A prisão zumbi dos Estados Unidos

Guantánamo, onde o governo americano gasta milhões em ampliações, é mais cruel que Alcatraz, fechada por ser brutal demais para abrigar a escória

É ATIVISTA POLÍTICA, CRÍTICA SOCIAL, NAOMI, WOLF, PROJECT SYNDICATE, É ATIVISTA POLÍTICA, CRÍTICA SOCIAL, NAOMI, WOLF, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2013 | 02h09

Por que ampliar uma coisa que supostamente não deveria existir? Essa coisa em questão é a prisão dos EUA na Baía de Guantánamo, para a qual o Pentágono pediu US$ 49 milhões de financiamento extra. Apesar da promessa de Barack Obama em 2009 - uma de suas primeiras como presidente - de fechar Guantánamo, os EUA evidentemente não têm a menor intenção de fazê-lo tão cedo. Aliás, a única coisa com respeito a Guantánamo que o governo Obama fechou foi o escritório do enviado especial, Daniel Fried, que era o encarregado do fechamento da prisão. O Departamento de Estado americano transferiu Fried no fim de janeiro e ele não será substituído.

Que melhor maneira de imortalizar essa decisão do que com um boom de construção na prisão? A nova instalação para a qual dinheiro está reservado abrigará 106 prisioneiros que não foram julgados nem acusados. Oito prisioneiros estão entrando no segundo mês de uma greve de fome.

Segundo o porta-voz do Comando Sul, que supervisiona a prisão, os grevistas estão desiludidos porque acreditaram na promessa de Obama de fechar a prisão. Aliás, eles estão legalmente autorizados a sair e só são mantidos ali porque Obama não conseguiu cumprir sua promessa e o Congresso americano não conseguiu legislar sua transferência. Por isso, eles agora sentem que a única maneira de chamar a atenção mundial é fazer "alguma coisa drástica".

Uma razão por que o Pentágono precisa construir uma nova e cara instalação tem a ver com o papel de empresas privadas na condução da política de detenção. Em Guantánamo, fornecedores corporativos comandam o espetáculo. Eles compartilham a sinalização com as unidades militares, têm alojamentos melhores que os do pessoal militar, tocam os serviços de alimentação e importam trabalhadores do Sudeste Asiático para construir a gigantesca infraestrutura que era nova quando visitei o local em 2009 (colocando em dúvida a "deterioração" citada para justificar a mais recente infusão de caixa).

Empreiteiros também comandam a instalação do tribunal militar e até estabelecem políticas - decidindo, por exemplo, o que pode ser dito à imprensa. Com base em algumas disputas que testemunhei, os fornecedores pareciam ter patente maior que os soldados.

Os vastos e, em geral, não documentados lucros que fluem para essas empresas explicam em grande parte por que instalações como Guantánamo - e prisões privadamente operadas nos próprios EUA - nunca fecham. A transferência de dinheiro público para empresas privadas é bem mais atraente do que o velho capitalismo de mercado.

Visitei recentemente Alcatraz, a antiga prisão federal americana na Baía de San Francisco. Como Guantánamo, Alcatraz foi criada, nos anos 30, para abrigar o que era então "o pior do pior", os terroristas muçulmanos (ou acusados de terrorismo) de sua época. Assassinos em massa e gângsteres - entre os quais, por exemplo, Al Capone - eram encarcerados ali.

Alcatraz foi fechada há 50 anos, em 1963, em razão de sua percebida desumanidade, e os presos foram transferidos para outros lugares. Mesmo assim, fiquei espantada com o quanto mais humanos eram a instalação e o regime em Alcatraz, se comparados com os de Guantánamo. Para começar, a punição para os presos de Alcatraz que quebravam regras ou eram violentos era serem colocados no Bloco D, onde as celas não tinham janelas. Em Guantánamo, todas as celas que mostram aos jornalistas não têm janelas nem luz natural. O confinamento solitário no Bloco D era a punição mais dura e nunca foi usada por mais de 48 horas de cada vez.

Em Guantánamo - e outras instalações prisionais americanas, os presos são colocados em confinamento solitário por dias ou semanas de cada vez, o que pode causar psicoses.

Em Alcatraz os presos tinham acesso a uma biblioteca bem sortida, visitas íntimas mensais e entrega de correspondência. Em Guantánamo, contrariando as normas da Cruz Vermelha, os presos não podem receber visitas nem correspondência de parentes, sua leitura é dramaticamente reduzida e os noticiários, censurados. Eles nem sequer são notificados da morte de seus pais ou filhos.

Os presos de Alcatraz também dispunham de uma privacidade básica. Eles eram obrigados a se despir ao entrar, mas depois usavam roupas e tomavam banhos de chuveiro em grupos do mesmo sexo vigiados por guardas homens. Os presos em Guantánamo, por sua vez, têm de tomar banho em boxes com chuveiro individuais que são instalados nos corredores principais com frente de vidro, o que os deixa completamente nus sob as vistas de guardas mulheres.

E, claro, os presos em Alcatraz haviam sido julgados por um tribunal regular, defendidos por advogados cujas comunicações com eles eram privilegiadas. Os homens em Guantánamo nunca foram julgados, a comunicação com seus advogados é monitorada e os defensores não podem nem sequer relatar a jornalistas ou tribunais o que foi feito com seus clientes para extrair confissões, porque - numa manobra digna de Franz Kafka - os métodos de investigação, que os detidos alegam que incluem a tortura, são classificados como sigilosos.

Os oito grevistas de fome estão sendo alimentados por tubos introduzidos em seus estômagos. Esse é um processo brutal - os homens são amarrados em cadeiras de contenção duas vezes por dia e alimentados à força, numa instalação que eu testemunhei. Durante minha visita, em 2009, um grevista de fome iemenita, Mohammad Saleh, morreu. Como no caso de todos os grevistas de fome que morreram em Guantánamo, os militares americanos decretaram que a morte foi suicídio.

É possível que algum dia, talvez, turistas visitem Guantánamo e vejam com horror e espanto o que os EUA construíram. Até lá, os americanos precisam se perguntar o que endureceu na consciência nacional entre 1963 e hoje. Como explicar que uma prisão brutal demais para gângsteres, inadequada para abrigar o pior do pior, era mais humana que um lugar onde os americanos gastam milhões para ampliar? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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