A primeira-dama intocável da França

Há três meses os franceses se perguntavam, meio inquietos, meio zombeteiros, qual era o status de Cecília, a mulher do presidente francês, Nicolas Sarkozy. A resposta foi finalmente concedida pelo Palácio do Eliseu. O status de Cecília é claro: ela é "intocável." Esse esclarecimento foi feito porque os socialistas desejavam ouvir Cecília na Comissão de Investigação formada para elucidar o que realmente se passou em Trípoli em meados de julho, quando ela foi à capital da Líbia para obter do ditador líbio, Muamar Kadafi, a libertação de cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestino presos havia sete anos, sob o pretexto demente de que eles haviam inoculado o vírus HIV em crianças líbias. Cecília encontrou-se com Kadafi e, dois dias depois, as celas líbias se abriam. As enfermeiras e o médico foram arrancados do inferno. O mundo inteiro comemorou. Em sua primeira e única missão, Cecília havia assinado uma obra-prima. Nos dias que se seguiram, ficou-se sabendo que essa libertação fora conseguida em troca de gordos contratos entre a França e a Líbia, alguns um pouco bizarros: um deles prevê o fornecimento de uma central nuclear civil a Trípoli e outro envolve um enorme negócio de armas. Era para esclarecer essas contrapartidas exigidas por Kadafi que o Parlamento francês desejava ouvir a atriz mais espetacular desse milagre. A resposta do Palácio do Eliseu, no entanto, foi categórica: "Não. Cecília não comparecerá à comissão de investigação." Segundo o Eliseu, Cecília está casada com o presidente, é verdade, mas não tem status, não tem função, não tem obrigação. Somando-se a isso, Sarkozy repreende os jornais que publicam fotos de Cecília. É de se admitir que o status da primeira-dama seja misterioso. Suas atitudes públicas são igualmente obscuras. Não se sabe se ela mora no Eliseu ou em outro lugar.Ela odeia os incômodos do protocolo. É raro ela encontrar no Eliseu os hóspedes ilustres que ali se sucedem. Quando o presidente dos EUA, George W. Bush, a convidou para um churrasco perto de Boston, ela se fez de doente: "Desculpe-me, estou com uma inflamação na garganta!" Mas na véspera e no dia seguinte ao naufrágio do churrasco, ela foi vista fazendo compras. Os franceses contemplam esse fenômeno com os olhos arregalados. Ser a "primeira-dama da França" e não tirar disso nem prazer, nem glória, nem obrigação, é inédito. Não é antipático. Cecília tem uma personalidade muito forte. Ela está pouco se lixando para os tetos dourados. Ela ama sua liberdade absoluta e isso é muito bom, mas então, por que se casou com um homem político desse gênero? * Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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