A Primavera Árabe e os Estados pós-soviéticos

Na Europa Oriental depois de 1989, milhões de pessoas também saíram às ruas para exigir liberdade, soterrando as autocracias entorpecidas que as governavam

É MEMBRO DO CENTER ON INTERNATIONAL COOPERATION , JAMES, TRAUB, FOREIGN POLICY, É MEMBRO DO CENTER ON INTERNATIONAL COOPERATION , JAMES, TRAUB, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2013 | 02h06

Chegamos ao segundo aniversário da Primavera Árabe, mas ninguém está comemorando: as divisões dentro dos países "pós-revolucionários", Tunísia, Egito e Líbia, tornaram-se tão pronunciadas e provocaram tanta turbulência e violência que os presságios nefastos ofuscam quase que totalmente o clima eufórico de 2011. O otimismo nos diz que estamos presenciando os inevitáveis espasmos de nascimento de uma democracia; o pessimismo indica que as cenas festivas de dois anos atrás vão degenerar numa luta sectária e política mais profunda.

Tenho refletido sobre analogias que poderiam servir de orientação sobre o que o futuro nos reserva. A mais óbvia é a Europa Oriental depois de 1989. Ali também milhões de pessoas saíram às ruas para exigir liberdade, soterrando as autocracias entorpecidas que as governavam. Mas as duas situações se assemelham apenas em termos de nascimento: Polônia, Checoslováquia, Alemanha Oriental e outros países tinham uma longa tradição de governos liberais e até mesmo democráticos e rejeitaram o comunismo como uma ideologia estrangeira e desprezível.

Além disso, a Europa Oriental era rica pelos padrões globais. Uma analogia um pouco mais precisa seria com a América Latina nos anos 70 e 80; mas países como Brasil e Argentina se libertaram dos governos militares passando por transições "pactuadas" em que as elites políticas concordaram em ceder seu poder, aplacando as tensões sociais e criando um consenso em torno de um governo democrático.

Larry Diamond, professor de Sociologia e Ciências Políticas da Universidade Stanford, sugeriu-me que a analogia mais oportuna é o espaço pós-soviético, onde uma dezena de novas nações sem nenhuma experiência de governo democrático abandonou um sistema odiado e lutou para criar algo novo. Não é uma comparação particularmente encorajadora. Como o professor destacou em seu livro The Spirit of Democracy, publicado em 2008, "nove desses Estados têm regimes autoritários, ao passo que os outros três - Geórgia, Ucrânia e Moldávia - são "nações intolerantes, cuja democracia é questionável, e instáveis".

Manter um otimismo prudente com relação à Primavera Árabe - se é que ainda podemos usar essa expressão inspiradora - seria reconhecer que sociedades profundamente danificadas por governos autocráticos e o colapso econômico necessitam de uma geração para serem restauradas.

Luz de democracia. Estamos ainda no início. É a minha opinião. Mas a União Soviética passou para a história em 1991 e existe uma luz de democracia no fim do túnel russo. Steven Sestanovich, estudioso de assuntos ligados à Rússia no Council of Foreign Relations, sublinha que a multidão que tomou conta das ruas de Moscou em 1991 era enorme, apaixonada e plenamente convicta de que conseguiria moldar seu futuro, como aquelas da Praça Tahrir. O velho sistema viu-se desacreditado. Mas a ordem democrática criada sob o governo de Boris Yeltsin era muito frágil para controlar as energias desencadeadas pela colossal disputa pelas riquezas quando a Rússia privatizou os recursos que estavam em mãos do Estado. E no vazio que se seguiu um homem forte apareceu, Vladimir Putin.

Os revolucionários do Egito achavam que o presidente Mohamed Morsi seria o seu Putin, consolidando o poder e esmagando a dissidência. Mas é muito mais provável, como observa Sestanovich, que Morsi seja o Yeltsin do Egito, liderando de maneira irresponsável instituições frágeis e um sistema de governo cada vez mais fragmentado.

Resistência. A Rússia de Yeltsin resistiu às demandas de reformas de mercado pelos Estados Unidos e o Fundo Monetário Internacional (FMI); o governo de Morsi passou meses adiando um acordo com o FMI apesar de as reservas em moeda estrangeira terem diminuído e serem suficientes para três meses.

Morsi tem se mostrado incapaz, ou sem desejo, de refrear as odiadas forças de segurança comandadas pelo Ministério do Interior, aprofundando a fúria contra suas táticas políticas despóticas. Devemos lembrar que Yeltsin foi considerado primeiro um tirano e somente mais tarde um homem fraco. A própria posição de Morsi não é segura; ele pode reagir à sua crescente impopularidade tornando-se mais autocrático, o que provocará mais protestos.

Mas o espaço pós-soviético oferece muitos modelos diferentes. A riqueza propiciada pelo petróleo no Casaquistão permite que o governo compre o silêncio, como os Estados do Golfo sempre fizeram. As nações do Báltico integraram-se totalmente no Ocidente, como é a aspiração de muitos tunisianos. Ucrânia e Geórgia, apesar de todos seus problemas, realizaram eleições limpas em que o titular no governo perdeu e admitiu sua derrota. Mas, neste caso, a analogia tropeça. As populações da Ucrânia e da Geórgia e também dos países bálticos, e mais ainda da Europa Oriental, encaravam o Ocidente - e a democracia - como um meio de salvá-las do regime soviético; o nacionalismo as predispôs à democracia mesmo que a experiência histórica não levasse a isso. Muitas pessoas no mundo árabe, pelo contrário, veem no islamismo a salvação do autoritarismo secular.

O nacionalismo não impõe a democracia, mas a identidade religiosa oferece uma ideologia concorrente poderosa para ela, embora as duas não sejam intrinsecamente incompatíveis. Mesmo na Tunísia, que está inserida no Mediterrâneo, os radicais islâmicos, conhecidos como salafistas, tiraram dos trilhos o que parecia ser um esboço de consenso social em torno do constitucionalismo liberal.

Mas ainda há boas razões para termos esperança com relação à Tunísia. E o problema da identidade vai exasperar as sociedades árabes do mesmo modo que a questão da propriedade exasperou os russos. Somente um profundo comprometimento com o pluralismo evitará que um islamismo ressurgente consiga fragmentar esses países.

Meu colega na Foreign Policy Marc Lynch recentemente desafiou acadêmicos e especialistas políticos a explicar o que os Estados Unidos poderiam realmente fazer para fortalecer as forças democráticas no Egito.

A experiência pós-soviética pode fornecer algumas lições neste aspecto. Em primeiro lugar, os Estados Unidos só podem ser um espectador inquieto nos assuntos mais primordiais.

Em Power and Purpose, uma análise da política americana com relação à Rússia após 1991, James Goldgeier e Michael McFal (hoje embaixador em Moscou) concluíram que, apesar dos esforços conjuntos do presidente Bill Clinton, Washington não conseguiu fazer muito para influenciar Yeltsin.

Mesmo se Clinton se mostrasse mais disposto a se manifestar de modo mais contundente contra os deslizes democráticos de Yeltsin, os autores concluíram que os Estados Unidos provavelmente não tinham poder para mudar a política russa. Mas, eles afirmam, "as palavras pesam" e Clinton ficou muito limitado pelo temor de perder Yeltsin como um parceiro nas questões regionais ou globais.

Hoje, o presidente Barack Obama está numa situação muito similar com relação ao Egito e o presidente Morsi.

Não há nada que Obama possa fazer para alterar a provável tendência islâmica da nova Constituição egípcia.

Mas a relutância da Casa Branca em criticar Morsi depois de ele ter assumido um papel muito útil ao intermediar uma trégua entre Israel e o Hezbollah, tornou muito mais fácil para o líder egípcio seguir seus piores impulsos.

Obama parece ter apostado todas suas fichas em Morsi, como Clinton fez com Yeltsin - embora os rivais seculares do líder egípcio pareçam tão fracos que fica fácil compreender a lógica de Obama. O governo Clinton insistiu num pacote gigantesco de US$ 22 bilhões, por intermédio do FMI, para a Rússia, recursos que Moscou imediatamente utilizou de modo inadequado. Isso não ocorrerá com o Egito, que hesita diante das condições impostas pelo FMI. Mas Obama precisa adotar uma política menos centralizada em Morsi.

"Você não procura arrebanhar os vencedores", diz Larry Diamond. "Você defende o processo." E Washington não deve emitir cheques em branco, embora o Egito necessite urgentemente de assistência financeira. A ajuda, no mínimo, deve ser desviada do Exército e direcionada para a reforma do setor de segurança, o que o Congresso vem analisando no momento.

A situação pós-soviética nos lembra que o longo prazo de fato é longo.

Treinamento. Os Estados Unidos, a Europa e atores privados realmente conseguiram influir nos momentos culminantes das revoluções democráticas na Geórgia e na Ucrânia há quase uma década, mas agora eles têm de se envolver no lento e tedioso processo de treinar partidos políticos, promover a sociedade civil, dar orientação e também assistência econômica.

Defender o processo democrático é uma iniciativa que exige paciência.

De certo modo, é muito cedo para desesperar quanto ao caminho a ser seguido pelo Egito ou a Líbia, muito menos a Tunísia. (Pode não ser tão cedo no caso do Iraque). É improvável que algum destes países acabe como a Estônia, ou o Turcomenistão. Mas houve uma tentativa digna na Ucrânia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.