A razão da desigualdade

Quem é o culpado pelo fato de a desigualdade econômica ter aumentado tanto nos últimos tempos? Para muitos, a resposta é óbvia: os banqueiros. O setor financeiro é o principal responsável pela crise econômica mundial que começou em 2008 e cujas consequências ainda afetam milhões de desempregados e uma classe média que empobreceu, especialmente na Europa e nos EUA. Quem defende esta ideia destaca que os banqueiros e especuladores financeiros que provocaram a crise não arcaram com nenhum custo, ou melhor, muitos ficaram ainda mais ricos.

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2014 | 02h04

Para outros, o aumento da desigualdade tem a ver com os miseráveis salários pagos a trabalhadores em países como China e Índia. O que empurra para baixo a remuneração dos trabalhadores do resto do mundo e causa desemprego, uma vez que as empresas "exportam" postos de trabalho do Ocidente para o Oriente.

No entanto, a questão é mais complicada e profunda, segundo Thomas Piketty, economista francês cujo denso livro Capital no Século 21 transformou-se num surpreendente sucesso mundial. Segundo ele, o capital (que equivale à riqueza e esta, por sua vez, a propriedades imobiliárias, ativos financeiros, etc) aumenta em maior velocidade do que a economia.

Os ganhos produzidos pelo capital (aluguéis de imóveis, rendimentos de investimentos, por exemplo) concentram-se num grupo mais reduzido de pessoas do que a renda fruto do trabalho, que se dispersa por toda a população. Por isso, quando os ganhos de capital aumentam mais rapidamente do que os ganhos do trabalho o resultado é um aumento da desigualdade, já que os donos do capital acumulam uma porcentagem maior da renda. E, como o crescimento da renda produzida pelo trabalho depende muito do crescimento da economia como um todo, se esta não cresce pelo menos no mesmo ritmo que os ganhos de capital a desigualdade econômica se agrava.

Piketty resume a complicada explicação desta maneira: quando "r" é maior que "g", a desigualdade aumenta. O valor "r" é a taxa de remuneração do capital e "g" a taxa de crescimento da economia. Segundo ele, no longo prazo, a economia crescerá entre 1% e 1,5% ao ano, de modo que a desigualdade deverá aumentar. Para evitar que isto ocorra, ele recomenda a criação de um imposto global e progressivo sobre a riqueza, ideia que ele próprio admite ser utópica, pois enfrentará enormes obstáculos políticos como também grandes dificuldades práticas.

A análise e as propostas do autor vêm sendo amplamente debatidas e, como escrevi em minha coluna anterior, o inusitado interesse pelo livro deve-se em grande parte ao fato de que ele foi lançado num momento em que a desigualdade tornou-se uma grande preocupação nos EUA.

Este país tem uma capacidade única para contagiar o resto do mundo com suas angústias. Assim, nações onde a desigualdade é uma doença crônica e não intensamente discutida, agora foram contagiadas com o fenômeno Piketty, o que é uma notícia muito boa. É importante que a complacência com as profundas desigualdades que os afligem desapareça.

É importante, porém, fazer um diagnóstico claro. Na Rússia, Nigéria, Brasil ou China a desigualdade econômica não é porque "r" é maior que "g". Deve-se ao fato de que há demasiados ladrões no governo e no setor privado que podem roubar praticamente sem riscos e com grande impunidade.

Parafraseando o economista, nas sociedades em que "c" é maior do que "h", a desigualdade continuará aumentando. O valor "c" é o número de funcionários públicos e políticos corruptos dispostos a violar as leis para enriquecer e "h" é o número de funcionários e políticos honestos. Pikkety baseia sua análise em dados de cerca de 20 países, a maioria deles com receitas elevadas e os menores índices de corrupção de acordo com a lista de 177 nações da ONG Transparência Internacional. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO

DO CARNEGIE ENDOWMENT, COM SEDE

EM WASHINGTON

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