A razão pela qual gostamos de política

'Lincoln' retrata nobreza da atividade na medida certa

É COLUNISTA, DAVID , BROOKS, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, DAVID , BROOKS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h07

Vivemos um momento antipolítico, no qual muitos, principalmente os jovens, pensam que a política é algo baixo, sujo, corrupto e inútil. Mais nobre é prestar serviço comunitário ou pelo menos evitar todo este estardalhaço podre.

Espero que todos os que compartilham deste espírito antipolítico assistam ao filme Lincoln, dirigido por Steven Spielberg, com roteiro de Tony Kushner, que retrata a nobreza da política exatamente da maneira certa.

Ele mostra que é possível ter uma atuação muito mais positiva na política do que em qualquer outra esfera. Pode-se acabar com a escravidão, abrir oportunidades e combater a pobreza. Mas tudo isso só será possível se as pessoas estiverem dispostas a macular o próprio caráter a fim de servir a interesses alheios - se estiverem dispostas a enganar, trapacear, ceder a interesses, ser escorregadios e hipócritas.

O desafio da política consiste precisamente em combinar uma visão elevada com uma astúcia grosseira. O filme de Spielberg trata disto. O herói tem uma elevada visão ética, mas também a coragem de agir de maneira moralmente perigosa a fim de tornar essa visão uma realidade.

Para governar o país no meio de uma guerra, para conseguir com a trapaça que o Congresso aprove suas ideias, Lincoln sente-se impelido a ignorar as decisões dos tribunais, comprar apoio político, lançar mão de firulas jurídicas, enganar os que o apoiam e aceitar o fato de que, ao solucionar um problema, acaba criando outros mais adiante.

A política é algo pobre porque envolve o compromisso pessoal pelo bem público. Este é um filme comedido que celebra pessoas prudentes, disciplinadas, ambiciosas e persistentes o bastante para cumprir esta tarefa.

Ilustra também outra coisa: que a política é o melhor campo para aprimorar as virtudes mais nobres. A política envolve uma série perigosa de testes para o caráter: até que ponto as pessoas conseguem se curvar para conquistar sem destruírem a si mesmas; quando elas devem ser leais à sua equipe e quando devem abandoná-la; como lutar com as tentações da fama - e as pessoas que a praticam e não perdem sua integridade, como Lincoln, Washington ou Churchill, são absolutamente admiráveis.

O filme mostra a trajetória da construção de um caráter, comum entre os grandes políticos, que poderíamos chamar de a trajetória do Discurso de Gettysburg ao Discurso da Segunda Posse.

Na fase de Gettysburg, um governante expressa grandes ideias. Isso é relativamente fácil. Muitas pessoas abraçam grandes ideais ou ideologias que tudo explicam. Entretanto, satisfeitas com isto, elas se tornam moralmente infantis. Recusam-se a aceitar o compromisso, insultam seus adversários e isolam-se no poleiro do seu próprio solipsismo.

Mas um político como Lincoln dá o passo seguinte nesta trajetória. Ele precisa tratar com outras pessoas. O Lincoln de Spielberg celebra da maneira mais precisa uma arte desvalorizada, a arte de legislar.

O filme fala das pressões exercidas para que a 13ª Emenda fosse aprovada na Câmara dos Deputados. Os agentes políticos que Lincoln contrata estudam os congressistas individualmente a fim de descobrir quais deles se renderão ao apelo do coração e quais ao da carteira.

Lincoln toca cada convertido em potencial como um instrumento musical, apelando para o idealismo de uns e para a lealdade fraterna de outros.

O mais difícil é fazer com que os seus mais fiéis partidários se anulem, afirmem coisas nas quais não acreditam a fim de não ofender os indecisos, que são imprescindíveis para a aprovação da emenda.

Isso nos leva ao segundo passo da trajetória para a construção do caráter, que poderíamos chamar de a solidão do comando. Perto do fim da guerra civil, Lincoln precisava escolher entre dois bens contrastantes: a paz imediata e o fim definitivo da escravidão. Ele teve de abrir mão rapidamente do processo de paz, que teria permitido salvar milhares de vidas, a fim de garantir um objetivo muito maior.

Ele teve de discernir o bem essencial, a igualdade da lei para todos, entre uma série de outras questões. Teve de usar uma torrente constante de palavras, histórias, alusões e argumentos para bajular. Teve de conviver com uma multidão de suplicantes que eternamente queriam coisas à sua porta, sem se sentir arrogante ou superior a eles.

O filme minimiza até que ponto a política pode ser árdua. A questão moral neste caso é relativamente nítida: escravidão ou não escravidão.

A maioria das questões não é tão simples. O projeto de lei refere-se a uma emenda constitucional. Não se trata de mudar esta ou aquela subseção, e depois ficar imaginando até que ponto todo o conjunto foi destruído.

Os políticos que conseguem vencer estes desafios na realidade saem da experiência com o peso imponente expresso no Discurso da Segunda Posse de Lincoln. É um discurso que reconhece a ambiguidade moral de ambas as partes. É um discurso no qual Lincoln, no meio do embate, é capaz de se colocar numa posição de vantagem, personificando uma perspectiva bíblica e trágica das questões humanas. A sabedoria de Lincoln emerge precisamente do fato de que ele teve de prejudicar alguns bens.

A política não produz muitos Lincolns, mas produz pessoas impressionantes, e às vezes, grandes resultados. Reserve algumas horas do seu passeio pelo shopping. Veja o filme. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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