A Quinta República está se consumindo?

A norma, desde o presidente Nicolas Sarkozy, tem se centralizado na exposição privada da potência masculina e a exibição pública de impotência política

Robert Zaretsky*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2014 | 02h02

Os futuros historiadores da França poderão muito bem decidir que a Quinta República morreu como nasceu: num incidente de trânsito.

Como a França e grande parte do mundo sabem, recentemente, fazia parte da rotina matinal do presidente François Hollande fazer o percurso, com sua moto, entre o Palácio do Eliseu e o apartamento na Rue du Cirque, para seu rendez-vous com a atriz Julie Gayet. Enquanto sua companheira, Valérie Trierweiler, e seu ministro do Interior, Mauel Valls, estavam totalmente alheios a essas escapadas, paparazzi, com suas câmeras voltadas para o prédio, fotografavam Hollande de capacete entrando e deixando o imóvel pela porta da frente.

Tudo isso é muito estranho para os americanos. Não estamos acostumados com presidentes saindo por aí de moto, como também nossos presidentes não estão habituados à indiferença da sociedade com relação à sua vida privada. Sim, apesar de toda a atenção, mais de três quartos dos franceses ainda acham que este caso não lhes diz respeito.

O affair Hollande, contudo, parece cada vez mais inusitado também para os franceses - pelo menos aqueles que se lembram de um incidente de trânsito anterior. Em agosto de 1962, próximo de uma rotatória no subúrbio de Petit-Clamart, o presidente Charles de Gaulle dirigia seu carro, tendo ao lado sua mulher e seu genro, quando assassinos, com metralhadoras, atiraram contra o Citroën presidencial que ficou cravado de balas. Milagrosamente, todos, incluindo as galinhas que a senhora de Gaulle havia colocado no porta-malas, sobreviveram ilesos.

A emboscada revelou não apenas o sangue-frio do presidente, mas também sua sagacidade política. A nação aliviada prestou total apoio a De Gaulle, aprovando um referendo que permitiu a eleição direta para presidente. Foi a coroação da Quinta República, instituição que De Gaulle começou a erigir em 1958.

Deliberadamente, esta República diferiu das anteriores. As quatro primeiras privilegiaram o governo parlamentar, mas a quinta outorgou máximos poderes ao presidente - a ponto de parecer uma monarquia.

Eleito pelo povo, o presidente prestava contas apenas ao povo: ele governava a nação, ao passo que seus ministros administravam o Estado e o Parlamento rubricava seus desejos. Além disso, De Gaulle investiu suas qualidades pessoais na presidência: austeridade e severidade, dogmatismo e imparcialidade, habilidade para ficar acima da turbulência da política.

Esse era o caráter de um monarca republicano, crucial em tempos de crise nacional. Mas não era o caso em 1958, quando a guerra na Argélia extravasou para a França, mas também no final da 2ª. Guerra, quando as visitas do general às cidades francesas libertadas tinham o mesmo caráter daquelas realizadas por reis. Todos os homens e mulheres avançavam na direção do presidente na esperança de vê-lo, tocá-lo, ouvi-lo. Todas as autoridades conseguiam legitimidade pela aura do general.

Graças ao seu sagaz criador, essa concepção de presidência chegou às raias do mito. E certamente De Gaulle cultivou com esmero essa persona pública. Mas, como o escritor (e ministro gaullista da Cultura) André Malraux observou, ele esteve à altura do mito. Com efeito, de Gaulle talhou o cargo de presidente às dimensões políticas que só ele conseguiu atingir. Talvez por esta razão ele um dia observou: "Não tive predecessor e não terei nenhum sucessor".

A previsão nunca foi mais real numa França fascinada pelas notícias e fofocas envolvendo celebridades e figuras públicas, típicas de um jornalismo que associamos a revistas como a People, que derrubou o muro entre vida pública e privada no mundo político francês.

Há menos de uma década, mesmo o mais grosseiro dos tabloides franceses, como o Voici, não ultrapassou o limite que tabloides americanos e ingleses com prazer desrespeitaram. As restrições eram judiciosas e judiciais: assuntos privados de um político, de acordo com a lei e os costumes franceses, não tinham nenhuma relação com suas obrigações públicas. Mesmo a vida privada do presidente François Mitterrand com sua amante Anne Pingeot e sua filha Mazarine permaneceram assunto privado até ele deixar o cargo.

Com a internet e a ubiquidade da mídia eletrônica, isso acabou. Segundo o sociólogo Jamil Dakhlia, essa transformação ocorreu no caso de duas figuras públicas que estiveram intimamente ligadas a François Hollande: sua ex-companheira Ségolène Royal e seu maior adversário, Nicolas Sarkozy. Na disputa pela presidência em 2006, Sarkozy e Ségolène Royal permitiram aparecer nos tabloides em roupas de banho.

O que foi rapidamente seguido pela midiatização de seus respectivos dramas conjugais: o divórcio de Sarkozy da sua mulher Cecília e seu romance tempestuoso com a modelo Carla Bruni, e a separação de Ségolène Royal de François Hollande após seu caso com uma jornalista chamada Valérie Trierweiler.

A república gaullista foi um fato tanto cultural quanto político, mas a cultura e a política francesas mudaram bastante. Diante dos apelos persistentes no sentido de uma Sexta República, que fortaleceria os poderes do Parlamento, é possível que a República Gaullista tenha perdido sua finalidade?

Num sistema político onde tudo gira em torno da esfera da presidência, um presidente sem muito peso só pode causar confusão. Charles de Gaulle, que trocava seu traje apenas para vestir seu uniforme de general, jamais apareceu na capa de uma revista usando um traje de banho. E jamais dirigiu uma moto.

François Hollande venceu a eleição presidencial com a promessa de ser o "Sr. Normal". Mas como o modelo gaullista deixou claro, não existe lugar para um "normal" nesta república. E isso é ainda mais verdade quando a norma, desde Nicolas Sarkozy, tem se centralizado na exposição privada da potência masculina e a exibição pública de impotência política.

O comentarista Franz-Olivier Giesbert sugeriu que Hollande é incapaz de agir com base no "princípio da onipotência" na presidência. E faz uma pergunta: "isso é falha da constituição de Hollande ou da Quinta República?"

*Robert Zaretsky é professor de história na Universidade de Houston e autor de 'A Life Worth Living: Albert Camus and the Quest For Meaning'.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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