua situação melhorou muito desde 2001, quando o país estava imerso numa crise econômica e política.O ponto mais importante - e uma diferença-chave em relação aos Clintons - talvez seja que esse experimento começa numa Argentina que enfrenta uma grande vulnerabilidade institucional. Néstor e Cristina estarão lidando com um Parlamento muito enfraquecido: leis aprovadas por legisladores próximos do governo permitem que o presidente "corrija" o orçamento e emita decretos "necessários e urgentes" que substituem leis. Os Kirchners praticarão uma forma de hiperpresidencialismo.Desde 2001, os Kirchners têm governado com uma mentalidade de cerco. Eles construíram uma imagem de autoridade e inflexibilidade moral, e têm se ajudado escolhendo inimigos que são execrados por todos e sem qualquer tipo de poder para agir contra eles (os enfraquecidos militares, por exemplo, ou membros civis da ditadura de 1976-83). Isso veio acompanhado por torrentes de retórica populista e promessas de combater até a morte os mal definidos, mas malignos, interesses econômicos especiais.Enquanto isso, as mudanças estruturais de que a Argentina precisa não foram feitas. A corrupção permanece. O boom econômico causado pelo crescimento da demanda global por commodities - a Argentina é uma grande exportadora de soja, milho, trigo, mel e cítricos, por exemplo - resultou numa virada em relação à agricultura argentina anterior aos Kirchners: os velhos proprietários rurais cederam lugar para operadores com habilidades administrativas.O que os Kirchners fizeram bem foi usar a riqueza conquistada com as exportações para fortalecer a economia e melhorar as condições das classes média e baixa. É um feito significativo. Mas a Argentina continua francamente dependente de commodities e não conseguiu estimular uma atividade econômica baseada na cultura e no engenho de seu povo.Ademais, a manipulação de estatísticas oficiais salienta os problemas de um modelo econômico baseado na desvalorização do peso e na acumulação de reservas. A principal preocupação é a inflação, mas o governo a encobriu e conteve com acordos de preços precários que não durarão muito depois que Cristina assumir.Algumas autoridades alegam que Cristina trará uma nova era, de qualidade institucional superior. Mas o problema de "casais governantes" - na Argentina e, talvez, em todo o mundo - é que nenhuma lei ou Constituição democrática pode prevê-los. É por isso que os Kirchners se apoiarão no segredo. Néstor não manifestará publicamente nenhuma atitude que sugira um governo compartilhado, mas ninguém acredita que ele ficará longe do palco. Qualidade institucional e falta de transparência não são compatíveis. Em geral, a tomada de decisões é confinada a círculos cada vez menores, com um grau de segredo cada vez maior. E, como acontece com seres humanos que só se misturam com parentes próximos, o pool genético político se enfraquece.Entretanto, esse parece ser o estilo operacional que distingue o kirchnerismo, dilacerado entre uma elite nascida e criada na Patagônia, alguns aliados íntimos, e todos os demais. Sua relação com a imprensa é parecida. Eles só falam na mídia estatal e nunca dão entrevistas coletivas.Hiperpresidencialismo, política congênita, e um plano para conservar o poder indefinidamente via uma tecnicalidade legal: tudo isso poderia colocar os Kirchners no mesmo nível que o de "caudilhos vitalícios" que o presidente venezuelano, Hugo Chávez, trouxe de volta ao cenário latino-americano.Se Cristina quiser melhorar a qualidade institucional e os problemas que a economia já está revelando, ela precisará de algo além da força. Precisará, sobretudo, de novas fontes de idéias.TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK*Roberto Guareschi foi secretário de redação do jornal ?Clarín? de Buenos Aires por 13 anos. Atualmente, é escritor e conferencista universitário. Distribuído por Project Syndicate

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