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Gilles Lapouge
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A primavera perde as cores

A Primavera Árabe, que há três anos parecia prenunciar que todo o norte da África finalmente se livraria das tiranias que oprimiam Egito, Tunísia e Líbia talvez até venha a morrer. Na época, a Líbia derrubou o amigo de Nicolas Sarkozy, o sinistro coronel Muamar Kadafi. O Egito expulsou do poder o general Hosni Mubarak e a Tunísia destronou outro aliado da França, Zine al-Abidine Ben Ali, homem sem honra. Era a Primavera Árabe. Uma aurora.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2013 | 02h04

Três anos mais tarde, só há trevas. No Egito, os arremedos de democratas que derrubaram o militar Mubarak foram obrigados a fazer uma segunda revolução, porque os islamistas da Irmandade Muçulmana se infiltraram no poder. Amarga ironia: para rechaçar o perigo islâmico, eles foram obrigados a entregar novamente as chaves do país aos mesmos militares dos quais quiseram se livrar abatendo Mubarak.

Na Líbia, ao regime implacável e farsesco do coronel Kadafi sucedeu a anarquia. O país se fragmentou entre ideologias - democracia, islamismo, fascismo, militarismo, etc - e tribos, pois o poder central encolhera. Evidentemente, os islamistas se aproveitaram desse formidável caos.

Restava a Tunísia. O país tinha uma vantagem: é evoluído, culto, moderado. No final da ocupação francesa, em 1956, teve como primeiro dirigente um homem notável, Habib Bourguiba, que implantou uma bela democracia. Em seguida, infelizmente, foi a vez de Ben Ali, sempre sustentado pelos governos franceses, principalmente perto do seu fim. Esperava-se que a sabedoria prevalecesse.

Sem dúvida, o novo regime estava nas mãos dos islamistas do Ennahda, com o presidente Moncef Marzouki. No entanto, o partido, embora muito próximo da Irmandade Muçulmana, procurou fundar um regime islâmico moderado e compatível com certos princípios da democracia (é claro que não todos, porque não conseguiu repudiar a terrível sharia, a lei islâmica). Não importa. Na época, o poder tunisiano conseguiu se dotar de uma Constituição, o que é um passo importante rumo à democracia.

No entanto, alguns disparos acabam de ensanguentar esse quadro. O deputado da oposição de esquerda, Mohamed Brahmi, foi assassinado na frente de sua casa por indivíduos em motocicletas. Imediatamente, o país se inflamou. Houve manifestações e foi decretada uma greve geral.

Para o povo tunisiano, profundamente ferido, o culpado pelo crime está claramente definido: é o poder atual, são os islamistas do Ennahda. A família do deputado assassinado declarou: "Nós acusamos o Ennahda". Nas passeatas, as pessoas gritavam: "A Tunísia é livre. Desocupem, irmãos muçulmanos!" Em várias cidades, sedes do Ennahda foram saqueadas.

O partido recusa-se a endossar esse erro. O poder reitera que não tem nada a ver com essa abominação. E, sem dúvida, é verdade, porque está bem claro que o crime não beneficia o frágil governo atual. Portanto, podemos supor que o assassinato do deputado de esquerda Mohamed Brahmi pretendia atingir tanto o governo islamista moderado do Ennhada quanto a esquerda tunisiana.

Muito provavelmente, o crime foi encomendado e executado por extremistas que não aceitam as iniciativas razoáveis do Ennhada. Ou, talvez, tenha sido cometido por membros do Ennahda que se sentem traídos pelas concessões feitas à democracia pela facção moderada do partido, atualmente no controle.

Quaisquer que sejam os responsáveis, o resultado é idêntico: a Tunísia, o país mais equilibrado do Magreb, ao lado do Marrocos, está sendo dominada pela violência no momento em que parecia ter se livrado dela.

Lembrando que, não muito longe dali, no Egito, há outro jogo em andamento com as mesmas apostas e os mesmos atores (islamistas, democratas e militares). Concordaremos que a Primavera Árabe que explode em pleno verão tem as cores de um sombrio outono.

 

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS.

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