A questão é o Irã nuclear

Lula tem 'influência bem modesta' na região, mas deve usar prestígio brasileiro para conter ambições iranianas

Ely Karmon, O Estadao de S.Paulo

17 de março de 2010 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro chefe de Estado brasileiro a visitar a Terra Santa desde que o imperador Dom Pedro II a visitou em 1876, um grande acontecimento, de fato, para Israel e para o Brasil.

Desde o início de 2009, parece que o Brasil e Lula, pessoalmente, estão engajados numa ofensiva diplomática no Oriente Médio, centrada na posição internacional do Irã. Após uma tentativa fracassada de visita em maio, em razão de problemas eleitorais, Mahmoud Ahmadinejad tornou-se em novembro o primeiro presidente do Irã a ser recebido no Brasil. A despeito de críticas americanas, e até mesmo internas, à leniente posição brasileira sobre o programa nuclear e à contestada eleição no Irã, Lula recebeu Ahmadinejad calorosamente.

Ante esse tremendo sucesso de penetração do Irã na América Latina, a diplomacia israelense finalmente redescobriu o continente. O chanceler Avigdor Lieberman visitou o Brasil em julho, seguido pelo presidente Shimon Peres em novembro - a primeira visita de um presidente israelense ao País em 40 anos. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, também esteve no Brasil em novembro.

Tudo indica, portanto, que Lula aproveitou essa oportunidade para envolver o Brasil no processo de paz e agir como mediador no conflito israelense-palestino e nas relações americano-iranianas. Mas a relação do presidente brasileiro com o Irã tem sido considerada conflitante com as políticas do Ocidente para isolar e impor sanções ao Irã por seu controvertido programa nuclear. O Brasil, em geral, tem apoiado o esforço atômico iraniano, e o presidente Lula considera que o Irã tem o direito de desenvolver tecnologia nuclear para fins pacíficos, desde que não viole leis internacionais.

Dias atrás, Abbas culpou o Irã por impedir a reconciliação entre sua facção, a Fatah, e o Hamas. O Irã não quer que o Hamas assine o documento de reconciliação proposto pelos egípcios, disse Abbas. Ele argumentou que palestinos deviam "se livrar da tutela iraniana". Pode-se calcular, portanto, que Abbas mais uma vez pedirá a Lula que interceda no Irã para convencer iranianos a parar de interferir no conflito interno palestino.

Abbas ainda possivelmente tentará abrir caminho para um futuro apoio brasileiro à AP, caso a entidade decida apelar a uma declaração unilateral da soberania palestina diante do fracasso das negociações com Israel.

Quanto ao processo de paz, tanto Abbas quanto líderes israelenses acreditam que o Brasil tem "uma influência diplomática bastante modesta". Eles estão apostando principalmente na mediação dos EUA e já estão incomodados com a interferência de alguns atores como Egito, países europeus e outros bem-intencionados do mundo todo.

A liderança israelense insiste em seu diálogo com o presidente brasileiro numa posição mais assertiva sobre o projeto nuclear iraniano, visto como uma ameaça existencial contra Israel. Isso ganha força adicional sobre o pano de fundo da decisão brasileira de não apoiar as sanções contra o Irã e a declaração recente de Lula: "Há outros interesses no Oriente Médio que precisam ser representados... o Irã é parte disso tudo, e alguém precisa conversar com eles."

Ao menos sobre a questão da negação do Holocausto e as ameaças de destruir Israel de Ahmadinejad, o presidente Lular disse palavras claras antes de sua partida para Israel: "O Irã não pode continuar falando que vai destruir Israel. Da mesma forma que disse a Ahmadinejad que é inconcebível negar o Holocausto. Ele existiu, está incrustado na mente da humanidade, e o fato de você ter divergência com Israel não precisa te levar a negar a História." Parece que Ahmadinejad não ouviu Lula quando declarou, dois dias depois, que Israel "atingiu o fim de seu caminho" e não era mais "útil para seus amos (o Ocidente)", que "reuniram as pessoas mais criminosas do mundo e lhes entregaram nossa região com mentiras ".

Assim é que, ironicamente, do lado político, a visita de Lula será ocupada, na maior parte do tempo, com a questão iraniana. Tomara que ele compreenda que a posição do Brasil é de extrema importância na arena global e seu presidente deveria se esforçar para ajudar a conter o programa nuclear do regime radical de Teerã - pelo bem da estabilidade de nossa região, do avanço do processo de paz, da reconciliação interna palestina e do próprio povo iraniano oprimido. TRADUÇÃO CELSO M. PACIORNIK

Pesquisador-sênior do international Institute For Counter-Terrorism (ict) de Herzlyia, Israel

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