A promessa dos radicais de Alepo

Os movimentos islamistas estão divididos e se os EUA quiserem repelir Bashar Assad e o Isil terão de ser menos exigentes com seus parceiros na Síria

MATTHIEU, AIKINS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2014 | 02h02

Quando o combatente rebelde dirigiu a luz de sua lanterna para um monte de cobertores e roupas espalhados pelo piso do subterrâneo de concreto, me perguntei se meu amigo Sultan teria passado ali os últimos instantes de sua vida. Um rapagão de 22 anos, com falhas nos dentes, que trabalhava para um faz-tudo local, ele integrava um grupo de ativistas sírios, jornalistas e combatentes rebeldes, que foi preso pelo Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês) e levado para esta espécie de prisão no porão de um antigo hospital.

A construção foi o abrigo do grupo extremista sunita em Alepo, a maior cidade da Síria, mas agora os corredores escuros estavam desertos. Pelas escadas, encontramos um longo cabo de fios de cobre presos com fita adesiva.

Um dos rebeldes o pegou e fingiu usá-lo como chicote - ex-prisioneiros reclusos aqui relataram ter sido torturados. Mais embaixo havia um cômodo que servira de lanchonete, com dizeres em inglês que confirmavam a presença de jihadistas estrangeiros nas fileiras do Isil. "Teme Alá! Lembra que ele te olha, por favor não desperdice comida e limpa após comer", diz um aviso. Outro aconselha "os irmãos que querem receber suas famílias do exterior" a consultar o "Escritório de Serviços dos Mujahedeen".

Al-Qaeda. O Isil começou como afiliada iraquiana da Al-Qaeda, mas a abandonou no início do ano em razão de suas ambições de expandir-se na Síria e tornar-se um novo califado. Após sua impressionante tomada de grande parte do Iraque ocidental, no mês passado, agora, ele se denomina apenas Estado Islâmico.

Mas o Isil saiu de Alepo em janeiro, obrigado por rebeldes sírios. Essa reviravolta militar, uma das poucas sofridas pelo grupo, enfatiza o dilema com que se defronta o Ocidente: seus maiores aliados em potencial contra o Isil são outros islamistas sunitas.

Os combatentes que me acompanharam durante visita de uma semana a Alepo, em meados de junho, eram membros da Frente Islâmica, coalizão rebelde de presença predominante na cidade e em grande parte do norte da Síria. A Frente Islâmica é um adversário feroz e eficiente do Isil, mas sua plataforma islamista e suas ligações indiretas com a Al-Qaeda nada têm a ver com "os veteranos da moderada oposição síria armada", para a qual, recentemente, o governo Barack Obama solicitou ao Congresso americano US$ 500 milhões em treinamento militar e recursos.

A sede abandonada pelo Isil em Alepo fica exatamente em frente a outro grande edifício que serve de base para a Brigada Tawhid, um dos maiores dos sete grupos rebeldes que se uniram em novembro formando a Frente Islâmica. O Isil esteve presente em Alepo quando a cidade estava em poder da oposição desde o início de 2013, mas por volta do fim do ano as tensões com grupos rebeldes chegaram ao ápice. Considerando-se um Estado soberano, o Isil se recusou a aceitar uma mediação para as disputas e passou a sequestrar pessoas que considerava críticas ou inimigas, até mesmo quem trabalhasse para jornalistas estrangeiros, como Sultan.

Em 7 de janeiro, o Isil atacou de surpresa a sede da Brigada Tawhid. Encontrou resistência. No dia seguinte, forças da brigada arregimentadas dos arredores da cidade contra-atacaram e cercaram o hospital. "Nós as seguramos e impedimos que recebessem qualquer tipo de suporte", afirmou o comandante que liderou a ofensiva e cujo nome de guerra é Abu Assad.

Por volta das 3 horas, os combatentes do Isil presos no interior do hospital pediram autorização para deixar a cidade e Abu Assad concordou, por não querer um novo derramamento de sangue. Quando ele e seus homens fizeram uma busca no hospital com as primeiras luzes do dia, descobriram que o Isil havia massacrado seus presos.

"Encontramos um grupo de corpos a cada dez metros", disse Abu Assad. Na maior parte, pessoas executadas com um tiro na cabeça ainda amarradas. "Eles eram verdadeiros revolucionários, jornalistas, médicos. Se soubéssemos das intenções do Isil, não teríamos permitido que seus membros escapassem com vida", acrescentou.

Não muito tempo depois da batalha, do outro lado do globo, assisti a algumas gravações feitas pelos rebeldes colocadas no YouTube. Reconheci Sultan no meio dos corpos.

A batalha contra o Isil em Alepo se inscreve num conflito maior que começou no início do ano, quando grupos rebeldes das províncias de Idlib e Alepo - até mesmo a poderosa afiliada síria da Al-Qaeda, a Frente al-Nusra - travaram uma intensa batalha para expulsar o Isil. A Frente Islâmica saiu do confronto fortalecida. Ela controla o posto mais importante da fronteira com a Turquia em Azas e, com seus cerca de 50 mil a 60 mil combatentes, acredita-se que seja a maior aliança rebelde, a mais poderosa em termos militares, de toda a Síria.

Deposição. A liderança da Frente Islâmica é inteiramente síria e seu objetivo central é derrubar o presidente Bashar Assad - boas credenciais aos olhos dos governos ocidentais que esperam fazer retroceder o Isil sem fortalecer o regime sírio. Muitos dos membros mais poderosos do grupo - como a Brigada Tawhid e uma das maiores facções que lutam nos subúrbios de Damasco, a Jaish al-Islam - não são particularmente ideológicas, e antes eram aliadas do Exército Sírio Livre, apoiado pelo Ocidente.

Mas estão longe de ser seculares. A Frente Islâmica recebe ajuda das redes de resistência islamistas anteriores à guerra, até mesmo de doadores ricos, religiosos em todo o mundo muçulmano e da Irmandade Muçulmana Síria, um grupo islamista exilado. Mais problemático do ponto de vista ocidental é o fato de um dos principais integrantes da coalizão, o Ahrar al-Sham, estar vinculado à liderança da Al-Qaeda e, além disso, a Frente Islâmica como um todo coordena rigorosamente as operações com a Frente al-Nusra.

Os comandantes com os quais falei em Alepo disseram que, consequentemente, a Frente Islâmica não recebeu diretamente nenhuma ajuda militar de Washington ou de outros governos ocidentais. Mas será que o Ocidente conseguirá influenciar de maneira significativa a situação militar na Síria se continuar rejeitando os grupos islamistas, agora que eles predominam entre os rebeldes?

"O Exército Sírio Livre era fraco e dividido", disse Richard Barrett, ex-funcionário da inteligência britânica. "E, portanto, a Frente Islâmica é realmente a única coisa que resta se quiserem atacar o Isil na Síria", acrescentou.

Os comandantes rebeldes em Alepo desdenharam os grupos supostamente "seculares" do Exército Sírio Livre vinculados ao governo no exílio, que recebem ajuda do Ocidente. "São como ONGs. Sabem como dizer o que o doador quer ouvir", afirmou Abu Bilal, chefe de operações da Brigada Tawhid. "Na realidade, são contrabandistas de diesel que controlam uma parte da fronteira. Eles não empreendem nenhum combate sério."

Se Washington e seus parceiros quiserem repelir Bashar Assad e o Isil de uma vez, terão de ser menos exigentes na escolha de parceiros na Síria. Do contrário, talvez não encontrem mais nenhum. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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