A quase inviável oposição venezuelana

Além das preocupações e desafios inerentes às campanhas políticas, candidatos antichavistas têm de tomar algumas medidas para sobreviverem

JUAN, NAGEL, FOREIGN POLICY , O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2013 | 02h03

Na terça-feira, o líder da oposição venezuelana, Henrique Capriles, viajou para Maracay, uma grande cidade a cerca de 100 quilômetros de Caracas, para ajudar na campanha do candidato local a prefeito. O que deveria ser uma parada de rotina se transformou em violência quando o ônibus de Capriles foi atacado com coquetéis Molotov por uma gangue de motociclistas chavistas. O palco em que ele falaria foi incendiado. Apesar de tudo, Capriles não se abalou. "Se algo acontecer comigo", disse ele, enigmaticamente, a seus seguidores, "vocês sabem o que fazer".

O incidente ressalta a dificuldade inerente de se opor a um governo como o do presidente Nicolás Maduro. Em um país com uma das mais altas taxas de homicídio do mundo, onde cada instituição do Estado está sob controle do governo e onde as pressões sobre a mídia independente crescem a cada dia, opor-se ao chavismo não é para pessoas de coração fraco.

Os expoentes da oposição são pressionados em várias frentes. No início deste ano, o candidato mais bem colocado na disputa pela prefeitura de Maracay foi expulso da Assembleia Nacional sob pretexto duvidoso. Ele também foi impedido de concorrer a cargos políticos, deixando sem comando a oposição na cidade. No último sábado, o organizador do tour de Capriles foi detido e solto. O candidato a prefeito de Valência, terceira maior cidade da Venezuela, está sendo acusado de corrupção. Parlamentares da oposição foram fisicamente atacados em diversas oportunidades.

Algumas semanas atrás, Caracas despertou com centenas de cartazes espalhados pela cidade exibindo fotos gravemente distorcidas de Capriles e dois outros líderes importantes da oposição - que seriam os culpados por todas as mazelas econômicas do país e formariam a "trilogia do Mal" (sic). Há poucos dias, um candidato à Câmara de Vereadores de um município do Estado de Zulia foi assassinado por disparos de um veículo em movimento na cidade de Mene Grande.

A oposição também está tendo dificuldade para passar sua mensagem. Após ser adquirida por empresários favoráveis ao governo, a TV a cabo Globovisión, que já foi um baluarte da oposição, barrou Capriles de suas transmissões. Em resposta, ele foi obrigado a lançar seu próprio canal de televisão na internet, a Capriles.tv, mas seu alcance é limitado, porque a internet ainda tem alcance restrito na Venezuela.

Com a TV e o rádio sob controle, o governo está saindo em perseguição de outras mídias. Há alguns dias, o procurador-geral abriu processo contra o jornal El Universal, um dos principais da Venezuela, alegando que imagens violentas foram impressas em sua primeira página.

O governo também persegue o tabloide antichavista Tal Cual, chefiado pelo icônico jornalista e político Teodoro Petkoff. O governo tem atacado até o Twitter, pedindo que o site bloqueie as contas de pessoas que falam sobre a taxa de câmbio no mercado negro e questionando a suspensão de contas que defendem Maduro.

O outro desafio que a oposição enfrenta é o financiamento. É fato conhecido que o governo venezuelano usa recursos públicos para campanhas políticas em apoio a candidatos governistas ou para subornar políticos de oposição, como um legislador chavista admitiu ter feito recentemente. Do lado oposto, as atividades de empresários que financiam a oposição estão sendo cada vez mais inspecionadas. Há poucos dias, a casa de um destacado banqueiro de oposição foi invadida por partidários de Maduro.

No entanto, com as finanças públicas venezuelanas em condições lastimáveis, o governo agora ataca empresas privadas com fins políticos. Após Maduro ter ordenado que seus cidadãos atacassem várias lojas de eletrodomésticos, as pessoas correram para comprar aparelhos de televisão e ar-condicionado baratos e ocorreram alguns saques. Com essa medida, o governo parece ter conseguido um salto de popularidade. Agora, Maduro virou seu olhar para o Departamento de Estatísticas do Banco Central, sugerindo que a inflação do próximo mês deveria ser negativa graças a suas políticas.

As eleições também são um desafio. Além dos obstáculos usuais - numerosas irregularidades eleitorais foram denunciadas na eleição presidencial, em abril, e nunca foram complemente resolvidas -, o governo chavista agora tem de se preocupar com as eleições locais. Em resposta à ameaça percebida, Maduro declarou a data da eleição "dia de lealdade e amor a Hugo Chávez", quando são esperadas celebrações e comícios por todo o país.

Apesar de todos esses problemas, a violência política generalizada ainda não é um fator importante. No entanto, como a Venezuela está diante dessa perspectiva funesta, muitos analistas estão alarmados. Afinal, basta um fósforo para deflagrar uma proverbial situação explosiva.

A oposição da Venezuela opera num ambiente político tóxico, onde as regras normais de campanha não contam. A oposição em um país normal se concentraria tipicamente na transmissão de sua mensagem e nas preocupações dos eleitores. A oposição venezuelana, por sua vez, tem de se concentrar em sobreviver ao dia seguinte. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É BLOGUEIRO DA 'FOREIGN POLICY'

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