A próxima geração de um conflito

Os jovens israelenses estão se tornando maisconservadores e os palestinos, desapontados

Jeff MOskowitz, The Atlantic/O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2014 | 02h01

Nas últimas semanas, os elementos desgraçadamente banais da violência palestino-israelense incluíram táticas mais incomuns: sequestros e assassinatos, notáveis não só por sua perversidade, mas também pela juventude das vítimas e dos que os cometeram.

Gilad Shaar, Eyal Yifrach e Naftali Fraenkel, os três adolescentes judeus que foram sequestrados e assassinados há três semanas depois de pegarem uma carona na Cisjordânia, tinham entre 16 e 19 anos. Muhammad Abu Khdeir, o garoto palestino capturado do lado de fora de sua casa duas semanas atrás e queimado vivo numa floresta de Jerusalém, tinha 16. Os judeus suspeitos de envolvimento na morte Abu Khdeir teriam, conforme se publicou, 16 e 25 anos. Os principais suspeitos da morte dos adolescentes de Israel têm 29 e 32 anos.

Líderes israelenses e palestinos denunciaram os assassinatos. Mas com adolescentes judeus marchando por Jerusalém e clamando vingança e adolescentes palestinos se manifestando em povoados da Faixa de Gaza, as condenações até agora pareceram inócuas. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, tem hoje 79 anos. Netanyahu tem 64. Cada um passou quase uma década no poder (os mandatos de Netanyahu não foram consecutivos).

Há um limite para o tempo que eles conseguirão manter o controle sobre suas populações jovens e cada vez mais insatisfeitas. A idade média em Israel é 29,9 anos. Na Cisjordânia, 22,1 e em Gaza, 18,2.

Nos próximos anos e décadas, como será que os amigos e colegas de classe de Naftali Fraenkel e Muhammad Abu Khdeir exercerão a liderança? Os amigos de Fraenkel poderão ser mais conservadores do que a atual geração de líderes israelenses, enquanto os de Abu Khdeir poderão desprezar totalmente a política partidária palestina. O resultado mais perigoso talvez seja que muitos de ambos os lados poderão passar suas vidas inteiras sem dizer uma palavra uns aos outros.

Do lado israelense, os jovens de hoje são mais de direita do que seus pais e avós. A direita israelense cobre o espectro político do Partido Likud, de Netanyahu, o núcleo da atual coalizão governista, ao Israel Beiteinu, favorável aos assentados. Estes partidos geralmente tomam uma posição mais firme em questões de segurança, como sobre os foguetes disparados de Gaza e o programa nuclear iraniano, e são mais desconfiados sobre o processo de paz e as intenções palestinas.

Uma pesquisa realizada em maio revelou que 58% dos israelenses com menos de 35 anos descreveram sua filiação política como de "direita", ante 50% dos israelenses de 35 a 49 anos. Os israelenses com menos de 35 também se mostraram mais propensos a dizer que o país está seguindo na direção errada e concordaram com a declaração "a maioria do mundo ocidental está contra Israel".

A juventude de Israel é principalmente favorável a uma solução de dois Estados para os israelenses e palestinos, mas profundamente cética de que tal acordo de paz seja alcançado. Segundo uma pesquisa realizada no ano passado, 57% dos israelenses jovens ainda desejam uma solução de dois Estados, mas somente 25% a consideram factível (ante 41% da geração mais velha).

Idan Maor, o presidente de 25 anos da União dos Estudantes da Universidade Hebraica de Givat Ram, atribuiu essas diferenças entre gerações à situação de segurança em que os israelenses jovens cresceram, e em seu desencanto com o processo de paz após os bem-sucedidos, mas depois estagnados Acordos de Oslo nos anos 90.

"Durante toda minha infância, tive medo de andar de ônibus", recordou Maor, em alusão à Segunda Intifada, levante palestino armado que ocorreu de 2000 a 2005. "Quase todo dia viam-se imagens pavorosas de pessoas destroçadas dentro de ônibus", disse. "E (a Intifada) ocorreu no exato momento em que o movimento pela paz (israelense) era o maior", acrescentou Maor, que se identifica politicamente como de centro-esquerda. "Muitas pessoas olham para onde estamos hoje, e aí se tornam mais de direita."

Considere um israelense com 30 anos. Ele tinha 10 quando o então premiê israelense, Yitzhak Rabin, e o presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, se encontraram na Casa Branca para assinar os Acordos de Oslo; 16 quando começou a Segunda Intifada; 18 quando Israel começou a construir uma segunda barreira com a Cisjordânia (idade em que os israelenses entram no serviço militar obrigatório); 21 quando Israel retirou seus soldados e assentados da Faixa de Gaza; 24 quando Israel e o Hamas entraram em guerra em Gaza. Sua infância foi marcada pela promessa de paz; seus anos de adolescência por uma violência intensa; seu começo da vida adulta por políticas de segurança, separação e conflitos esporádicos.

Essa linha do tempo não é, evidentemente, a única razão por que israelenses jovens estão virando para a direita. Considere, por exemplo, as taxas de natalidade entre grupos israelenses tradicionalmente de direita. Os judeus que vivem em assentamentos na Cisjordânia têm em média dois filhos a mais por família do que os judeus que vivem dentro das fronteiras de Israel pré-1967. Os haredim que vivem na Cisjordânia, a seita judaica mais estritamente religiosa, têm uma média de 7,7 filhos por família. Nem todos os assentados judeus são de direita e, com certeza, nem todos os filhos de pais de direita se tornam eleitores conservadores. Mas muitos sim.

Os jovens palestinos também cresceram durante a Segunda Intifada e a era pós-Oslo de assentamentos judeus e muros de segurança, com o processo de paz de Oslo como uma vaga lembrança. Muitos ficaram descontentes com sua liderança e, em alguns casos, se afastaram totalmente da política.

Numa pesquisa realizada no ano passado, 73% de jovens palestinos na Cisjordânia e em Gaza declararam que não pertencem a nenhuma facção política - desses, 39% disseram que era pela "falta de confiança nas facções políticas" e 20% que os partidos políticos "não representam seus interesses e perspectivas". A política palestina está dividida desde uma breve guerra civil em 2007, quando o Hamas se apoderou de Gaza e o Fatah reteve o controle da Cisjordânia. Os dois partidos finalmente formaram um governo de unidade no mês passado, mas os sequestros recentes e a batalha resultante entre forças israelenses e do Hamas estão ameaçando desfazer esse arranjo. / Tradução de Celso Paciornik

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.