REUTERS/Dado Ruvic
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Artigo: A promessa não cumprida de ‘Srebrenica nunca mais’

Massacre de 1995 na Bósnia dá indícios do que ainda pode ocorrer na Síria; recusa russa em admitir genocídio parece familiar

Rick Noack* / The Washington Post , O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2016 | 05h00

Os representantes da Rússia e dos Estados Unidos jamais recuaram. Para a Rússia, a resolução considerando genocídio a matança de milhares de civis foi “motivada politicamente”. Para Samantha Power, embaixadora americana na ONU, a recusa russa em aceitar a resolução foi “loucura”.

Mas essas considerações não são parte de um debate sobre a Síria e a matança em Alepo. Elas foram manchete um ano atrás, quando o mundo recordou o 20.º aniversário do massacre de Srebrenica, no qual 8 mil muçulmanos bósnios foram mortos por servo-bósnios, numa matança que começou em 11 de julho de 1995.

A insistente recusa russa em reconhecer como genocídio o massacre de Srebrenica pareceu assustadoramente familiar para alguns ontem, após a notícia de que mais de 80 civis foram mortos por forças pró-Assad apoiadas pela Rússia em Alepo. Andrew Mitchell, parlamentar do Partido Conservador do Reino Unido, assinalou que, após a matança na Bósnia, houve promessas de que não se permitiria nunca mais que algo semelhante ocorresse. Apesar disso, “estamos testemunhando hoje, até com cumplicidade, o que vem ocorrendo a dezenas de milhares de sírios”.

Embora as comparações entre Srebrenica e Alepo sejam feitas pelos próprios sobreviventes do massacre da Bósnia, especialistas apontam uma diferença fundamental entre os dois eventos: “As notícias do massacre de Srebrenica chegavam aos poucos”, diz Cameron Hudson, diretor do Centro Simon-Skjodt para Prevenção do Genocídio. “Mas, com a internet e a mídia social, vemos em tempo real o que está acontecendo em Alepo.”

Srebrenica, de todo modo, dá alguns indícios do que pode ainda ocorrer na Síria: uma hostilidade de décadas e a recusa em aceitar responsabilidades. Apesar de novas evidências surgindo a cada ano, a negação da Sérvia sobre a amplitude do massacre está aumentando.

Os fatos ocorridos em Srebrenica são difíceis de negar. O massacre – descrito pelo ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan como o pior crime na Europa desde a 2.ª Guerra e classificado como genocídio pelo Tribunal Penal Especial para a ex-Iugoslávia – é bem documentado. As tensões locais persistem. 

Quando o primeiro-ministro da Sérvia visitou o memorial do massacre no ano passado, foi hostilizado por uma multidão furiosa. Teorias da conspiração questionando a responsabilidade da Sérvia na matança ainda circulam no país. E o Judiciário sérvio continua lutando para reconciliar antigos grupos étnicos e processar os envolvidos. Líderes sérvios veem o foco no massacre de 1995 como o principal obstáculo à reconciliação na região – apesar das discordâncias entre especialistas.

“Fazer justiça após atrocidades em massa e genocídio é fundamental por várias razões”, diz o especialista Cameron Hudson. “O processo não apenas ajuda a cicatrizar feridas e encerrar o caso para vítimas e parentes, mas também desestimula futuros crimes semelhantes em qualquer lugar do mundo.”

O caso de Srebrenica também traz à luz o lento funcionamento da Justiça. Até poucos meses, apenas 14 pessoas haviam sido condenadas por envolvimento no massacre. Radovan Karadzic, ex-líder político servo-bósnio e comandante de forças militares, foi condenado a 40 anos de prisão em março. Mas Karadzic e outros são considerados heróis por muito sérvios, apesar da comprovação de seus crimes.

Todos os processados foram acusados por um tribunal internacional. O governo nacionalista sérvio vem sendo acusado de atrasar deliberadamente julgamentos na Sérvia e tentar atrasar o funcionamento do tribunal da ONU. “Não há um único aspecto (nos julgamentos de crimes de guerra) que não enfrente sérios problemas”, disse recentemente Milica Kostic, do Humanitarian Law Center.

Na terça-feira, outro julgamento sérvio decisivo foi adiado. O processo de oito ex-policiais acusados de matar centenas de pessoas é considerado um teste no empenho do país em fazer justiça. Parentes das vítimas condenaram o fato de os oito acusados, que são servo-bósnios, ainda estarem em liberdade.

Mais de duas décadas após o massacre, o povo de Srebrenica ainda busca justiça – e vê fatos semelhantes ocorrerem em outros lugares. Falando ao Washington Post, em 2012, Emir Suljagic, sobrevivente de Srebrenica, afirmou: “É óbvio que vivemos num mundo em que outras Srebrenicas são possíveis. O que acontece hoje na Síria é quase idêntico ao que ocorreu na Bósnia.” Desde a entrevista de Suljagic, pelo menos 300 mil pessoas morreram no conflito da Síria, segundo estimativas da ONU. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É JORNALISTA

 

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