À prova de satélites e agentes espiões

Bastidores: Mark Landler,

SÃO JORNALISTAS DO NYT , O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2011 | 03h06

Choe Sang-hun e David Sanger

Kim Jong-il morreu num trem na manhã de sábado, às oito e meia, em seu país (21h30 de sexta-feira em Brasília). Quarenta e oito horas mais tarde, a Coreia do Sul ainda ignorava o fato - e Washington mais ainda, onde o Departamento de Estado reconheceu a veracidade das "versões de imprensa" sobre a morte do líder muito depois de a mídia estatal norte-coreana tê-la anunciado.

A incapacidade dos serviços de informações e espionagem de Coreia do Sul e EUA na detecção de indícios deste importantíssimo acontecimento - telefonemas trocados entre apavorados funcionários do regime, por exemplo, ou um deslocamento de soldados em torno do trem de Kim - é prova da natureza sigilosa da Coreia do Norte, país que se mantém tão hermético a ponto de frustrar satélites e espiões.

Os serviços de informações da Ásia e dos EUA já tinham fracassado em detectar avanços significativos na situação norte-coreana. Pyongyang construiu uma imensa instalação de enriquecimento de urânio que permaneceu em segredo por cerca de um ano e meio, até ser mostrada por representantes norte-coreanos a um cientista nuclear americano. Eles também ajudaram na construção de um reator nuclear completo na Síria sem atrair a atenção da espionagem ocidental.

Enquanto os EUA e seus aliados se veem diante de uma perigosa transição na liderança norte-coreana - um Estado falido dono de armas nucleares -, a natureza fechada do país deve complicar muito os cálculos estratégicos. Com poucas informações sobre o sucessor Kim Jong-un e uma ideia ainda menor das intrigas palacianas em Pyongyang, boa parte das respostas tem como base meros palpites.

"Temos planos claros quanto ao que deve ser feito se a Coreia do Norte atacar, mas não saberemos o que fazer se o regime cair", disse Michael J. Green, ex-conselheiro do governo de George W. Bush para a Ásia. "Sempre que analisamos os possíveis cenários, um dos primeiros objetivos é tentar descobrir o que ocorre dentro da Coreia do Norte." No caso de muitos países, isso envolveria a interceptação de telefonemas entre oficiais do alto comando ou a observação por meio de satélites espiões. Aeronaves espiãs e satélites americanos vasculham o país. Antenas de alta sensibilidade posicionadas na fronteira entre norte e sul interceptam sinais eletrônicos. Funcionários do serviço sul-coreano de informações entrevistam milhares de norte-coreanos que desertam para o sul todos os anos.

E, ainda assim, é notável que se saiba tão pouco a respeito do funcionamento do governo norte-coreano. Os serviços de espionagem dizem que Pyongyang mantém as informações sigilosas num círculo muito restrito de funcionários do alto escalão - que simplesmente não falam.

"Trata-se de uma sociedade que depende de um alto grau de opacidade", disse Christopher R. Hill, ex-enviado especial que negociou com o norte a questão do programa nuclear. "A questão é muito complexa. Para compreender a estrutura de liderança, é preciso conhecer a cultura coreana e o seu entendimento dos princípios de Confúcio." Na segunda-feira, funcionários do alto escalão americano reconheceram que não havia muito mais a fazer senão observar, acompanhando o drama no norte e torcendo para que este não leve a um ato de agressão contra a Coreia do Sul. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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