A questão não é apenas Obama

Os EUA precisam se unir e promover alterações internas se quiserem ter a influência necessária para reconstruir outros países

THOMAS L. , FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2014 | 02h08

Ultimamente tem havido um festival de comentários lamentando a política externa covarde de Barack Obama. Se ao menos tivéssemos um presidente que montasse cavalos sem camisa, lutasse com tigres ou abocanhasse um pedaço de um país vizinho, nós nos sentiríamos mais seguros. Vossa Excelência, eu me levanto em defesa - parcial - do sr. Obama.

Permita-me começar fazendo uma pergunta que fiz sobre outros países: a política externa americana de hoje está como está por Obama ser o que é (cerebral, cauteloso, desapaixonado) ou Obama está como está em política externa porque os EUA estão como estão (chamuscados por duas guerras e enfraquecidos por uma grande recessão) ou porque o mundo está como está (cada vez mais cheio de Estados falidos e aliados americanos enfraquecidos)?

A resposta é um pouco de tudo, mas eu darei muito mais ênfase à segunda possibilidade. A política externa e a nossa habilidade e disposição de agir no mundo envolvem três coisas: interesses, valores e influência. Temos interesse em nos envolver na Síria ou na Crimeia, nossos valores estão em jogo, e - se isso for verdade - teremos influência para fazer as coisas penderem de maneira sustentável para o nosso lado a um custo acessível?

A influência decorre de duas coisas: a quantidade de recursos econômicos e militares que podemos mobilizar e a unidade de propósito de nossos parceiros no terreno e de nossos aliados em outros lugares.

Eu diria que boa parte do que torna os EUA menos ativos no mundo de hoje é produto da redução de nossa própria influência em razão de ações empreendidas por governos anteriores. As decisões das equipes de George H. Bush e de Bill Clinton de expandir a Otan plantaram as sementes de ressentimento que ajudaram a criar o putinismo.

A equipe de George W. Bush não só presidiu duas guerras malsucedidas, como rompeu com a tradição e cortou impostos, em vez de aumentá-los, para financiar essas guerras, fragilizando nossa economia. O planejamento das guerras foi uma aberração, a execução pior ainda e muitos de nossos "aliados" se mostraram corruptos ou usaram nossa presença para perseguir velhos inimigos.

Como alguém que queria que nos associássemos aos iraquianos para tentar construir uma democracia naquele país - no coração do mundo árabe após o 11 de Setembro -, eu certamente notei e aprendi várias coisas: onde temos parceiros reais - como os curdos, que são a grande história de sucesso não contada da guerra do Iraque -, uma ajuda americana limitada pode ser de grande valia. Aliás, alguém notou que as duas maiores reformas bem-sucedidas no Oriente Médio muçulmano hoje - Tunísia e Curdistão - são lugares onde nosso envolvimento foi nulo? Eles a quiseram e eles a fizeram.

No entanto, onde nossos aliados eram poucos ou estavam muito divididos - Líbia, Síria, Afeganistão e Iraque - seria preciso um envolvimento americano muito mais profundo e mais prolongado para criar uma nova ordem do que a maioria dos americanos toleraria. Fingir que podemos intervir com pouco custo e sem atuar no campo de batalha (vejam a Líbia) e fingir que a prudência de Obama é porque ele sempre foi um medíocre organizador comunitário também é bobagem.

A maioria dos presidentes faz seu nome em política externa atacando inimigos fortes, mas a maioria das ameaças à estabilidade global hoje são Estados em desintegração. Eu adoraria ajudar os reformadores ucranianos a construírem uma democracia funcional, mas essa é uma tarefa tão desencorajadora que seus próprios políticos gastaram duas décadas saqueando o país, de modo que a influência requerida para promover a mudança - US$ 30 bilhões em fundos de salvamento - é enorme.

Precisamos conter a China na Ásia, mas isso não é fácil quando devemos quase US$ 1,3 trilhão a Pequim em razão de nosso desregramento alimentado pelo crédito. Apoio resistir a uma intervenção de Putin na Ucrânia, mas é difícil enfraquecer esse "petroditador" sem uma política nacional de energia doméstica que derrube o preço do petróleo e crie alternativas.

É verdade que Obama poderia fazer mais para tomar as rédeas da situação na Ucrânia, mas também é verdade que Gerard Schroeder, ex-chanceler da Alemanha, hoje preside o conselho de uma gigantesca companhia de petróleo russa. Pense nisso. Os europeus não querem peitar Putin.

Nosso maior problema, porém, não é a Europa ou Obama. Nosso maior problema somos nós e nossa própria paralisia política. O mundo leva os EUA a sério quando nos vê fazendo de maneira unida coisas grandes e árduas - quando lideramos pelo exemplo. Se quisermos nos dedicar mais à reconstrução de nações no exterior, precisamos nos empenhar mais na construção do nosso próprio país - com investimentos em infraestrutura, substituição de impostos de renda e corporativos por um imposto sobre o carbono, um novo grande impulso para a eficiência energética e o gás natural explorado de maneira apropriada, a construção de competências e a reforma da imigração, além de um reequilíbrio fiscal gradual no longo prazo. É assim que nos fortaleceremos e enfraqueceremos Putin.

O mais assustador para mim, no mundo atual, é o fato de que não estamos nem realizando uma reconstrução inteligente de países no exterior para tornar o mundo mais estável, nem uma reconstrução de nação inteligente em casa para tornar os EUA mais resistentes e fortes. Precisamos das duas coisas para ficarmos seguros. É difícil trocar um pneu furado quando o macaco está quebrado ou está apoiado em areia movediça. Isso não tem a ver apenas com Obama. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA

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