A primavera árabe e a diplomacia americana

Pedido de soberania palestino e os levantes na região podem trazer riscos, como uma convulsão de violência e um aumento do sentimento anti-Israel

É JORNALISTA, STEVEN LEE, MYERS, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, STEVEN LEE, MYERS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2011 | 06h06

Apesar de terem criado novas oportunidades para a diplomacia americana, os levantes populares da primavera árabe também trouxeram para os Estados Unidos alguns desafios - para os quais há possíveis cenários catastróficos - que um dia já foram quase inimagináveis.

E se a busca dos palestinos pelo reconhecimento do seu Estado na ONU, apesar dos apelos americanos em contrário, levar Israel ao Tribunal Penal Internacional, alimentar um ressentimento ainda mais profundo em relação aos EUA ou detonar uma nova convulsão de violência na Cisjordânia e em Gaza?

E se o Egito, emergindo após décadas de governo autocrático do presidente Hosni Mubarak, responder ao sentimento anti-israelense da população e romper o tratado de paz de Camp David, um marco da estabilidade árabe-israelense nas últimas três décadas?

"Estamos enfrentando um despertar árabe que ninguém poderia ter imaginado e poucos teriam previsto poucos anos atrás", disse a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, numa entrevista recente ao New York Times. "E muitas concepções antigas têm sido varridas do mapa."

Outra coisa que pode ser varrida do mapa, ou ao menos significativamente reduzida, é a influência americana na região. A ousada promessa do presidente palestino, Mahmoud Abbas, de que buscará tornar a Palestina um membro pleno da ONU, correspondeu a uma recusa pública de semanas de atividade febril por parte da diplomacia americana, que prosseguiu durante o fim de semana.

Isso parece coroar um momento de rápida e preocupante deterioração nas relações entre Egito e Israel e entre Turquia e Israel, três países que têm sido os principais aliados dos americanos na região e um alicerce da diplomacia americana nas últimas três décadas.

A diplomacia nunca foi fácil no Oriente Médio, mas os eventos recentes tumultuaram a região a tal ponto que os EUA temem ser obrigados a tomar partido numa disputa diplomática ou, pior ainda, num conflito militar entre seus amigos. Os cenários hipotéticos parecem assustadoramente próximos. Como seria se a Turquia, país-membro da Otan e um aliado que os EUA são obrigados por tratado a defender, enviasse navios de guerra para escoltar navios com destino a Gaza num desafio ao embargo israelense, como o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, ameaçou fazer?

Crises como a expulsão do embaixador israelense na Turquia, a invasão da Embaixada de Israel no Cairo e os protestos diante da embaixada em Amã transmitiram uma sensação de urgência e obrigaram o governo Obama a reavaliar algumas das suposições fundamentais dos americanos.

"A região parece estar se fragmentando", disse Robert Malley, analista sênior do International Crisis Group. "E todas as ferramentas às quais os EUA recorreram no passado não são mais eficazes." Os EUA, sendo uma potência global e um membro permanente do Conselho de Segurança, ainda dispõem de significativa habilidade para moldar os acontecimentos na região.

Ao mesmo tempo, a deposição de líderes que preservavam um status quo estável, ainda que precário, durante décadas - Mubarak, Muamar Kadafi, da Líbia, e Zine Abidine Ben Ali, da Tunísia - desencadeou forças poderosas e ainda imprevisíveis com as quais os EUA estão apenas começando a se envolver, um processo que deve durar anos.

Radicalismo. Durante esse período inicial, diplomatas temem que os atos dos EUA possam empurrar a primavera árabe cada vez mais na direção do radicalismo ao irritar os cidadãos que acabam de retomar seus direitos em países democráticos.

No caso do Egito, o governo prometeu milhões de dólares em auxílio para o processo da transição democrática, mas vê-se agora diante das objeções do conselho militar que atualmente governa o país ao modo como tais recursos serão investidos.

Representantes do governo americano, e Hillary em especial, também passaram meses tentando mediar as relações entre Turquia e Israel - depois que uma operação militar israelense resultou na morte de nove passageiros a bordo de um navio que tentava levar ajuda humanitária a Gaza apesar de um embargo israelense -, mas viu ambos os lados endurecerem suas posições depois que um relatório da ONU a respeito do episódio veio a público.

O apoio incondicional a Israel tem sido, é claro, um dos pilares constantes da política externa americana nas últimas décadas, muitas vezes ao custo de apoio político e diplomático em outras partes da região, mas o governo Obama buscou também melhorar seus laços com a Turquia após o período de resfriamento que se seguiu à invasão do Iraque em 2003.

A Turquia, que tem a ambição de ampliar sua influência na região, tem sido para o governo americano um parceiro imperfeito e crucial na resposta internacional aos combates na Líbia e nos esforços diplomáticos para isolar o presidente sírio, Bashar

Assad.

Na entrevista, Hillary expressou a esperança de que os EUA possam apoiar as aspirações democráticas que estão no coração dos levantes da primavera árabe. Mas ela reconheceu também os limites que o governo enfrenta do ponto de vista doméstico, levando-se em consideração a crise orçamentária e os pedidos dos congressistas republicanos para que seja cortado o auxílio a países estrangeiros, especialmente os vistos como hostis a Israel.

O governo, que começa uma temporada eleitoral, enfrentou críticas feitas por todos os lados - por não ter feito o suficiente para apoiar Israel ou por ter apoiado a primavera árabe enquanto se mantinha calado diante da repressão no Bahrein.

Por si só, isso ilustra o quanto a região tornou-se tumultuada e o quanto os EUA tiveram de se esforçar para acompanhar eventos que continuam se desenrolando.

"A situação é de grande fluidez", disse Robert Danin, bolsista sênior do Conselho das Relações Exteriores. "Eles não estão no comando do trem; estão reagindo ao trem, e ninguém sabe para onde esta locomotiva está indo." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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