A quinta coluna

Caminhar à beira-mar entre Marbella e Puerto Banús numa manhã clara é uma experiência fascinante: ouvimos todos os idiomas do mundo e do outro lado do mar divisamos a costa africana: manchas verdes acinzentadas que gradualmente desaparecem e pouco depois reaparecem em formas que devem ser colinas ou montanhas. Um pouco mais ao sul, está Ceuta, a bela e dinâmica cidade onde há um mês passeis três dias intensos, impressionado com seus parques, o museu que nos narra sua história milenar na qual todas as civilizações mediterrâneas deixaram sua marca, preservada pelos ceutenses com orgulho, além da magnífica vista do encontro, a seus pés, do Mediterrâneo com o Atlântico.

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 10h40

Mas o que mais me comoveu em Ceuta foi a convivência civilizada entre religiões: cristãos, muçulmanos, judeus, hindus vivem em harmonia e amizade, algo exemplar nesses tempos inflamados de guerras religiosas. Foi uma impressão superficial e apressada, como as notícias vêm demonstrando. Na sombra daquele lugar pacífico, uma pequena quinta coluna de fanáticos islamistas preparava-se para romper aquela paz com atentados terroristas. Descobertos em tempo, cerca de 20 foram presos. Mas a ameaça persiste.

Todas as manhãs que faço essa caminhada não consigo deixar de pensar nessa África que percebo à distância, no entusiasmo com que, como tantos milhões de pessoas no mundo, acompanhei esse movimento de rebeldia e liberdade, a Primavera Árabe, que sacudiu em sua base Tunísia, Líbia, Egito e agora continua na Síria.

Foi exaltante ver como, enfim, essas populações davam um basta ao anacronismo em que viviam, ao despotismo, à corrupção, à miséria, ao abuso dos direitos humanos e exigiam justiça, democracia, modernidade.

Enfim, seriam entronizados na África e no Oriente Médio sistemas democráticos e liberais no estilo ocidental? Estou convencido de que muitos dos milhões de jovens que foram às ruas reivindicar a liberdade desejavam isso realmente, embora nem todos tivessem uma ideia clara de como materializá-la no âmbito social e político. Mas não tinham líderes, organizações, nem a experiência indispensável e, ao chegar ao poder, os problemas começaram. E a quinta coluna, minoritária, mas animada pela fé cega de deter a verdade e convencida de que todos os meios são válidos para impor sua verdade, mesmo que sejam os crimes mais horrendos. Então, começou a agir, conquistar terreno, a reinar na confusão e se impor usando da prepotência e da violência. Não podemos dizer ainda que os islamistas radicais venceram a partida, felizmente. Mas, com certeza, a ideia de que a grande mobilização popular contra as ditaduras de Kadafi, Mubarak, Ben Ali e Assad resultaria na instalação de democracias mais ou menos funcionais foi uma ilusão. A quinta coluna islamista não triunfou em nenhum lugar, contudo, ficou claro que, enquanto ela existir, nenhum regime com base em legalidade e liberdade será estável e duradouro nos países árabes.

O caso do Egito é particularmente trágico. As massas que saíram às ruas para condenar a ditadura militar de Mubarak triunfaram, depois de centenas de jovens oferecerem suas vidas nos protestos e milhares serem presos. Pela primeira vez em sua história milenar, o país realizou eleições livres. E a vontade popular levou ao poder um movimento religioso que sofreu duras perseguições ao logo de várias décadas: a Irmandade Muçulmana, sob a presidência de Mohamed Morsi. Em vez de construir uma democracia, o novo mandatário e seus colaboradores dedicaram-se a impedi-la, seguindo, de fato, a prescrição da quinta coluna, ou seja, o islamismo mais radical.

Os cristãos coptas, que constituem 10% da população, foram acossados, perseguidos e alguns, assassinados. Foram sancionadas leis que não respeitavam os direitos humanos e os violentavam abertamente, encaminhando o país para o reino da sharia, a imposição do véu, a discriminação da mulher, o desaparecimento do ensino laico e misto, a deformação da Justiça e da informação, sujeitando-se à vontade dos clérigos. Em um ano de governo, Morsi não só acabou de arruinar a economia e semear o caos na administração e na ordem pública. Ele, sobretudo, apesar das suas afirmações em contrário, serviu de cavalo de Troia para os islamistas fanáticos.

Milhões de egípcios voltaram às ruas para protestar e enfrentar os capangas, a polícia e novamente sangue foi derramado na Praça Tahrir, nas cidades e nos campos. A quem os rebeldes enfurecidos recorreram buscando ajuda? Ao Exército! Ou seja, à mesma instituição que, sem ter vencido nenhuma das guerras egípcias, ganhou todas contra seu próprio povo, pois foi o sustentáculo mais firme das ditaduras que o país suportou desde sua independência. Agora, o Egito converte-se novamente numa satrapia militar.

O regime prometeu convocar eleições, mas todos os golpistas de Estado prometem sempre a mesma coisa e nunca cumprem. Há esperança de que não será assim no Egito? Espero que sim, mas confesso, tristemente, que não a vejo em parte nenhuma. E se, na duvidosa possibilidade de novas eleições livres, a Irmandade Muçulmana vencer de novo? Valeu a pena esse gigantesco sacrifício para o país se converter numa ditadura religiosa?

A situação na Síria não é menos trágica e paradoxal. A revolta contra o tirano Assad, que demonstrou ser ainda mais sanguinário do que seu pai, foi comemorada em todo o mundo democrático. No Ocidente, houve uma pressão crescente da opinião pública para os governos ajudarem os rebeldes desarmados, pelo menos do mesmo modo que ajudaram os líbios que se levantaram contra Kadafi. Mas a imagem de um comandante rebelde abrindo o peito do soldado que acabara de matar e comendo seu coração em frente às câmeras e também a participação ativa, ao lado da oposição democrática síria, de organizações terroristas como comandos da Al-Qaeda e do Hezbollah, arrefeceram muito as simpatias pela causa.

E se a queda de Assad significar para os sírios uma alternativa pior? E se a satrapia corrupta e tirânica de hoje for substituída por um regime islamista fanático em que o mínimo de tolerância desaparecerá e as mulheres sírias retrocederão a uma condição tão bárbara como a vivida pelas afegãs durante a ditadura taleban? Tenho alguns amigos muçulmanos, pessoas cultas, modernas, tolerantes, genuinamente democráticas, e todos garantem que não há nada em sua religião que não seja compatível com um sistema político de índole democrática e liberal, de coexistência na diversidade, que respeita a igualdade dos sexos e os direitos humanos. E, claro, acredito neles.

Mas, por que não temos ainda um único exemplo que demonstre tudo isso? É o que me pergunto, já de regresso a Marbella e à clínica onde me encontro. A Turquia parecia ser esse exemplo, mas, depois dos últimos acontecimentos, é arriscado acreditar nisso. Com muita discrição e sabedoria e, o que é pior, com o apoio de um amplo setor da população, o governo de Erdogan socavou a institucionalidade e substituiu-a com medidas inspiradas na religião.

Isso mobilizou um amplo setor da sociedade que não quer que o país retorne aos tempos anteriores a Kemal Ataturk, que acreditou ter colocado um fim definitivo. Não tem sido assim. A radicalização islamista do governo de Erdogan, cujo partido se vangloria de adotar um islamismo moderado e moderno, tem algo a ver, sem dúvida, com a desconfiança ou o repúdio aberto na Europa ao empenho da Turquia para aderir à União Europeia.

Sempre pensei que essa desconfiança era injusta e seria bom para a Europa e para todo o Oriente Médio que uma democracia muçulmana fizesse parte do bloco. Hoje, porém, duvido que possamos chamar de democracia aquilo em que Erdogan e seu partido transformaram a Turquia.

Ninguém deseja tanto como eu que os países muçulmanos rompam esse círculo vicioso entre ditadura militar e ditadura clerical. Mas, cada vez mais, me convenço de que esse salto não passará pela política, mas pela religião, pela retração do islamismo a um mundo privado, familiar e individual, de modo que a vida política possa ser laica. Enquanto isso não ocorrer, será a eficiente quinta coluna a continuar dando as cartas nos países muçulmanos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO  * É ESCRITOR, PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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