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Gilles Lapouge
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A Primavera que deu certo

A Tunísia elegeu seu primeiro presidente. E daí? Isso mereceria um artigo? Certamente não. A Tunísia, esse antigo pedaço do império colonial francês que alcançou a independência em 1956, é um minúsculo país do Magreb (norte da África), com meros 11 milhões de habitantes. Tanto melhor que tenha um presidente, mas reservemos nossas emoções e nossas análises para países maiores (Argélia ou África do Sul) ou mais dramáticos (Egito, Sudão, Líbia, etc.).

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2014 | 03h40

Nada disso. Essa eleição na Tunísia é, ao contrário do que parece, um acontecimento de grande importância. Recordando: em dezembro de 2010, numa cidadezinha tunisiana, um desempregado desesperado se imolou. Isso desencadeou uma revolta que em poucas horas varreu o pequeno país até sua capital, Túnis. Milhares de estudantes, operários e desempregados gritaram contra o ditador Ben Ali e o derrubaram.

Foi o estopim das Primaveras Árabes. A democracia contagiou os países vizinhos e tiranos caíram como peras maduras, Kadafi na Líbia, Mubarak no Egito. Na Síria, não demorou para multidões se cansarem do ditador Bashar Assad. Durante algumas estações, o mundo extasiado acreditou que a África, livre de seus carcereiros, ia reencontrar suas belas cores e seus perfumes. Mas as primaveras foram uma a uma escurecendo e chegou o tempo dos "invernos árabes".

No Egito, o marechal Abdel Fatah al-Sissi é mais repressivo do que foi Hosni Mubarak. Na Síria, Bashar Assad resiste aos revoltosos, os massacra, espanca, bombardeia, mutila e enterra. O pior caso é o da Líbia. Ali, a França e a Otan voaram em socorro dos democratas. Mataram tolamente Kadafi, depois do que o país mergulhou no caos e ficou com um veleiro desaparelhado. Seus guerreiros desesperados, seus estoques de canhões e de tanques agora nutrem a jihad que também gangrena o Mali e a África negra.

Eis porque a eleição na Tunísia é importante: as demais primaveras resultaram em catástrofes. Há até quem lamente a queda ou a morte do ditador líbio Kadafi. Somente a fraca Tunísia faz jus à soberba primavera de 2010. Seu povo não renegou nada de seus fervores, de suas urgências. No domingo, os tunisianos votaram livremente, como ingleses, e se dotaram de seu primeiro presidente eleito.

Milagre: o presidente tem uma boa cabeça. Ele não parece um tirano, um general ou um louco. Chama-se Beji Caid Essebsi. Em junho de 2012, criou um partido, Nidaa Tounes, reagrupando os opositores aos islamistas. Mas em vez de massacrar cegamente os islamistas como fez al-Sissi no Egito, o tunisiano Essebsi tratou de superá-los pelo combate político.

Ganhará sua aposta? O novo presidente tunisiano tem um grande problema: ele é idoso, muito idoso para assumir o cargo. Tem 88 anos. Talvez esse problema seja um trunfo, porque ele terá de se cercar de amigos engenhosos para percorrer um frágil caminho entre os fanatismos. Perto de sua fronteira, na Líbia sobretudo, vociferam "loucos de Deus" armados até os dentes com os estoques de armas ultramodernas que França e Otan colocaram à disposição dos "matadores" que estupidamente assassinaram o líbio Kadafi.

O Ocidente assumirá sua responsabilidade? A economia líbia está em frangalhos. É preciso salvar o país da falência, reanimar seu comércio e sua indústria turística se não quisermos que a Tunísia seja, dos países que acreditaram na primavera, o único a honrar seu sonho. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É correspondente em Paris

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