A primeira escorregada de Obama

Duas marés varreram a política americana no início deste ano. A primeira foi a maré Obama. Barack Obama assumiu o cargo com um impressionante índice de aprovação de 70%. A segunda foi a maré independente. No início do ano, o número de pessoas que se diziam democratas ou republicanas declinou, enquanto crescia o número das que se diziam independentes.

David Brooks*, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

O desafio de Obama era implementar sua agenda por meio de um governo controlado por democratas enquanto conservava a afeição dos 39% de americanos no meio.

A administração não foi capaz de levar isso a cabo. Do plano de estímulo à reforma do sistema de saúde, ela se uniu à liderança liberal no Congresso. A Casa Branca não conseguiu vetar medidas, como a lei de gastos generalizados para fins eleitoreiros, o que teria demonstrado independência e moderação fiscal. Por força das circunstâncias e por projeto, Obama promoveu política depois de política aumentando gastos e centralizando poder em Washington.

O resultado disso é sua queda de popularidade, a característica mais marcante do atual momento. O número de americanos que confia que Obama tomará as decisões acertadas caiu para cerca de 50%. Todos os presidentes caem depois dos picos obtidos na lua de mel, mas na história das sondagens de opinião, nenhum líder eleito recentemente caiu esse tanto com essa rapidez.

A ansiedade é generalizada agora. A confiança no governo cresceu quando Obama assumiu o cargo. Ela caiu para pontos historicamente baixos - 59% dos americanos acham agora que o país está sendo conduzido na direção errada. A visão que o público tem do Congresso, que melhorou por algum tempo, despencou. Charlie Cook, que conhece como ninguém as eleições parlamentares, escreveu recentemente que o destino democrata "tinha ficado completamente fora de controle". Ele e os especialistas que consultou acreditam que há as mesmas chances de os democratas perderem mais de 20 cadeiras na Câmara nas próximas eleições, que menos de 20.

Há sinais de alerta também no Senado. Uma sondagem de opinião recente mostra Harry Reid, o líder da maioria, atrás do republicano Danny Tarkanian, um possível adversário em 2010.

O público se irritou com propostas políticas de Obama. Os eleitores muitas vezes têm um senso apenas confuso do que cada proposta individual realmente significa, mas cada vez mais pessoas têm uma convicção crescente de que se o presidente a está propondo, ela deve envolver gastos grandes, governo grande e um afastamento fundamental da atitude americana tradicional. Movida por essa ansiedade geral, a oposição pública à reforma do sistema de saúde agora está firme.

Os independentes antes apoiavam solidamente a reforma. Agora eles oscilaram para o outro lado, contra ela. Como assinalou um veterano especialista em pesquisas de opinião, Bill McInturff, as atitudes públicas a respeito do "Obamacare" batem exatamente com as atitudes públicas a respeito do "Clintoncare" quando esse esforço de reforma ruiu em 1994.

O espantoso é que alguns liberais agora estão malhando Obama porque o país inteiro não concorda com The Huffington Post. Hoje, alguns argumentam que a administração devia simplesmente ignorar as massas ignorantes e empurrar a reforma da saúde usando a conciliação, uma manobra legislativa que reduziria a necessidade de votos moderados.

Isso seria um suicídio. Não se pode aprovar a mais importante reforma doméstica em uma geração quando a maioria dos eleitores acha que se está no caminho errado. Fazer isso seria um sinal de arrogância. Se Obama aceitar a conciliação, ele se amarrará à ala liberal e alienará os independentes.

A segunda resposta liberal foi atacar o diretor de orçamento, Peter Orszag. Foi um erro colocar o controle de custo no centro do trabalho de vender a reforma da saúde. Obama não deveria se preocupar com o déficit. Somente com aprovar as partes sobre os gastos. Mas moderação fiscal é a questão que está mobilizando hoje os moderados. Pegar uma dívida de US$ 9 trilhões e inchá-la ainda mais seria enfurecer uma parte gigantesca do eleitorado.

Este é um país que sempre suspeitou de um governo centralizado. Este é um país que acaba de passar por um trauma econômico causado por excesso de gastos. A maioria dos americanos ainda admira Obama e quer que ele seja bem-sucedido. Mas se ele não avançar de maneira consistente com o espírito da nação e dos tempos, os eleitores encontrarão uma maneira de pará-lo.

O desafio do presidente agora é interromper a queda da popularidade. Isso não significa desistir de seus objetivos. Significa que ele precisa alinhar suas propostas aos valores do centro político: responsabilidade fiscal, escolha individual e autoridade descentralizada.

Os fatos empurraram Barack Obama para a esquerda. É tempo de ele se reequilibrar.

* David Brooks é analista político

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